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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

22
Jan19

Apontamento sobre a cidade... de Chaves


1600-(47939)

 

De vez em quando o pessoal cá da terra insurge-se contra alguns atentados arquitetónicos que se vão cometendo por aí, no entanto há locais que são mais sujeitos a críticas do que outros. Por exemplo na Madalena, ao longo dos tempos, ou melhor, de há cento e poucos anos para cá tem-se cometido por lá os maiores atentados da cidade e nem por isso têm dado ou deram muito que falar, refiro-me a atentados como a destruição quase total das muralhas seiscentistas e respetivo fosso, à demolição da casa dos arcos com o pretexto de posteriormente, com a demolição do edifício da farmácia, dar lugar a um largo, no entanto o edifício da farmácia acabou por ser demolido há coisa de trinta e tal anos mas para no seu espaço ser construído um novo edifício sem o mínimo de respeito pela arquitetura das construções existentes. Mas o post de hoje vai de encontro a duas escolhas de mau gosto para o pequeno largo que se vê nas imagens. A primeira escolha de mau gosto, que se repete noutros sítios da cidade, tem a ver com a localização escolhida para os contentores e ecopontos de recolha ou armazenamento de lixo, mesmo no cento do largo como se de uma escultura ou monumento se tratasse.

 

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A segunda escolha de mau gosto foi a alteração das cores originais de um pequeno prédio do largo (amarelo, azul e branco), por uma só cor. Cores essas que com um pouco de Photoshop recuperei e reproduzo na segunda imagem, com recurso à memória, graças a tantas vezes ter passado por lá e esse pequeno prédio fazer a diferença no largo, daí tornar-se inesquecível. Pintado de uma só cor,  ficou sem a graça que possuía e perdeu todo o interesse arquitetónico, tanto mais, que o projeto desse pequeno prédio é de autoria de Nadir Afonso e um dos poucos que o arquiteto pintor fez para esta cidade de Chaves. Posso estar errado, mas vejam a diferença e tirem as vossas conclusões.

 

 

22
Jan19

Chaves D´Aurora


1600-chavesdaurora

 

  1. AMOLADOR DE FACAS.

 

Certo galego, amolador de facas; era nele em quem os irmãos de Aurora estavam a cogitar, ao planejarem os mil e um (e mais alguns) modos de vingar a honra da irmã. Teriam só que aguardar o próximo mês quando, à primeira semana, como sempre ocorria, passava ao Raio X o Ti Manolo. Era um galego de Ourense, com sua roda de amolar tesouras e facas. E os ouvidos, também, porque era com sibilantes assobios que ele assinalava a sua presença, como se estivesse a anunciar a si mesmo, à moda dos amoladores no Barroso – “Cá está pro que amolais! Agulhas e dedais! E ‘otras cositas más’”.

 

Ao ouvir os silvos da roda, as mulheres acorriam das casas, com seus instrumentos de cozinha, cegos pelo uso ou necessitados de desamolgar. Também lhe levavam os chapéus-de-chuva a colocar varetas, louças partidas para colar com arte e panelas rachadas a consertar. Aqui e ali, posto que também conhecido por se dedicar a funções menos nobres, donos de quintas faziam-no adentrar os terreiros e estábulos, para Manolo lhes capar os porcos, bezerros, cavalos e cães. Por exercer também tal ofício, até contavam histórias de alguns ricos proprietários de terras, em aldeias do Barroso, que lhe tomaram os préstimos para justiçar os autores de suas filhas desonradas ou, até mesmo, reparar alguma injustiça de que se julgassem vítimas, em alguma demanda com outros aldeães.

 

Foi o caso de um pequeno proprietário no Douro, que se houvera roubado por um vizinho de um modo cobarde e perverso. Este pagara propinas a alguns homens da Lei e ganhara a questão, deixando o pobre homem quase na miséria. Quase, porque algum dinheiro ainda sobrou para chegar às mãos de Ti Manolo, quando o injustiçado já estava a bordo de um vapor em pleno oceano, bem longe do local onde as mãos que lavariam a afronta não seriam as do injustiçado duriense. Dele, seria apenas o gozo de uma esperada notícia.

 

Adveio que o vizinho corrupto (e corruptor) estava a passear sozinho por um carreiro deserto e recebeu um golpe na nuca que o deixou alheio ao mundo. Ao acordar viu, aflito e aterrado, que lhe haviam roubado uma das joias mais importantes de seu tesouro pessoal. Não imaginava quem fosse o autor, mas sabia muito bem dos porquês e do possível mandante. Aos mais íntimos, e apenas a estes, contou que – De repente, a fera estava ali, bem ali, diante de mim! Era um lobo faminto que me atacou, mas eu resisti bravamente, a lutar pela minha vida. A besta fera não conseguiu me arrastar para sua toca e me fazer de ceia, mas... acabou por levar um pedaço do melhor de mim, como sobremesa. Que se vão os anéis, ora diabos! Mas que me fiquem os dedos! – mas, nesse caso, facto é que o dedo restante só poderia servir de mero resíduo fisiológico.

 

 O certo é que, pelo sim, pelo não, nunca mais o Ti Manolo apareceu naquelas paragens.

 

 

  1. AMOLADOR DE FALOS.

 

A mais comentada façanha do amolador foi, certa vez, deslocar-se até ao Porto para encontrar o almocreve salafrário que, aos fins de nada e de nenhuns, senão por estúpida fanfarronice, valera-se da ingenuidade de uma sobrinha do próprio Ti. O atrevido fugira logo depois do ato consumado, certo de que o galego que amolava facas, mas também sabia cegar uns canivetes, nunca iria alcançá-lo.

 

Quando, na Ribeira, os empregados da hospedaria onde o moço se albergara foram acudir aos seus gritos, um sangue abundante manchava os lençóis. Viram então que o infelicitado hóspede, entre gritos de intensa dor, já não estava mais a contar com dois de seus trazidos mais preciosos. A Polícia do Porto, no entanto, ficou a desconhecer, para sempre, quem fora o rústico autor dessa terrível cirurgia. É que Manolo, ao cabo da obra, dissera ao eunuco, em bom Galego, ora aqui traduzido – Melhor que não contes nada a nenhuns, senão te venho, te pego de novo e te desfaço do resto. Vais ter que mijar sentado, feito uma dama!

 

Os irmãos de Aurora ficavam muitas horas a contar essas e várias outras histórias do amolador de facas, algumas já transformadas em lendas regionais - Ti Manolo é que é bom nesse mister; o Ti já está quase a passar cá por Chaves; ora, pois, temos de falar com o Ti capador; Ti Manolo está sempre a gostar de ver cheio o cofrezinho dele; o Ti não vai recusar nenhum serviço; esse cigano maroto logo vai saber, com o Ti Manolo, porque se diz “morto o bicho, morta a peçonha ... Enfim, era Ti Manolo pra cá, Ti Manolo pra lá, Ti Manolo pr’ acolá

 

Papá acabou por lhes ouvir o que estavam a planear e os chamou às falas – Todavia, meus rapazes, o momento é de tal sorte delicado que, portanto e porquanto, qualquer ato impensado poderá prejudicar ainda mais a tranquilidade da nossa família. Estão a me escutar ou querem que lhes mande lavar as orelhas com a esfregona? – o que levou Afonso e Alfredinho, após o sabão do pai, a nada mais pensarem ou planejarem, em seus arroubos de vingança. Meros arrebatamentos juvenis, na verdade, pois não tinham em si mesmos, em seus modos sensíveis e generosos, a menor aptidão para cozinhar aquela célebre iguaria, que se come em prato frio.

 

  1. JUDAS DE ALELUIA.

 

Para uma vingança mais fácil, mais leve e em muito boa hora, logo surgiu a ocasião. A ideia de execução foi da própria Arminda e os irmãos se encarregaram do mais, ao chegar o dia ...

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

 

 

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