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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

17
Ago18

O factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

Extracto de romance (2)

 

Do passado trouxe o cão, negro, fiel e de poucas falas. Amigo dos de para sempre, embora devam ser sempre assim os que verdadeiramente o são. Tema para muitas polémicas, o de saber se a verdadeira amizade pode acabar, ou dito de outra forma, se o fim de uma amizade é sempre sinal de que ela nunca o foi verdadeiramente.

 

Chegou como um refugiado, apenas com um saco de lona a tiracolo, como antes tinha usado o cesto de vime, para guardar as trutas. A carteira vinha atestada, para uma autonomia de muitos meses. Não pretendia sair da aldeia nos próximos tempos.

 

Naqueles tempos perguntava-se pouco nas aldeias. Duas ou três respostas, simples e contidas, sobravam para se ser aceite, sem suscitar grandes interrogações adicionais, pelo menos dirigidas directamente. Não sabemos se no recato do lar, à mesa ou na cama, marido ou mulher, regressam ao assunto, com mais ou menos malícia. O que sabemos é que ao pescador ninguém tem perguntado nada sobre o passado, nem do trabalho, nem da família, se ainda a havia ou se já tinha, de todo, desaparecido.

 

1600-s-goncalo (10)

 

Foi o isolamento da aldeia, era necessário andar longos quilómetros em estrada não asfaltada até lá chegar, que inicialmente o levou a escolhê-la para uma nova fase da sua vida. Também o reteve o olhar profundo e de um azul denso, da dona Catarina com o seu sorriso triste que prometia ter tanto para contar.

 

Só muito mais tarde compreendeu que fora principalmente um homem alto, de um moreno estanhado, com olhos amarelados e chapéu de aviador, quem verdadeiramente o prendera àquele local remoto. Tomás, assim se chamava, tinha um olhar alucinado e gostava mais de falar do que de ouvir, o que encaixava na vontade do pescador, ser mais ouvidor do que contador.

 

Logo na primeira conversa, Tomás disse a misteriosa frase, eu bem sei que somos os sanguíneos, mas não tenho vergonha nenhuma disso, à qual o pescador não deu, em consciência especial atenção, mas que durante a noite, quando acordou, lhe voltou nítida e precisa à memória, como se estivesse de novo a ouvi-la. Só então se apercebeu que não a tinha compreendido de todo. O que queria Tomás dizer e porque utilizou o plural, somos, que o incluía, mas anunciava outros mais? E porque falou de não ter vergonha, desta vez no singular? Seria Tomás menos tolo do que o seu aspecto deixava prever?

 

Manuel Cunha (pité)

 

 

16
Ago18

De regresso à cidade, pela Ilha do Cavaleiro

1600-(48827)

 

Como ontem foi feriado, hoje regressamos de novo à cidade, pela Ilha do Cavaleiro, como se isso fosse possível…, mas não é. Podemos lá entrar e sair, passar é que não, mas diz a lenda que já houve quem tentasse, aliás lenda que está associada ao topónimo adotado. Pois bem, vamos ao topónimo, e este sim, fica-lhe bem, por várias razões. Primeiro porque se trata (ou tratava)  de uma verdadeira ilha, ou seja, um conjunto de habitações dispostas à volta de um pátio comum. Foi assim até há coisa de 15 anos onde de facto havia várias habitações com gente dentro. Ilha do Cavaleiro, pois quanto à ilha estamos conversados, quanto ao cavaleiro, é aqui que entra a lenda, pois conta a mesma que em tempos muito recuados, um cavaleiro apaixonado, fazia ali correrias, na mira da conquista de algumas moças, que ali iam encher a sua bilha no poço que lhe ficava junto. Certo dia, diz-se que o ânimo foi tanto e a precipitação igual, que fez com que o cavalo, na fogosidade, tentou saltar o muro sobre a muralha, ficando tem-te não caias, isolado ou islado. Só depois de muito trabalho e risadas do mulherio é que o cavaleiro saiu da sua ilha, meio envergonhado.

 

Pois lenda é lenda e é assim que ela consta na Toponímia Flaviense. Facto é que esta ilha dá acesso ao interior do Baluarte do Cavaleiro da muralha seiscentista, que hoje faz parte da nova ilha que passou, e bem, a um restaurante bar e penso que também com uma cozinha regional de fabrico de fumeiro, passando o baluarte a ser um espaço de estar e esplanada do restaurante bar, em vez de horta de apoio, como o era para as antigas habitações. É também um facto que para os tempos atuais as antigas habitações não tinham condições de habitabilidade, nomeadamente quanto a dimensões. Quando muito e para fazer face à novas exigências de habitabilidade,  toda a ilha poderia dar lugar a uma única habitação. Mas por mim está bem assim.

 

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Ilha do Cavaleiro em 2008

 

Fica também a imagem de há 10 anos, ainda antes da intervenção que se fez em todo o espaço (ilha e baluarte, aliás, reconstrução do baluarte que tinha ruido em 2001). Nesta altura já não estava habitado e já tinha sido adquirida pela Câmara Municipal de Chaves. Repara-se no pormenor do portão de entrada na ilha o que a transformava também num “condomínio fechado” ou quase, embora a ilha na prática já o fosse. O quase é pelo luxo ou ausência dele, pois em geral um condomínio fechado é sinónimo de construções mais luxuosas, coisa que as ilhas, em geral, não são.

 

 

 

16
Ago18

A Pertinácia da Informação

a pertinacia.png

 

E, de repente parece que se fez uma brecha no tempo e o mundo parou, o que na verdade é ilusório.

 

Remexo prateleiras à procura de algo para beber nesta tarde de calor infernal: talvez algum livro por encetar. Eis que o vejo: quase escondido a escapar-se pela fenda, entre a prateleira e a parede do armário, como se quisesse esconder de mim, algo na sua expressão exterioriza culpa. Ás vezes a culpa que sentimos exterioriza-se involuntariamente e denuncia-nos, embora, nem sempre essa culpa seja culpa aos olhos da vida mundana e nem de um supremo juiz... às vezes é a uma espécie de culpa que nos impomos. Por isso, sou da opinião que nós mesmos somos a nossa maior fonte de poder e de debilidade.

 

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Fotografia de Lúcia Cunha

 

Tem capa crepe como eu gosto e estava completamente esquecido. Do interior das suas páginas cai, como cai de forma espontânea uma pétala de rosa, daquelas que ostentam fartas corolas de sumptuosas pétalas, porque as pétalas suaves das rosas caiem com facilidade, um pequeno cartão em forma de envelope. Tem na capa uma imagem com rosas vermelhas e um “amo-te” a vermelho. Instantaneamente pensei: “Que coisa pirosa, não me recordo disto! Nem, faz o meu género!” Mas, depois, olho melhor a imagem e realmente há um não sei o quê que toca a simplicidade e quase que acabo por achar que realmente podia ter sido uma boa escolha.

 

O autor do livro é Daniel Filipe. Não sei se veio junto com o cartão... ou se fui eu que o procurei… não me tenho qualquer memória sobre a sua proveniência, mas realmente eu já lhe percorri as páginas, sublinhei as estrofes e fiz apontamentos. Eu sou assim, há quem diga que os livros são sagrados e devem ser preservados intactos. Eu, porém, amo os livros e namoro com eles, envolvo-me com as suas páginas, roço-lhes as linhas, enrolo-me às suas capas, beijo-lhe as histórias e depois com a ponta da minha caneta de tinta negra e permanente atingimos o clímax com anotações que escrevinho nas margens.

 

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Fotografia de Lúcia Cunha

 

Por duas vezes, folheio inadvertidamente e chego por coincidência à mesma página: 43.

 

“Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado,

acariciar-lhe os cabelos e dizer: Bom dia, meu amor.

Parto amanhã.

 

Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo

Doce e leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera.

 

Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exata nos contornos

a que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o

caminho.

 

Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria

E apesar disso murmurar: somos dois e exigimos.

Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as

Etiquetas e afirmar: Procuro e esquecimento.

 

Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante,

Entre ruídos e interferências aladas.

 

Não basta ser feliz.

 

Não basta a Primavera.

 

Não basta a solidão.”

(a invenção do amor e outros poemas, de Daniel Filipe)

 

1600-vage-hera.jpg

Fotografia de Lúcia Cunha

 

E chego à página 45 sem me aperceber que vamos reatar o nosso namoro, pois ele, o livro, cativou-me, isto só acontece porque algo nele faz uma conexão com algo dentro de mim, e isso só acontece porque acontece neste momento.

 

“É preciso cantar, é preciso sorrir,

encher a escuridão com árvores sem nome.

 

Estamos sós no mistério dos nossos quinze anos.

A tormenta passou. A comida arrefece.

 

A viagem sem história concede-nos a calma:

Serenos existimos, ocultos, dominados. 

(...)”

 

 

E na página 49: “(...)

Lutaremos meu Amor

 

 

Na aparência sozinhos   multidão na verdade

Lutaremos meu Amor

(...)”

 

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Fotografia de Lúcia Cunha

 

A poesia é aquilo que quisermos, aliás a arte deixa de ser objeto vinculado e pertencente ao artista a partir do momento que é partilhada. Cada um vê nela o que procura, o que sente, o que quiser ver, no fundo! E no fundo nada disso é o que o artista sentiu ou projetou. Na minha adolescência, revoltava-me intensamente o facto de alguns colegas de turma papaguearem os comentários das sebentas, sobre os grandes escritores, estudados na aula de português. Eu, como se fosse uma voz ativa do próprio Pessoa ou de Florbela Espanca, reencarnados em mim, achava eu, que os estudos analíticos e as conclusões daí resultantes não faziam jus às pessoas.

 

De qualquer modo, a grandeza das pessoas está no seu desprendimento, na sua generosidade e simultânea discrição, mas, estas qualidades não acompanham os inseguros e invejosos. Assim, do mesmo modo o artista partilha na sua grandeza e no seu desprendimento e não se incomoda com a apropriação que os outros dão à sua obra porque a criação não se esgota na obra, nem num só objeto. Há não sei quê ligado ao infinito, à eternidade, algo de etéreo.

 

1600-vagvegetal_A.jpg

Fotografia de Lúcia Cunha

 

Abri o cartão que dizia, apenas: “BIS”. Então, recordei.

 

De acordo com o momento o mesmo objeto poder ter connosco uma conexão profunda ou então pode ser-nos completamente alheio à nossa realidade. Às vezes até os objetos que criamos são temporais para nós e simultaneamente intemporais para os outros.

 

Repentinamente, penso: “Não somos flores, nem somos membros quaisquer, somos troncos de onde saem ramos.”

 

Não podemos é prender as águas, as represas são prisões. Quem tem asas deve voar, não voar é antinatural.

 

A borboleta deve voar e ser a beleza a que está destinada ser, ainda que efémera e fugaz, há um dever profundo e fundamental que cada um de nós tem: ser-se.

 

Lúcia Pereira da Cunha

 

 

 

15
Ago18

Crónicas de Assim Dizer - Pinóquio, como deve ser

assim dizer

 

Pinóquio, como deve ser!

 

 

As pessoas querem-nos pinóquios, bonecos, artificiais, de madeira.

 

Um toque de verdade fica bem, como o do Pinóquio que quando mentia lhe crescia o nariz! Não exagerar nos detalhes para manter o sonho, a magia ou a fantasia de que é feita a vida e o objectivo das pessoas.

 

Um sorriso nos lábios, um risco preto nos olhos, uma maquilhagem muito leve para esconder a flacidez dos músculos e as poucas rugas que ainda temos, mas tudo em equilíbrio. A demasia propicia a que nos achem palhaços. E, embora gostando de circo, a ideia das pessoas é dizer que não gostam, porque o circo é o espectáculo dos pobres.

 

As pessoas inteligentes e cultas gostam de teatro, ter os artistas ali à sua frente para tornar mais real o palco da vida. No circo é tudo a fingir!

 

As roupas querem-nas sóbrias, mas sem serem simples; descrição quanto baste, mas pensada, adequada ao tempo, ao contexto e às circunstâncias.

 

Tudo deve ser pensado ao pormenor, embora tudo de forma muito disfarçada porque as pessoas gostam de se enganar sem terem consciência disso.

 

O cabelo deve estar sempre impecável, com ar selvagem, sem laca, sem espuma ou gel, mas imaculadamente limpo, com perfume a rosas ou jasmim.

 

As unhas não demasiado curtas nem excessivamente compridas para não parecer que somos fúteis ou desprovidos do cérebro que sustenta os cabelos selvagens e imaculadamente limpos.

 

Os sapatos devem parecer sempre que é a primeira vez que os usamos, com brilho mate para não parecer que vamos a um casamento ou baptizado, o que seria um despropósito, mas também não devem parecer que foram os mesmos que usámos ontem ou a semana passada.

 

O olhar deve ser algo vivo, para mostrar acuidade na percepção dos factos, mas nunca deve parecer curiosidade desmedida, pois que isso é interpretado como falta de educação e intromissão na vida alheia.

 

O andar deve ser compassado, firme, mas nunca parecer uma luta contra o tempo nem  que estamos atrasados para o que quer que seja. Personagens como o coelho da “Alice no país das maravilhas”, deve ser evitado. Também não pode ser lento, mostrando indolência ou falta de motivação. No equilíbrio está o equilíbrio.

 

A atitude a ter nas conversas é de expectante, se houver perguntas a fazer, depois de colocadas, entregar o microfone. Não entrar em diálogo é fundamental. Aceitar como resposta o que nos é dito, mesmo que nos respondam a outras coisas. A resposta a quase tudo está dentro de nós. O que ficar por satisfazer será respondido em outras alturas ou por outros interlocutores. Não devemos esperar tirar todas as dúvidas no mesmo dia ou com a mesma pessoa. Ninguém sabe tudo!

 

Quando houver surpresa ou indignação perante comportamentos alheios, nunca o denunciar. Nós somos iguais ou piores. A não compreensão dos outros, quando ela é expectável, funciona sempre contra nós: ou não somos conhecedores da natureza humana ou não tão inteligentes como a pessoa que se acabou de manifestar.

 

Aceitar os contrários como sendo iguais, se reflectirmos um pouco a diferença não é assim tão grande. O universo em que nos movemos é demasiado pequeno para conter em si a existência de contrários. Nunca perder de vista o relativo, a noção de perspectiva ou os erros de paralaxe.

 

Quando alguém se substituir a nós, aceitar pacificamente a noção distorcida que disso têm. A paz só é fundamental dentro de nós nem a outra devemos aspirar.

 

Nunca mostrar inquietação quando é previsível tê-la. Esta atitude transmite maturidade e saber estar.

 

Se tivermos que mentir a alguém, que seja aos outros, eles depois vão para casa deles e nós vimos para a nossa.

 

Não devemos dizer ou fazer nada que nos perturbe o sono. Se for manifestamente impossível que isso ocorra, que seja antes do meio-dia. Depois dessa hora tudo deve ser concordante com o que tiver de ser. Nada que nos tire o sono vale a pena.

 

Quando as questões forem fundamentais, devemos abster-nos de emitir opiniões. Nunca conseguimos agradar a gregos e a troianos e o desconforto de nos acharem rebeldes não compensa a tranquilidade de pensarem que quem cala consente. Mesmo que estejam errados são eles que erram, não nós. Que diferença é que isso nos faz?! Se a vida fosse um tribunal em que jurássemos, sobre a Bíblia, dizer toda a verdade e nada mais que a verdade, havia um motivo! Na ausência desse, não há outro.

 

Nunca ninguém se arrependeu de ter dito o que não disse. Existindo alguma dúvida de cariz ético, é nisto que devemos pensar.

 

Por mais complicada que a nossa vida seja, nunca e sob pretexto algum, esteja quem estiver presente, o devemos admitir ou confessar. Não precisamos disso, quando for impreterivelmente necessário, temos a sombra. Para que raio pensamos que ela existe senão para aguentar connosco quando nós já não aguentamos mais com nada nem sequer com ela?! Às vezes parece até que não pensamos.

 

No que ao Pinóquio diz respeito, é um boneco, artificial, de madeira e, como se isso não bastasse, ainda lhe cresce o nariz quando mente, tendo uma forma tão fácil de o evitar!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

 

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