Chaves D´Aurora

- SENTENÇA.
Aurita não pôde mais suportar esse incómodo silêncio que lhe parecia infinito. Murmurou, baixinho – A bênção, Papá! – e completou, de modo quase inaudível – Me perdoe, Papá, o senhor me perdoe! – mas passou mais algum tempo, angustiante, sem que ele se manifestasse. Por fim pronunciou, em tom igualmente baixo – Que o verdadeiro Senhor de todos nós e a sua Mãe Santíssima te abençoem e te perdoem, pois que, do perdão e da bênção deles, é que mais estás a precisar! – e, a erguer a voz – Mas o que fizeste, rapariga, tu, a quem sempre estivemos a mimar, com todo o nosso amor?!
Voltaram-se para ela duas tochas de fogo – Como é que podes ser assim tão tonta e não pensar que o passo que deste não te fez perder só a ti, mas a toda a tua família? Não percebes, ora, pois, que ainda poderás fazer que percamos muito mais? Trazer a desgraça a esta casa, que Deus sempre gostou de abençoar?! – Calou-se um migalho, depois bebeu um gole de conhaque – Já não bastava o teu irmão Alfredo, a se haver pelos cantos com essa maluquinha, trazendo a vergonha a esta quinta... Mas ele é homem e até se pode compreender. Os homens, ainda mais quando são uns meros frangotes, têm certas necessidades que as mulheres não têm... – embora a menina Aurita, agora mulher, já bem soubesse que tal axioma não era lá, assim, tão digno de crédito.
Esperou, silente, que o Papá concluísse – Mas tu, tu, que és uma menina, como é que foste tão estúpida, a cabo de perder a cabeça com esse patifório, esse… esse canalha, que dizem ser cristão, mas... Santa Sara me perdoe, ele há de ser mesmo é devoto de Satanás! – e, após uma tonelada de silêncio (pois que o silêncio, ás vezes, pesa muito e era demais o volume do fardo que ela estava a suportar), Reis estendeu o indicador na direção da vidraça. Parecia um juiz à hora da sentença – De hoje em diante, não sairás desta casa a lugar algum, enquanto não deres à luz esse fruto infeliz do teu transtorno e desatino! Nunca dês a cara a nenhuma das janelas, nem passes perto delas, sem que esteja fechada e não te possam ver! – Olhou então com ódio para o outro lado da rua – Manda dizer a esse malfeitor que me venha falar o mais breve possível – e, por fim, o que iria fazê-la arrebentar de soluços – Nunca mais me dirijas a palavra, nem mesmo para pedir a minha bênção!
Aurora correu aos prantos até seu quarto, onde Alfredo a esperava. – Que asneira é essa que vieste a cometer, minha irmã? – Oh, Alfredinho, deixa-me em paz, por caridade! Por piedade, irmãozinho, deixa-me com essa dor a magoar, da cabeça aos pés! – mas o rapaz segurou-lhe as mãos – Oh, maninha, eu só vim dizer que não estou a te julgar nem condenar. Espero de coração que tudo se arranje bem, para o bem de todos nós. E que hás de contar sempre com o ombro amigo de teu irmão, nem que ele te sirva, apenas, para encostar a face e chorar os desabafos! – e ela, então, balbuciou – Obrigadinha, Alfredo, que Deus te pague! – e se atirou ao leito, agora sem lágrimas, oca e esvaziada por dentro, a olhar para o infinito que se estendia além das paredes, além da veiga, além do Brunheiro, além do mundo!
Uma noite inesquecível chegou, de repente, à memória de Aurita.
(continua)

































