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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

10
Abr18

Chaves D´Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. FOLGUEDOS JOANINOS.

 

Dona Violeta, a mulher de Messias Bacelar, convocou as raparigas a um ritual que, em similitude com a Festa de Brotas, bem se poderia originar de algum antigo costume pagão. Consistia em saltarem as moças por cima da fogueira, para se purificarem e, no que parecia um acréscimo da dona da casa, guardarem-se limpas para o casamento. A simpática senhora ainda se preocupava, certamente, com as preciosas filhas, ainda desfrutáveis, embora já estivessem predestinadas a amadurecer nos cachos, uma vez que, dificilmente, haveria lavradores para colhê-las.

 

Ao chegar sua vez de pular a fogueira, Aurita avistou Hernando e quase caiu do outro lado. Eis que foi amparada pelo próprio cigano o qual, para esse gesto assim, tão cavalheiresco, até já parecia estar ali de propósito. Daí a mais, lá estavam os dois a trocar juras de eterna amizade, dando três voltas ao fogo e a dizerem as palavras da tradição – Por Santo António, São Pedro e São João, eu, Aurora Bernardes, juro que serei sempre amiga de ti, Hernando Camacho, até ao dia em que o bom Deus houver por bem me apagar o lume! – e ele – Também sempre serei teu amigo, Aurora Bernardes, por São João, São Pedro e Santo António, até ao dia em que…

 

Migalho seguinte, porém, no momento em que todos gritavam e corriam para ver o Jogo da Panela, os namorados secretos aproveitaram para pular a fogueira de mãos dadas e jurar, entre si, amor eterno. Por Santo António, São Pedro e São João!

 

 

Brincava-se, então, o Jogo da Panela. Diante de um pote leve de barro, cheio de prendas e suspenso a uma árvore, aquele que, em posição estratégica e com os olhos vendados, conseguisse acertar e quebrá-lo, seria o vencedor, às vezes caindo os prémios sobre si mesmo.

 

Chegou a vez do Alfredo e este, após algumas tentativas, alcançou desfazer o pote em mil pedaços. Ao invés de palmas pela façanha, ainda com a venda no rosto, o que sentiu de facto foi molhar-se todo e ouvir o povo às gargalhadas. Acontece que, ao invés de prendas, puseram no pote apenas água. Pelo mais, essa água ainda fora perfumada com cebolas, alhos e algumas ervas mal cheirosas. Para consolo, porém, trouxeram-lhe alguns brindes de verdade. De qualquer forma, Alfredo achou tudo isso uma adorável patuscada e, daí a nada, de roupa mudada, já se misturava com os graúdos a soltar fogos e, com os pequenitos, a explodir os estalinhos que sobraram do último Entrudo.

 

As meninas casadoiras invocavam Santo António, em papelitos que atiravam à fogueira – Ai meu bom Santo Antoninho / o papel pode queimar / mas guarde bem esse nome / pois é com quem vou casar! – Colocavam, também, dentro de uma vasilha com água pura, junto ao lume, papelinhos dobrados e escritos com aquilo que mais desejassem saber: com quem se casariam; com que idade isso haveria de acontecer; quantos filhos iriam gerar… No papel que abrisse primeiro, ali estaria a sua ansiada resposta.

 

Antes, porém, tinham que rezar – Com a bênção de São João / faço esta adivinhação / Com a bênção do meu santinho / o meu futuro adivinho! – e, como as outras meninas também fizessem pedidos em voz baixa, ao pé do lume, Aurora arriscou-se a rezar uma quadra que aprendera, quando criança – Ó meu rico São João / meu santinho do Cordeiro / me dê um amor para sempre / e saúde o ano inteiro!

 

Dessas práticas, excluíam-se Aldenora, por já estar noiva de Sidónio e as irmãs Bacelar, estas pelo puro snobismo, assim manifesto – Ora por quem sois! – mas se as três, já quase solteironas, não se atiravam a essas improváveis predições, é porque, em verdade, em verdade vos digo, nenhuma delas tinha um nomezinho sequer, de algum mancebo que fosse, para escrever nos papelinhos e rogar, aos santos casamenteiros, por um pretenso marido.

 

Também se faziam adivinhações do futuro, diante do lume, práticas nas quais Zefa de Pitões era mestra e maestrina, sempre bastante assediada para atender a tão mágicos misteres. O que aquelas almas ingénuas não percebiam, inclusive a própria, é que, no geral e no particular, tudo saía mesmo era da fértil imaginação da criada, diante de uns meros gravetos de pau queimado, tirados ao acaso da fogueira.

 

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