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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves, Rua do Postigo das Manas

31.07.18 | Fer.Ribeiro

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Há dias num comentário algures por aí, na net, o Luís de Boticas que de vez em quando se lembra de nos enviar um texto, dizia: — “Tu que gostas tanto da toponímia…”. Pois a verdade é que a toponímia nem me aquece nem me arrefece. O que eu gosto mesmo é de saber a origem e o porquê das coisas, e no caso da toponímia, recorro a ela para, precisamente, saber qual a origem e o porque dos nomes dos nossos lugares, ruas, largos, travessas, etc. Mas geralmente até nem fico satisfeito com aquilo que encontro, pois na maioria das vezes vai-se a origem da palavra que dá o topónimo, que, também na maioria das vezes, o seu significado nada tem a ver com o topónimo, sua origem e porquê.

 

Mas verdade seja dita, a nossa toponímia, a “Toponímia Flaviense” de autoria de Firmino Aires,  até tenta ir ao encontro da origem e porquê do topónimo, nem sempre conseguido, é certo, com algumas invenções pelo meio, também, mas tentou e consegui-o no maioria das vezes.

 

A foto de hoje é tomada a partir da Rua do Postigo das Manas, e tive curiosidade de saber quem eram as manas, pois quanto ao postigo já sei o que é. Daí fui espreitar à toponímia flaviense onde se diz: Desconhece-se a origem do Postigo das Manas. Ora gaita! A minha curiosidade tinha logo de acertar nesta. Mas continuei a ler o resto, que diz assim: Teria a sua origem por em tempos ter sido designado o Largo do Arrabalde por Largo dos Irmãos Rui e Garcia Lopes? – Uhhhh! Desconfio que não, digo eu, se assim fosse seria Postigo dos Manos, e não das manas, a não ser que… Bem, mas continuemos a leitura. “Em 1915 tinha esse nome, conforme consta do Álbum-Guia de Chaves e seu Concelho, Manuel António Rodrigues. Ainda se dizia que ali moravam duas irmãs (manas) muito devotas, que iam com frequência rezar à capela de N.ª Sr.ª da Conceição, que lhe ficava próxima. Será esta a sua origem? — Pois esta já é aceitável. “Terá sido topónimo mais remoto, por naquele lugar haver culto aos mortos, sob o nome genérico dos manes?”. Também podia ser!  Mas o mais acertado é mesmo a conclusão final de Firmino Aires quando diz: “ — Ao certo não o sabemos.”.

 

E prontos, aqui ficou o meu esclarecimento para sabermos quem, afinal, eras as manas da Rua do Postigo das Manas, ou seja, ao certo não sabemos. Mas já é alguma coisa saber que não sabemos. E com esta me bou!

 

 

 

Chaves D´Aurora

31.07.18 | Fer.Ribeiro

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  1. CÉLULA DA PAIXÃO.

 

A intensa friagem de fins do outono e, para já, a imensa gelidez do inverno seguinte, eram mais propícios a que eles se encontrassem na mais plena segurança, pois todo o Caneiro e o Raio X estavam agora a se parecer com os desertos de gelo da Gronelândia. Outros riscos, no entanto, haveriam de enfrentar, pois agora tinham de fazer amor a um cantinho de sitio no porão, bem perto onde Zefa roncava e Maria assobiava. Como sempre fizera, Aurora escondia os lençóis e cobertores a um velho aquecedor de ferro desativado e não foram poucas as noites em que, debaixo dessas mantas, os corpos dos amantes se entrelaçaram, a buscar o fulgor da paixão. Paixão, sim. Fulgor, nem tanto. Em algumas raras vezes, porém, menos pelos carinhos apressados do macho e mais por uma excitação eventual, causada pelo amado no corpo da amante, algum a esta lhe veio. Algunzinho que fez Aurita sentir-se, então, alcandorada aos céus. Dessa vez, no entanto, não com o espírito, como antes lhe adviera em outras vezes, mas com uma sensação muito mais intensa no corpo e a qual ela não sabia explicar, senão pelo desejo de que isso viesse a se repetir, mais e mais, para o seu terno e feminil deleite.

 

Era de tão fugaz duração tal enlevo, todavia, que o seu gajo, ele sim, a estertorar de prazer, nem tomava tento se estava ou não a lhe proporcionar. Portanto, sequer para si mesma, o que fosse aquilo ou como se poderia, outras vezes, atingir, eis que o pejo da rapariga não permitia decifrar, menos ainda, entender.

 

Foi a um desses instantes de plenitude, nos alvores de 1924, quando as cobertas já não eram suficientes para aquecer os amantes, mas o corpo da rapariga estava a arder de amorosa exaltação, que Aurora teve um desses pressentimentos que algumas mulheres dizem ter, no momento certo. Sentiu algo mais de seu homem fixar-se, de repente, dentro de si, como esses botões de flores entre musgos e pedregulhos à beira de um rio, cujas águas não conseguem descolar.

 

Perdida se achava (ou já se perdera, de facto) em seu futuro. Com essa premonição que vinha, agora, anuviar sua mente, esse futuro começava a lhe parecer ainda mais nebuloso, mais incerto do que já o é para todos nós, humanos e mortais. Não mais dizia a Hernando – Casas comigo? – pois o que mais havia por certo era que, ao senhor João Reis, não apetecia casar a filha com esse rapaz, nem tanto por suas origens ciganas e mais por sua fama de mulherengo e aldrabão. Aos Camacho, certamente, também não gostava casar o filho com uma gajina.

 

Falava-lhe, agora, apenas isso – Foges comigo? – ao que o rapaz fugia do assunto e se lhe punha a encher o corpo de carícias, mimos tais que, mesmo apressados, a rapariga nunca se recusava a aceitar e a também retribuir. Chegava até mesmo a lhes dar muito valor, como é frequente ocorrer a certos filhos ou mulheres carentes que, sem nunca terem merecido uma afeição maior de seus respetivos pais ou maridos, consideram as surras que estes lhes aplicam, estejam sóbrios ou embriagados, como os seus únicos momentos de atenção.

 

Sobreveio, então, com a falta de histórias nos seus dias, a confirmação do pressentido. Por todo o mês de fevereiro, os alvos panos íntimos da brasilita ficaram sem a cota mensal de humores encarnados. Março também chegou e não se lhe avermelharam os paninhos. Aurita pediu então a Zefa que lhe explicasse melhor certas coisas, das quais não percebia senão o que era escrito no Verbo, mas ainda estava por saber como isso havia de se traduzir na carne, principalmente a de uma jovem rapariga como ela.

 

(continua)

 

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De regresso à cidade com uma proposta para amanhã

30.07.18 | Fer.Ribeiro

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De regresso à cidade com uma proposta para amanhã, dia 31 de julho. Não é minha, mas partilho-a para quem estiver interessado.

 

Dia 31 de julho, às 8H00

 

Descobrir as aves das lagoas do Tâmega

 

Centro Ciência Viva de Bragança em parceria com Biomater

 

A participação é gratuita, mas de inscrição obrigatória

(inscrições - ver informação no final do post)

 

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Descrição: O rio Tâmega, nas imediações de Chaves, esconde verdadeiros tesouros naturais. Um vale aplanado, no fundo da região montanhosa envolvente, permite a manutenção de várias lagoas, que pela sua peculiaridade albergam várias espécies de aves praticamente inexistentes na restante região transmontana e que tentaremos observar durante esta atividade.

 

Ponto de encontro: Estacionamento na Alameda Galinheira, na margem esquerda do rio Tâmega, a cerca de 70 metros a jusante da ponte da Avenida Mário Soares (ver mapa e ponto GPS disponibilizados).

 

Como Chegar: Deslocação até Chaves. Em Chaves, ir até à Alameda Galinheira, que se situa na margem esquerda do rio Tâmega. Estacionar na extremidade norte desta avenida, a cerca de 70 metros a jusante da ponte sobre o rio Tâmega.

 

Coordenadas GPS: 41.740673976522864 N, -7.463879585266113 O

 

Idade mínima: 10 anos

 

Localidade: Chaves / CHAVES / VILA REAL

 

Duração: 6.00 h

 

Transporte durante a acção: A pé

 

Equipa: Sérgio Bruno Ribeiro

 

Nota: Levar protetor solar, roupa e calçado adequados a caminhadas.
Levar comida e bebida para abastecimento durante o percurso e para pic-nic final.
Se possível, levar binóculos e guias de aves.

 

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Esta atividade insere-se no programa Ciência Viva no Verão, podendo ser consultada informação acerca da mesma e formalizada a inscrição através do seguinte link: 

 

http://www.cienciaviva.pt/veraocv/comum/2018/actividadeshoje.asp?accao=showaccao&id_accao=7120,

 

ou através da página da Ciência Viva no Verão: 

 

http://www.cienciaviva.pt/veraocv/2018/,

 

devendo-se pesquisar a atividade em questão através do mapa ou do motor de busca disponibilizados.

 

 

 

 

Quem conta um ponto...

30.07.18 | Fer.Ribeiro

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 406 - Pérolas e diamantes: A conversa e o decoro

 

 

O avô de Adriano Moreira bem o avisou: “Vocês têm de emigrar destas terras, quando estiverem no meio de muita gente, nunca digam que são transmontanos. Porque os outros podem não o ser e ficam envergonhados.”

 

Depois ele, lá se foi safando até chegar a ministro de Salazar. É agora um digno democrata. Melhor, um democrata-cristão. E ensina: “Quando o senhor tem um regime qualquer e é partidário de reformas, passa logo a ser de esquerda. Eu acho que Jesus Cristo era de esquerda.” O que eu não percebo, até porque o senhor é coerente, é o facto de sendo ele cristão dos quatro costados, ser de direita. Pelos vistos, o exemplo de Jesus não lhe serviu para nada.

 

Razão tem o Ricardo Araújo Pereira. Eles falam, falam, falam, mas não os vejo a fazer nada.

 

Nós, os transmontanos, não abandonamos Trás-os-Montes, vamo-nos deixando ir embora.

 

Já dizia Napoleão: “para entender um homem há que entender o mundo em que vivia aos vinte anos”.

 

Nunca nos chegam no tempo certo os poucos pedaços de conhecimento que conseguimos obter de nós mesmos.

 

É preciso ser cego para não ver. Ou melhor, como dizia a minha avó: é necessário não querer ver para não ver.

 

Joe Gould é capaz de estar certo quando argumenta: “A história de uma nação não está nos parlamentos nem nos campos de batalha, mas naquilo que as pessoas dizem umas às outras nos dias de feira e nos dias de festa, e no modo de cultivar a terra, de querelar, de ir em peregrinação.”

 

Por isso decidiu dedicar-se à História Oral e nunca mais aceitar empregos fixos. Ou melhor, transformou-se naquilo que conhecemos como pedinte, ou sem abrigo, ou outra coisa qualquer.

 

Deixou-se seduzir pelas conversas intermináveis, ou pelas conversas curtas e vivas, pelas conversas brilhantes ou pelas conversas parvas, pelos insultos, frases batidas, fragmentos de discussões, o balbuciar dos bêbados e dos loucos, os rostos dos mendigos, os desafios das prostitutas, o linguajar dos feirantes e dos vendedores ambulantes, os sermões dos pregadores de rua, os gritos da noite, os boatos incríveis. Os brados do coração.

 

Também existiam os boémios radicais, os mais convencidos de todos, que deixaram de falar de arte, sexo ou copos. Falavam então sobre a revolução iminente, sobre o materialismo dialético, a ditadura do proletariado, o que Lenine queria dizer quando disse isto, ou o que Trotsky queria dizer quando disse aquilo, e agiam como se alguma daquelas conclusões a que diziam chegar pudessem importar para o futuro do país ou para o futuro da Humanidade. Dito de forma mais assertiva: limitavam-se a ir perdendo o sentido de humor.

 

Pelo empenho com que falavam do proletariado, podíamos ficar com a impressão de que eram todos filhos e filhas de metalúrgicos, estivadores ou operários fabris. Mas a verdade é que quase todos vinham de famílias de classe média ou alta. Alguns bem desafogados e outros até ricos.

 

Claro que chega sempre o dia em que nos sentimos estranhos no meio deles. Confesso que não era tanto a política o que me aborrecia, embora continue a achar que todo o tipo de política é uma chatice. O que me chateava era o ar convencido com que falavam de política. Sobretudo a sua maneira de dizer “nós”. Aqueles defensores do proletariado mais não eram do que flores de estufa.

 

Claro que com tropas daquelas a revolução deu com os burrinhos na água. E todos sabemos que não há nada de agradável que se possa dizer de uma derrota.

 

Uma das realidades tristes da vida é que o nosso círculo de amigos encolhe à medida que vamos envelhecendo. Seja por hábito ou falta de vigor, de repente damos por nós rodeados de um punhado de rostos familiares.

 

O Conde Rostov bem nos avisa que se a atenção deve ser medida em minutos e a disciplina em horas, a indomabilidade tem de ser medida em anos. Ou, para quem não é dado a tiradas filosóficas, podemos dizer simplesmente que o homem sensato celebra aquilo que pode. A mais não é obrigado.

 

Pois sim, concedo na compreensão. Por natureza somos caprichosos, complexos e, por vezes, deliciosamente contraditórios. No entanto, todos merecemos consideração. Ou melhor, todos merecemos ser reconsiderados. Devia existir em nós uma inabalável determinação em nos abstermos de formar uma opinião sobre determinada pessoa até termos interagido com ela em todos os contextos possíveis.  

 

Depois de tantos anos de luta e trabalho, de esperança, de carregar expetativas, engolir opiniões, gerir o decoro e fazer conversa, o que devemos procurar é um pouco de paz e sossego.

 

Propostas: Música: Deus é Mulher – Elza Soares; Leitura: Central Europa – William T. Vollmann; Viagens: http://www.destinosvividos.com/visitar-aldeia-magica-drave/; Restaurante: Chaxoila – Vila Real.

 

João Madureira

 

O Barroso aqui tão perto - Santa Marinha

29.07.18 | Fer.Ribeiro

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E como hoje é domingo, vamos mais uma vez dar uma voltinha pelo “Barroso aqui tão perto”, pela freguesia de Ferral, mais precisamente, vamos até à aldeia de Santa Marinha, no Barroso que eu apelido de verde e disperso com vistas lançadas para o Gerês.

 

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Antigamente defendia que as primeiras impressões, ligadas à aparência, é que valiam. Com o tempo aprendi que não é bem assim, que afinal os pormenores é que têm valor, e a aparência é apenas uma fachada que esconde toda a intimidade. Quero com isto dizer que quando avistei Santa Marinha desde a aldeia vizinha de Pardieiros, gostei do que vi, pequenina e arrumadinha na encosta da serra. Quando cheguei à aldeia, junto ao cemitério, acrescentei mais um ponto ao gosto, não pelo cemitério, que embora até poderá ter certa beleza, não é local que eu aprecie em particular, mas pelo conjunto da pequena capela e cruzeiro.

 

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Mas com o aproximar da aldeia, onde ela está mais concentrada, nem por isso estava a gostar do que ia vendo. Fui entrando com ar de quem não iria sair de lá satisfeito, e é aqui que entram os pormenores, o conjunto dos pormenores que fez com que saísse da aldeia a dizer: - Afinal até valeu a pena!. Há por lá pormenores que fazem a diferença,   algumas preciosidades até, e já nem quero falar dos matizes do verde ou das vistas que desde lá se podem lançar. O problema da aldeia, que até nem é problema, está no ela ser dispersa, dificultando uma interpretação no seu todo, principalmente em imagem. Aliás este tipo de povoamento disperso é transversal a toda a freguesia e penso que se deve à forma/modo de aproveitamento agrícola das encostas.

 

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Mais uma vez refiro aqui as singularidades do Barroso, este, da freguesia de Ferral mas também o de Cabril a mostrar uma outra cara do Barroso, de povoamento disperso, verde, de montanha, onde praticamente não há terra plana, e a que há, é em socalcos,  onde houve a intervenção humana para aproveitamento da riqueza da terra, que aqui se apresenta fértil, graças à humidade, exposição ao sol e temperatura, em terras que já se encontram a uma cota bem mais baixa que no restante Barroso, entre os 200 e 600 metros de altitude. Isto pelo que pude observar no local, sem qualquer documentação que o valide, mas penso que não andarei longe da verdade.

 

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A descrição que faço da entrada da aldeia nada tem a ver com a entrada que irão encontrar se seguirem o itinerário que à frente irei recomendar. Acontece que o itinerário recomendado é para irmos especificamente até Santa Marinha, no entanto, nas minhas idas ao Barroso para fotografar as suas aldeias, nunca ia apenas a uma aldeia, mas a várias, daí ter entrado na aldeia vindo de Ferral, pelo qual o itinerário recomendado até nem passa.  

 

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Quem acompanha o blog sabe que esta rubrica sobre o Barroso surgiu para dar a conhecer as suas aldeias,  mas,  simultaneamente, servem como uma proposta, ou um convite para as visitar, principalmente agora em que o dinheiro não abunda para podermos ir à descoberta de outros destinos mais longínquos e caros. Juntar o útil ao agradável, sim, porque o Barroso tem uma série de destinos tão interessantes ou mais ainda que muitos dos que encontramos lá fora. Temos é que entrar nele à sua descoberta, pois continua a ser um tesouro desconhecido da maioria que vive a menos de uma hora de viagem. Mas queria eu dizer, isto se aceitarem esta minha sugestão de visitar a aldeia, que uma vez que vão à aldeia, aproveitem o dia para ver outras aldeias e outros pontos de interesse que ficam no itinerário ou na proximidade desta aldeia, pois seria um desperdício não aproveitar a ocasião.

 

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Ainda antes de irmos ao itinerário recomendado e continuando nesta onda de descoberta/promoção do Barroso, uma vez que estamos em tempo de férias de verão, porque não passar por lá uns dias de sol com banhos incluídos, numa das suas cascatas ou albufeiras. Se for como eu, ao qual já passou o gosto de ser lagarto ao sol para além do médico me recomendar sombras, estas também não faltam por lá. Uma proposta para um dia, pois sendo aqui da terrinha (Chaves) poderá ir e vir no mesmo dia, com dormida na nossa caminha. Fica prometido que no próximo domingo deixo aqui um mini roteiro com propostas para algumas albufeiras e cascatas.

 

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Vamos então ao itinerário recomendado para chegarmos a Santa Marinha, da freguesia de Ferral, concelho de Montalegre.

 

Pois desta vez apenas recomendamos um itinerário, por sinal um dos nossos preferidos, talvez porque é um dos que nos mostra também os vários matizes do Barroso, para além de passar pela vila de Montalegre, que é sempre interessante.

 

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Pois para este itinerário devemos seguir pela estrada do S. Caetano/Soutelinho da Raia. Logo na primeira aldeia de Montalegre, Meixide, devemos tomar a primeira opção de seguir via Vilar de Perdizes ou via Pedrário/Sarraquinhos. Tanto faz, a distância é sensivelmente igual e o destino será sempre o mesmo — Meixedo, mesmo antes de Montalegre. Isto já não é novidade para quem acompanha o blog, mas pode-se dar o caso de alguém vir por aqui a primeira vez ou não ser visita habitual e há sempre que repetir estes pormenores. Pois chegado a Montalegre, que é de paragem obrigatória nem que seja apenas para um café,  seguimos pela M308, em direção ao Campo de Futebol.

 

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Tínhamos ficado em Montalegre, já na M308 em direção a Sezelhe que devemos passar e seguir em direção a Paradela do Rio, com passagem por Travassos do Rio, Covelães, Paredes do Rio e Outeiro. Os topónimos têm apelido do Rio por ficarem perto do rio Cávado. Aliás este itinerário entre Montalegre e Santa Marinha é sempre feito na proximidade do Cávado e mais ou menos paralelo ao mesmo, primeiro pela margem esquerda até um pouco antes de Frades, depois pela direita até Outeiro e em Paradela já estamos outra vez na margem esquerda.

 

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Já estamos em Paradela, fácil de identificar pela Barragem que tem ao lado. Aliás entre Outeiro e Paradela vamos ter sempre a Barragem ao lado por companhia. Em Paradela não há nada que enganar. Chegado ao largo do cruzeiro, fácil de ver, pois o mesmo serve de rotunda no cruzamento, seguimos em frente, ou seja, na terceira saída da rotunda. Para não ter mesmo dúvidas, atenção às placas indicativas, pois o cruzamento está bem sinalizado. Devemos sair pela estrada cujas placas indiquem Ponteira, Sexta Freita, Covelo do Gerês e Ferral.  Até ao nosso destino, já próximo, não vamos passar por dentro de nenhuma aldeia, ficam todas ao lado, mas devemos passar ao lado de Ponteira e de Sexta Freita, logo a seguir ao desvio para Sexta Freita (mais 2km) vamos encontrar um pequeno conjunto de casas junto à estrada, com uma saída à esquerda para Sacoselo e 200 metros à frente uma saída para a direita, a nossa saída, onde devem estar as placas de Stª Marinha e Covelo do Monte, cinco curvas à frente e estamos em Santa Marinha.

 

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Curioso que ainda atrás falava em albufeiras e cascatas, pois embora Santa Marinha não tenha nenhuma delas, tem na sua proximidade algumas, mas fiquemos apenas pelas barragens, a da Venda Nova a cerca de 2.5 km, a de Salamonde à mesma distância (2.5Km) e a de Paradela um pouco mais distante, mas mesmo assim próxima, a 7.5km. Tudo distância em linha reta, pois por estrada é um pouco mais.

 

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E o que dizem os livros e documentos de Santa Marinha. Vamos lá ver se temos sorte.

 

No livro “Montalegre” encontrámos algumas referências:

 

As Igrejas, Capelas, Alminhas e Cruzeiros

Vestígios de estilo românico nas Igrejas de S. Vicente da Chã, Viade e Tourém. É justo salientar que diversas outras igrejas datam dos primeiros tempos da monarquia e seriam incluídas nesse estilo. Acontece que foram sofrendo remodelações – muitas vezes a fundamentis – que as descaracterizaram.

 

A última grande febre dos arranjos deu-se nos princípios do século XVIII e, por isso, os edifícios exibem datas dessa altura. Por exemplo: Pondras -1725; Santo André- 1813; Vila da Ponte – 1710, etc.

 

Contudo, a maior riqueza das nossas igrejas encontra-se no interior: tanto em muitos dos seus santos que escaparam à usura de sacristães, padres e “homens-bons”, como na talha que as orna, sendo que uma boa parte dela se deve a ignorados artistas autóctones. Merecem algum realce certos exemplares como Salto, Santa Marinha, Covelo, Vila da Ponte, Viade, S. Vicente, e sobretudo, pelo ruralíssimo e humílimo conjunto de talha de S. Miguel de Vilaça.

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E continua:

 

Os cruzeiros são mais de 60 e se lhes juntarmos os calvários ainda existentes com as cruzes das estações da via sacra serão três vezes mais.

 

Destacam-se o de Salto, Pondras, Mourilhe, Codessoso de Meixedo, de Montalegre, o da Interdependência da Vila da Ponte, Negrões, Meixedo, Sabuzedo, Santa Marinha, Santo André, Penedones, Antigo de Serraquinhos, Sezelhe, Travasços do Rio, Vila da Ponte, Bustelo e Parafita!

 

Das ermidinhas, que o estro de Junqueiro abençoa, destacamos quer pela beleza paisagística do local, quer pelo encanto do conjunto “Construção humana e Natureza envolvente”: Nossa Senhora das Neves  (São Lourenço) e São Tiago (Fafião), na freguesia de Cabril; Senhor do Alívio, em Salto; Senhora do Monte (Serra do Barroso); São Frutuoso (Montalegre); Santo Amaro (Donões); Santa Marinha, em Vilar de Perdizes; S. Domingos, em Morgade; Nossa Senhora de Galegos, no Cortiço (Cervos); São João da Fraga, em Pitões; São Lourenço, em Tourém, e Nossa Senhora da Vila de Abril, em São Pedro (Contim).

 

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Ainda no livro “Montalegre” a respeito da freguesia de Ferral, mais algumas referências a Stª Marinha.

 

Ferral

Esta freguesia mudou várias vezes de nome: foi primeiro Santa Marinha de Covêlo do Gerês por oposição a São Pedro de Covêlo do Gerês; depois dava apenas pelo hagiotopónimo Santa Marinha; mais tarde foi Santa Marinha de Ferral e hoje é somente Ferral. Contudo, é da tradição local que existiu neste mesmo termo a freguesia de São João da Misarela, de que não possuímos qualquer documento escrito! Na realidade, nunca se encontraram vestígios de tal construção nem qualquer referência à sua localização. Apesar das oito povoações que integram a freguesia, o seu isolamento até ao século XVIII era tão acentuado que se tornava extremamente propício à criação e sedimentação de lendas de que é paradigma a da Misarela. Tal como na vizinha Cabril, antes das barragens, os rios eram barreiras difíceis de transpor, mesmo de verão… Por isso a freguesia foi-se alargando e anexando povoações na área de entre Cávado e Regavão: Vila da Ponte e Bustelo (freguesia anexa até ao século XIX) e Contim e São Pedro, igualmente freguesia anexa. Restos evidentes desse antigo fausto é a riquíssima talha da vetusta Igreja de Santa Marinha.

 

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E a o que nos diz a “Toponímia de Barroso”. Não sei, mas vamos ver:

 

Santa Marinha (Ferral)

Correm por aí diversas lendas sobre Marinha, Santa e Mártir. É de espantar a ingenuidade de algumas que referem a naturalidade da Santa e da sua vida bem longe dos locais onde terá nascido, vivido e sofrido o seu martírio.

Teve culto já documentado no século VIII, após a invasão árabe, e de tal forma arreigado, lendário e popular que a deram como natural de várias localidades. Na realidade Santa Marinha foi martirizada em Antioquia.

1258 - « in collatione de Sancte Marine» INQ. 1523.

 

Na Toponímia Alegre temos o seguinte:

 

Requerimento do Abade de Santa Marinha ao Senhor Arcebispo de Braga.

 

O abaixo –assinado,

Abade Albino Mendes,

De setenta anos de idade,

Sentindo-se velho e cansado

E estando-se a esgotar

O prazo da sua colocação

Que exerceu com lealdade, a Vossa Eminência vem rogar

Licença para continuar

Que para tanto autoridade tendes;

Beija-lhe o anel sagrado

O abade Albino Mendes!

 

E ainda:

 

Nomes do “Rio” intermédio:

Carabunhas de Vila Nova,

Conspiradores de Covelo,

Rabinos de Loivos,

Peixeiros de Sidrós,

Papa-ventos de Ferral,

De Viveiro não sai graeiro,

Carrapatos dos Pardieiros,

Borra-ladeiras de Santa Marinha,

Carvoeiros de Nogueiró.

 

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E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que a SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

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BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

 

Pergaminho dobrado em dois

29.07.18 | Fer.Ribeiro

pergaminho

 

Quanto vale um chavascal.

 

Meus respeitáveis leitores, não fiquem indignados.

 

Muitas das vezes – e são inúmeras – que me sento num banco de jardim e começo a contemplar a lua, dá-me uma vontade imensa de ser poeta, sentir tudo de todas as maneiras, fingir-me de dor e banhar-me de nalguedos bons e eruditos de burguesas ociosas, esperando – como um bom guardador de rabanhos espera - pacientemente a sua compaixão ao meu recatado operário. Perguntam-me vocês: só gostas se forem burguesas? Responder-vos-ei que sim. O proletariado já sofreu o bastante para que o meu marsápo indígena recaia sobre eles. Para além do mais, Marx enquanto escrevia o capital de ceroulas e cachimbo experimentava, nos pequenos intervalos, o prazer mais jocundo na aberta greta da sua burguesinha.

 

Para quem tem a perceção do descalabre – e assim alerto ao leitor – que existe neste momento na sociedade, onde o capitalismo se ergue mais que um tarolo africano em dias de orgia, deixo aqui um repto de esperança: façamos ainda mais a atividade fodangal em cima das filhas dos vermes capitalistas fazendo-as olhar para o proletariado de trás e obrigando-as a ler o primeiro volume do capital enquanto encetamos valentes bofetadas nas dobradiças de ouro ao mesmo tempo que gritamos “encontrei a minha pátria” seguido de um “aí que rica propriedade privada a ser invadida pelo meu comuna”, e assim podemos assistir a um momento histórico na luta de classes.

 

E vocês, novamente, teimosos como só vocês sabem ser: ah e tal, és contra a exploração do proletariado, mas a ti só te interessam as burguesas. Bom argumento, mas fácil de arrebata-lo. Então é assim: as burguesas são alimentadas à base de um cardápio exigente, umas boas horas de ginásio, outras tantas sem fazer nenhum e as restantes em partilhar o pequeno-almoço no Instagram, são leitoras assíduas de livros do Gustavo Santos, vestem jeans e proclamam-se influencers. Quem não gosta de um bom chavascal immundo com fidalgas que possuem milhares de seguidores? E digam-me lá se não gostavam de enraber les burgeois como se fossem o Karl Marx da festa rija. Não obstante, o proletariado baseia a sua insignificância em digerir alimentos do Mac Donalds, assistir ao Você na TV e ouvir músicas do Marante e Diapasão enquanto toma banho com o cão na cave do burguês, e isso tem tanto de interesse como o meu pífaro em dias de maior neblina.

 

Posto isto, só me resta desejar-vos um bom domingo repleto de baldes e baldes de felicidade. Até para a semana.

 

Herman JC

 

 

 

Pereira de Veiga - Chaves - Portugal

28.07.18 | Fer.Ribeiro

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Seguindo a metodologia da ordem alfabética, a seguir a Pereira de Selão (a  nossa aldeia do último sábado) segue-se a aldeia de Pereira de Veiga. É por lá que hoje vamos passar.

 

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Uma passagem breve, pois todas as aldeias do nosso concelho já tiveram aqui o seu post completo. Nesta nova abordagem ficam apenas algumas imagens que nos posts anterior não foram selecionadas e mais alguns apontamentos sobre a aldeia.

 

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A titulo de curiosidade gosto sempre de abordar a origem dos topónimos que cada local tem, não propriamente o seu significado, mas mais o porquê do topónimo. No entanto na grande maioria dos casos não é fácil chegar a uma conclusão, pois com topónimos tão antigos como o são os nossos, chegar à sua origem e porquê, é complicado e há ainda a acrescentar uma série de informação, que em vez de esclarecer, apenas complica mais a coisa.

 

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Neste topónimo de Pereira de Veiga, quanto ao apelido Veiga, não há qualquer dúvida, visto que esta aldeia se localiza em plena veiga de Chaves. Curiosamente é a única aldeia da veiga que utiliza este apelido, embora no concelho este apelido se repita em Vila Nova de Veiga e Paredela de Veiga, aldeias vizinhas de Pereira de Veiga, mas já fora da Veiga. O problema surge com Pereira, pois a informação existente, além de confusa, até é contraditória.

 

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Todos estão de acordo que pereira é a árvore que dá peras. Quanto à origem como nome/apelido de pessoas, dizem que teve origem no topónimo de um local, ou seja, o lugar/localidade Pereira é que deu origem aos senhores Pereiras e não o contrário. Diz-se ser de origem portuguesa (o apelido de pessoa) mas os judeus defendem o apelido como seu e até contestam que o Pereira tivesse origem numa localidade portuguesa com esse topónimo, pois defendem que os Pereiras tiveram origem numa localidade, sim, mas espanhola e muito antiga, antes de aparecerem em Portugal. Por sua vez num sítio da net de referência nesta coisa dos topónimos “Toponímia galego-portuguesa” a respeito do topónimo Pereira diz ser um dos de pseudo-Fitotoponímia, sendo a fitotoponímia a associação de um topónimo ao nome de uma árvore ou flora local. Pois Pereira, tal como outros topónimos com nomes de árvores ( Amoreira, Carvalho, Castanheira, figueira, oliveira, sobreira, entre outros) têm nome de árvore mas não é na árvore que têm a sua origem.  Pois para o autor da “Toponíma galego-portuguesa o topónimo Pereira  está associado à existência de pedras ou pedreiras no local. Como em Montalegre também há uma aldeia com este topónimo, fui espreitar à Toponímia de Barroso, mas por azar é um dos poucos que não tem referências à origem e se tivesse, levar-nos-ia à origem da palavra que nos remeteria para a pereira que dá peras. Assim sendo fico-me por aqui sem esclarecer nada, apenas ciente de que deitei algumas achas para a confusão/discussão.

 

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E ficaram propositadamente, de rajada, três imagens desta aldeia. Se apenas tivesse estas imagens o que poderia dizer sobre ela? – Pois saltaria logo à vista o abandono que é também sinónimo de despovoamento, à qual esta aldeia também não foge, mesmo sendo uma aldeia da veiga e a pouco mais de 3km da cidade, mas é uma aldeia agrícola, e agricultura, hoje, também é sinónimo de abandono > despovoamento. Uma outra imagem, tem com ela dois pedaços de história, um, o das construções de perpianho à vista com junta pintada, utilizado em casas mais ricas que as da pedra solta, mas não o suficientemente para terem a nobreza do solar ou casa solarenga, mas o que atraiu a objetiva foi a placa colocada na parede, onde está inscrito EQUIDADE – PORTO 1853. Os mais novos pela certa que não saberão do que se trata, mas eu ainda sou do tempo de as ver colocadas, novinhas em folha, nas paredes das casas. Pois para quem não sabe, trata-se ou tratava-se de uma casa que estava assegurada pela companhia de seguros Equidade, isto ainda no tempo em que as companhias de seguros eram portuguesas e muitas, hoje quase todas absorvidas por grandes seguradoras estrangeiras. Curiosamente esta companhia EQUIDADE não a conhecia, mas vim a saber que foi fundada em 1853, era do Porto e foi constituída com elementos dissidentes da Companhia de Seguros Garantia, esta sim, bem conhecida. A EQUIDADE existiu até 1975, altura em que foi nacionalizada e conjuntamente com outras deu origem à Portugal RE, companhia de seguros. E.P.

 

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E por último uma foto com uma preciosidade, a cama que virou banco de jardim ou de rua, que demonstra bem como o nosso povo é(ra) criativo, engenhoso e preocupado com o ambiente, que praticamente não produzia lixo e tudo era aproveitado e reutilizado. A do “preocupado com o ambiente” não é bem verdade, pois essa preocupação nem sequer existia, ainda, mesmo porque o plástico/lixo, por exemplo, era raro, os popós também e tudo que era embalagem ou recipiente não ia para o lixo, pois tinha uma utilidade destinada. Hoje tudo é diferente e tudo poderia ser diferente. Ainda ontem recebi, pelo correio, um livro que tinha encomendado na NET, tamanho normal (15x22x2cm) que me foi entregue dentro de uma embalagem que tinha as dimensões de 40x30x12cm. Como para o livro a caixa era enorme e para o mesmo não vir dentro dela aos trambolhões, encheram o espaço sobrante com plástico de bolinhas. Não seria mais fácil  fazer um embrulho à medida!? Não sabem!? Que aprendam com os chineses… poupadinhos!

 

E com esta me bou!

 

 

 

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

27.07.18 | Fer.Ribeiro

GIL

 

RETRATO RASGADO

 

Anacleto Brilhantina era filho da crujidade.

 

Sua progenitora, Raimunda, era mãe solteira. Uma cabaneira pobre que nos Aregos sobrevivia de favores. Pagava com o corpo o pão que manjava. Anacleto foi o fruto desta necessidade.

 

O rapaz cresceu pobrezinho mas limpo. O pouco que houvesse na masseira da cozinha era para o menino. A pobre mãe nunca deixou que lhe faltasse o pão para a ceia. Umas vezes roto, outras remendado, vivia quase só de arroz, de massa e de caldo. Carne, quase sempre gorda e rançosa, só a avezava ao domingo e ralas vezes!

 

Apesar destas e de muitas outras dificuldades, medrou escorreito e aos sete anos foi para a escola. Aprendia tão bem como a abelha a topar as flores de melhor néctar. Era um prodigioso aluno. Com apenas um caco de lousa e um ponteiro fanado, fazia contas de dividir como comboios e quando lhe aplicava a prova dos nove davam sempre certo. Nos ditados raramente dava erros e lia como o padre lê na missa. O mais das vezes papagueava de cor as lições do seu livro de leituras da 3ª, como por exemplo Vozes dos animais:

 

           Palram pega e papagaio

           E cacareja a galinha,

          Os ternos pombos arrulham,

          Geme a rola inocentinha

          (…)

 

Era um prodígio que fazia ver aos demais. Claro está que muitas e muitas vezes teve de vencer a cruel discriminação de seus pares, por não ter pai, andar remendado nos fundilhos, usar botas de boca aberta e comer pão seco à merenda. Mas que lhe importava isso se a professora Carminda o compensava com mimos na sala de aula e a mãe em casa? As visitas esporádicas do pai, apenas nas noites de lua cheia, também o compensavam com promessas, sempre adiadas, de se juntar à sua mãe e com cinco tostões para rebuçados.

 

A mãe Raimunda tinha um orgulho incomensurável na criatura que pariu e não era para menos! Quando taramelava com as comadres, o rebento era quase sempre o mote da conversa e não se cansava de o pôr nos cornos da lua. Toda a gente os sabia pobres, porém, ela achava-se rica. De facto era-o, e muito mais do que alguns cheios de dinheiro!

 

— Ó comadre Jacinta, olhe que o meu Cletinho é muito gerigoto e tem tudo: tem pombinha, tem rua para brincar, tem pardais no telhado, tem sapatos de ir à missa, tem paz, tem liberdade e olhe que até tem banquinha de carpinteiro!

 

E não é que tinha mesmo!

 

O moço mostrava um jeito raro para trabalhar a madeira e, aos poucos, foi construindo a sua pequena oficina a um canto do pardieiro onde não faltava a tal banquinha de carpinteiro. As ferramentas embora escassas e rudes faziam autênticas maravilhas, manuseadas pela mão do artista. Era um regalo apreciar os seus trabalhos de artesão. Fabricava miniaturas de alfaias agrícolas e outros arcanhos que tais, à escala e com uma incrível perfeição.

 

— Há-de de ser carpinteiro, mas um carpinteiro de estalo! — dizia orgulhosa sua mãe.

 

Assim foi.

 

Mal largou a escola, após o exame da terceira, empregou-se na oficina do marceneiro Pangaio, um mestre artífice de nomeada. Com ele aprendeu os segredos do ofício e tão bem, que não demorou a corrigir o próprio mestre!

 

Pelos dezanove anos foi às sortes e ficou livre de todo o serviço militar por ter amputada a falangeta do indicador da mão direita. Perdeu-a num acidente infeliz quando se deixou entalar por um barrote de castanho que resvalou, enquanto o mestre Pangaio se preparava para o serrar.

 

Apesar de ganhar pouco dinheiro naquele ofício, sempre dava para viver desafogado com sua mãe. Contudo, ambicioso, rapidamente percebeu que tinha potencial para ir muito além das limitadas fronteiras da Veiga. Abriria as asas ao mundo e voaria por essas terras longínquas vendendo o seu talento a quem lho soubesse pagar.

 

Emigraria para França onde alguns amigos lhe prometeram apoio.

 

Para vencer os Pirinéus teria de ser a salto, por ser impossível ajeitar as autorizações necessárias. Para isso recorreu aos serviços do nosso já conhecido Neves, o Passador.

 

Procurou o guerreiro no Grande Hotel de Chaves onde se dava amiúde a prolongados descansos. Encontrou-o. Combinaram o preço — uma exorbitância de cinquenta contos de reis — e o resto dos pormenores. Marcaram a noite da partida e a forma do pagamento. Anacleto deixaria a cidade daí a um mês e pagaria vinte e cinco notas de mil no dia da partida em dobrando a raia. O restante seria pago por sua mãe contra a apresentação do retrato rasgado.

 

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Rasgava-se um retrato, metade ficava com alguém da confiança do emigrante no lugar de partida, a outra seguia com o clandestino que se comprometia a devolvê-la ao Passador, logo que chegasse em segurança ao destino negociado. Após o confronto das metades e ajustando-as na perfeição, seria pago o resto do acordado. Esta prática, estranha e original, tornou-se muito comum, depois de alguns passadores menos escrupulosos enganarem os desgraçados emigrantes lerpando-lhes o dinheirinho e deixando-os pelo caminho.

 

Poucos dias antes da data marcada, o Anacleto botou fato de ir à missa, penteou os caracóis, untou-os com um cibo de brilhantina para que luzissem e foi à Foto Águia tirar o retrato. Era a primeira vez na vida que se outrava num cibito de papel, portanto, aquele era mesmo um dia especial. Encomendou dois retratos de meio corpo. Estariam prontos em quatro dias. Que fosse por eles. Lá foi.

 

Ficou bem… um autêntico fidalgo!

 

Comprou um passepartout no Mocho, colocou lá um dos retratos e ofereceu-o à mãe para que o colocasse sobre a cómoda do quarto de dormir para matar as saudades. O outro rasgou-o a meio e entregou-lhe uma das metades juntamente com vinte e cinco notas de conto. Recomendou-lhe, vivamente, que entregasse o dinheiro somente a quem lhe trouxesse a outra metade. Comprou uma mala de cartão, meou-a com os parcos haveres que possuía e na noite marcada, ala que se faz tarde. Deixou a extremosa mãe em pranto e fez-se à estrada.

 

A natureza prendou a despedida com uma das infindáveis zerbadas de Novembro. Encontrou-se com o Neves no Tabolado onde uma carrinha fechada acolhia já cinco ou seis parceiros de viagem. Partiram a caminho de Vila Verde pela estrada de Outeiro Seco. Pararam junto da igreja da Senhora da Azinheira para dali seguirem, a pé, até à raia. Não puderam dobrá-la naquela noite porque receberam a informação de que os carabineiros controlavam o carreirão que levava a Feces de Abajo. Pernoitaram no termo da aldeia, num palheiro, onde também passaram todo o dia. Na noite seguinte, os guardas espanhóis ainda patrulhavam a área, pelo que o Neves decidiu conduzi-los até Lama d’Arcos, onde seria mais fácil atravessar o ribeiro que se esperava desimpedido. Para lá chegar teriam de atravessar o Tâmega. Por acaso o caudal estava manso. Venceram-no com a água pelos peitos. Ficaram ensopados. Apesar disso lá chegaram à outra aldeia raiana e ao ribeiro que faz fronteira com a Galiza. Do outro lado, esperava-os um galelo que os conduziu até à povoação espanhola. Aí se enxugaram aguardando que a noite encobrisse a continuação da saga. Antes de atravessarem o ribeiro, cada um deles fez contas com o Neves pagando a primeira tranche do valor acordado.

 

Na noite seguinte, esperava-os um camião cisterna de transporte de vinho. O camião tinha um depósito de aço tripartido. Duas partes estavam repletas de néctar de Tamaguelos, o do meio vazio, para acolher os desgraçados.

 

— Oh… que viagem excomungada de três dias até aos Pirenéus! Enquanto foi possível viajar com a portinhola aberta, ainda vá que não vá. Agora quando por razões de segurança e sobretudo quando se atravessavam lugares, tinha de ser fechada, cuidámos de morrer abafadinhos. Uma das vezes, perto de França, demoraram mais um bocado a abri-la e dois dos seis companheiros desmaiaram com falta de ar. Foi o cabo dos trabalhos para os retornar à vida — contava o Anacleto mais tarde.

 

Mas, por obra e graça do divino Espírito Santo, lá chegaram pelo final de uma tarde à fronteira francesa. Passaram com facilidade e, recolhidos por um francês de bom trato, seguiram de comboio de Hendaia até Paris.

 

Desembarcaram na gare de Austerlitz. O Anacleto era esperado por um amigo que o levou até ao conhecido bidonville de Champigny-sur-Marne, onde chegaram a viver na clandestinidade e em condições de grande miséria, mais de quinze mil emigrantes portugueses.

 

Na primeira oportunidade, enviou a metade do retrato para o Neves e fez-se à vida.

 

Tal foi o sucesso alcançado pela arte de carpintaria que não tardou a construir a sua própria barraca. Passado ano e meio já tinha casa de alvenaria e mandou ir sua mãe.

 

Não enriqueceu, mas amealhou o suficiente para fazer felizes os últimos anos de vida da sua Raimunda.

 

— Abençoados sejam os Passadores, os retratos rasgados e a bendita França. Juntos, fizeram tanto português feliz!

 

Gil Santos

 

 

 

Flavienses por outras terras

26.07.18 | Fer.Ribeiro

Banner Flavienses por outras terras

 

Luís Miguel Pires

 

Nesta crónica do espaço “Flavienses por outras terras” vamos até ao meio do Oceano Atlântico. No arquipélago dos Açores, na ilha de São Miguel, vamos encontrar o Luís Pires.

 

Cabeçalho - Luís Miguel Pires.png

 

Onde nasceu, concretamente?

Nasci em Moçambique, mas vim muito novo para Portugal e cresci em Vilela Seca – Chaves.

 

Nos tempos de estudante, em Chaves, que escolas frequentou?

Frequentei a Escola Primária de Vilela Seca, a Escola Preparatória, no Forte de São Francisco (1º e 2º ano do 2º Ciclo), e a Escola Secundária Dr. Júlio Martins.

 

Em que ano e por que motivo saiu de Chaves?

A primeira vez que saí de Chaves foi em 1988 para cumprir o serviço militar obrigatório, com 18 anos. Regressei em novembro de 1989. Passados alguns meses, em 1990, saí para Mirandela por causa do futebol. Era atleta do G. D. de Chaves, então na 1ª Divisão, e fui emprestado ao S. C. Mirandela. Mais tarde, em 1996, devido ao futebol, saí para o Minho, onde estive 7 anos. Joguei 5 anos no G.D.R.C “Os Sandinenses”, equipa onde fui Campeão Nacional da 3ª Divisão, e 2 anos no F. C. Vizela. Em 4 destes 7 anos que estive no Minho tirei a minha Licenciatura em Educação Física. No ano de 2005 saí pela última vez para a ilha de São Miguel - Açores, para lecionar e com ligação ao futebol, em simultâneo, e onde ainda estou atualmente.

 

Em que locais já viveu ou trabalhou?

Vivi em Vila Franca de Xira, Almada, Mirandela, São Martinho de Sande, Caldas das Taipas, Vizela, Fafe e na ilha de São Miguel - Açores.

 

Diga-nos duas recordações dos tempos passados em Chaves:

As idas ao Estádio Municipal de Chaves com o meu pai, desde os meus 5 anos de idade e, mais tarde, ter o privilégio de partilhar os balneários desse mesmo estádio com alguns dos que eram os meus ídolos na altura.

As vivências com a minha família e os meus amigos, do futebol e da vida, durante a minha infância e juventude.

 

Proponha duas sugestões para um turista de visita a Chaves:

A nossa hospitalidade e a nossa excelente gastronomia.

 

Estando longe de Chaves, do que é que sente mais saudades?

Saudades da minha família e dos meus amigos.

 

Com que frequência regressa a Chaves?

Três vezes por ano. No Natal, na Páscoa e no mês de agosto.

 

O que gostaria de encontrar de diferente na cidade?

Mais jardins e menos cimento no centro da cidade.

Uma academia de futebol para o atleta transmontano, ligada à maior bandeira da cidade que é o Grupo Desportivo de Chaves.

 

Gostaria de voltar para Chaves para viver?

Sem dúvida. Em Chaves sinto-me como "ponta de lança na área adversária", ou seja, no meu meio ambiente natural.

 

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O espaço “Flavienses por outras terras” é feito por todos aqueles que um dia deixaram a sua cidade para prosseguir vida noutras terras, mas que não esqueceram as suas raízes.

 

Se está interessado em apresentar o seu testemunho ou contar a sua história envie um e-mail para flavienses@outlook.pt e será contactado.

 

 

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Localização dos “Flavienses por outras terras” que já passaram por estra rubrica:

 

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