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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

31
Mai19

Uma merenda quase perfeita


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A caminho dos 15 anos de blog, quando chego a esta hora de publicar qualquer coisa cá da terrinha, para não ser repetitivo, a escolha do tema, rua, praça ou lugar, às vezes torna-se complicado. Nas nossas publicações, geralmente, andamos por fora, na rua, mas também vivemos dentro das casas, onde também acontecem coisas, por exemplo a hora da merenda, que se faz entre o meio e o fim de tarde. Então hoje trazemos aqui uma merenda à nossa maneira, quase perfeita.

 

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Claro que temos de deitar mão às nossas coisas, nas quais, em algumas, até temos fama, tal como acontece com o presunto de Chaves, que cada vez mais vai sendo uma raridade, isto quando falamos de presunto de Chaves genuíno. A título de curiosidade, o presunto de Chaves, quando o havia em quantidade, na sua grande maioria, não era de Chaves, mas de toda a região, dos concelhos vizinhos, principalmente do Barroso. Afamou ser de Chaves, porque era aqui que ele era comercializado.

 

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Pois, para quem não sabe, aqui ficam algumas dicas para saber se o presunto é genuinamente de Chaves ou não, mas também a forma, maneira, como deve ser comido e com que acompanhar. O resumo está feito na primeira foto que vos deixo, tem lá quase tudo que faz falta a uma boa merenda, o presunto, as azeitonas caseiras, o pão centeio também caseiro, a cebola, o pimento do vinagre, um bocadinho de queijo para quebrar ou limpar o palato e a caneca de vinho tinto em jarra de barro preto de Vilar de Nantes. Quase perfeito, não fosse esta mesa (que é de uma casa comercial) não seguir as regras caseiras tradicionais de servir.

 

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 Pois tradicionalmente o presunto não é fatiado, pelo menos na forma como hoje o fazem, fininho que fica quase transparente. Não senhor, não é assim. A nossa maneira deve ser cortado em nacos e se for fatiado, no mínimo terá de ter a espessura de um dedo mindinho. Na mesa que apresentamos na primeira imagem, também lhe falta mais qualquer coisinha, que podia ser a linguiça ou o salpicão. Se for linguiça, também não é à rodela fininha que se corta, mais sim ao pedaço. Em geral uma linguiça deve ser cotada em três ou no máximo, 4 pedaços. O pão vai-se cortando conforme se come e é cortado com a espessura e da forma que se vê na imagem anterior,  e o pimento do vinagre deve ser comido conforme sai da talha, sem cortes, com uma salpicadela de sal grosso, sem cortes, a cebola deve partida em quatro partes, salpicada de sal grosso. Vinho, o necessário,  e sempre à temperatura da adega, que deve ser fresca, depois, bom apetite! è tudo para comer, menos as carabunhas das azeitonas!

 

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Por último umas dicas para saber se o presunto é mesmo de Chaves, genuíno. Primeiro o presunto é cortado à vista de todos, deve ter a forma arredondada como o da última imagem. Ganha este formato porque após a matança do porco as articulações são presas com uma corda para não se estenderem e darem o formato esguio (alongado) com que os outros presuntos se apresentam. Desta forma o presunto fica mais alto. Outra característica do nosso presunto, é ser entremeado de carne gorda, a que lhe dá um sabor especial. Se o presunto for só magro, não é de Chaves, pelo menos genuíno, quando muito, é daqui próximo, daquele que se vende na antiga fronteira com a Galiza, em Feces. Por último, para o presunto ser genuino, com vossa licença - o porco, também terá de ser genuíno, isto é, tratado com amor e carinho com todos os pertences da comida caseirinha até chegar a hora de ir ao banco, ou seja, é tratado (quase) como mais um elemento da família.

Um último aviso para o pessoal de fora que ficou com água na boca - Não venham a Chaves para comprar um presunto genuíno, pois os poucos que há não chegam para nós, quando muito, se for boa pessoa e um flaviense lhe dever um favor ou uma atenção, pode ter a sorte de lhe darem um.

 

30
Mai19

Cidade de Chaves - Um olhar desde a Rua Direita


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Hoje ficamos com uma vista tomada desde a Rua Direita no enfiamento da Ponte Romana. Não há vila ou cidade que não tenham uma rua com este topónimo “Rua Direita”, que traduzido em miúdos significa ou significava que era a rua principal da vila ou cidade, aquela que nos conduzia direitinhos ao(s) sítio(s) mais importante(s) da localidade. Rua Direita que em geral são bem tortinhas. Mas esta é a Rua Direita da urbe medieval que ficava entre muralhas medievais e que atravessava Chaves medieval, rua pela qual se faziam as entradas nas muralhas. Já a suposta “Rua Direita” romana teria o seu traçado bem direitinho no enfiamento da Ponte Romana. Os troços postos a descoberto por algumas escavações arqueológicas recentes ( Rua 1º de Dezembro e antigo café 5 Chaves) mostram essa mesma via principal romana, mais ou menos paralela à atual Rua de Stº António, sob o casario existente da rua (lado Sul).   

 

 

29
Mai19

A Galiza aqui ao lado... Mosteiro do Poio


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Hoje retomamos aqui uma rubrica que tem estado adormecida, não por falta de conteúdos, mais por falta de oportunidade, por falta de uma metodologia a seguir e por outras prioridades. Mas as oportunidades também se criam, idem para as prioridades e a metodologia, se há de ser mais elaborada, que o seja menos, ficando-se por exemplo por locais interessantes para visitar, tendo em conta que a Galiza fica aqui ao lado.

 

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O porquê desta rubrica já foi em tempo explicado, mas relembro. O território que este blog pretende abranger em especial, é o da região de Chaves, ou seja, o concelho de Chaves e todos os concelhos vizinhos sem esquecer, claro, que ao longo de 50 km o concelho de Chaves confronta com a Galiza, muito para além da Eurocidade Chaves-Verin . Nem que fosse apenas por esta razão, esta rubrica já tinha razão de ser aqui no blog, mas em geral, este blog também, ocasionalmente, faz abordagens a outras localidades transmontanas deste Reino Maravilhoso, e um pouco a Norte de todo o Rio Douro, ou seja, das regiões que culturalmente falando mais próximas estão de nós, e aqui, entra de novo a Galiza, pois tem mais traços históricos e culturais comuns connosco do que com a própria Espanha à qual pertence administrativamente, mas não culturalmente, começando pela língua, o galego,  que não é mais que o nosso português antigo. Tudo isto faz do povo galego um povo irmão e um povo amigo. E nem sequer vamos falar da antiga Gallaecia e do povo galaico, embora seja esse o território deste blog.

 

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Por sinal todo este território é feito de belezas impares que vai além da nossa região de Chaves e do nosso Reino Maravilhoso, belezas naturais, culturais mas também religiosas, principalmente no que toca à riqueza arquitetónica dos seus templos, desde as simples aminhas e nichos, às capelas, igrejas, catedrais e mosteiros.

 

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Mas entremos então na Galiza aqui ao lado, precisamente com a visita a um mosteiro que fica na Galiza um bocadinho mais distante, a 200 km, 2H30 de viagem, numa localidade que fica junto à Ria de Pontevedra e que dá pelo curioso nome de Poio. Um mosteiro que descobri por mero acaso mas que me encantou por tudo o que vi, conjunto e pormenores, incluindo o seu museu de obras de arte e a decoração dos claustros feita por artistas (pedreiros) portugueses. Fica um bocadinho da história deste mosteiro:

 

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O Monasterio de San Xoán de Poio (Mosteiro de São João de Poio) foi Fundado por São Frutuoso no século VII. Durante a Idade Média reuniu o poder feudal nesta parte da Ria de Pontevedra. Os monges beneditinos deixaram o mosteiro em 1835, como causa esteve a “Ley de Desamortización” , e em 1890 instalou-se nele a Ordem Mercedária . O claustro data do século XVI, obra do arquiteto Ruíz de Pamames e do mestre Mateo López. A igreja é renascentista, com elementos barrocos nas balaustradas do coro. Se quiser aprofundar mais sobre este mosteiro nem há como seguir este link: https://es.wikipedia.org/wiki/Monasterio_de_San_Juan_de_Poyo

E hoje ficamos por aqui, com a certeza de que esta rubrica passará a ter alguma regularidade, que poderá também servir de convite a um passeio um dia ou fim-de-semana.

 

28
Mai19

Há dias assim...


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Sempre gostei de ouvir falar os mais velhos, e quanto mais velhos são, mais interessantes se tornam, principalmente quando a experiência de muitos anos se transforma em sabedoria, mesmo que analfabetos, sem saber ler ou escrever. Aprendo sempre com eles, mesmo coisas que eu já sabia, que, à luz da experiência, podem ter outros significados, ganhar outros contornos. Às vezes agarramo-nos a frases feitas, recorrentes, em geral de filósofos, tornamo-las como lemas a seguir, mas com o tempo, acabamos por descobrir que as coisas não são bem assim como acreditávamos que seriam, e se foram válidas durante muito tempo, podemos ter o bem senso de alterar o nosso pensamento e o nosso acreditar. Ao longo destes quase 15 anos de blog, penso que já recorri a algumas dessas frases algumas vezes, de uma tenho a certeza, e que comummente vamos ouvido sobre a nossa maneira de ser e agir ligada à liberdade que temos, a de que “a nossa liberdade termina onde começa a liberdade dos outros” … pois bem, as palavras sábias despertaram em mim a reflexão, sobre a mesma liberdade,  em que ela deixa de ser livre se tiver limites, daí,  não poder terminar onde começa a dos outros, para tal, basta que não se confrontem e que cada uma siga o seu caminho… problema resolvido e viva a liberdade, como esta, de ficar por aqui.

 

Até amanhã!

 

28
Mai19

Chaves D´Aurora


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  1. AMIGOS E HORAS.

 

Nas horas más é que se conhecem as pessoas de melhor caráter. Também se diz que é nessas ocasiões que se revelam os verdadeiros amigos. A Florinda, doía-lhe mais o facto de algumas senhoras de Chaves, que se diziam amigas, desde que ela chegara do Brasil, já não mais a convidarem ou se fazerem convidar a um daqueles chás que, para as damas, são meros pretextos para um bom palear.

 

Salvo amigos excecionais como o Mota e alguns outros, novos ou velhos conhecidos, os que agora se revelavam não serem tantos nem o quanto amigos, em uma postura igual à de alguns clientes de Reis, tratavam-no, a essa altura, com uma educação mais formal do que a de um estranho. Esses tipos encaravam-no, então, de um modo sisudo, como se estivessem diante de um painel virtual, àquela altura inexistente, onde se viam escritas na tela as bobagens que lhes vinham ao pensamento – Aí está no que dá um pai não saber colocar os devidos cabrestos em suas potrancas!

 

Os parentes, à exceção das tias Hortênsia, Margarida e Francisquinha e dos tios Arlindo e Padre Augusto, evitavam ir ao Raio X, ou mesmo cruzar nas ruas com alguém de lá. Todavia, por uma questão de bons princípios e de solidariedade familiar, uma que outra parenta mandava, de vez em quando, uma criada saber notícias e levar alguns mimos para o bebé prestes a nascer. A solidariedade aos Bernardes da Quinta Grão Pará, todavia, foi dada por meros conhecidos formais, dos quais eles nunca poderiam supor que fossem receber qualquer apoio moral.

 

 Os Alsharife, dentre os raros portugueses de origem árabe que viviam em Trás-os-Montes, a tocar seu comércio de joias com êxito, fazer seus ritos islâmicos e a respeitar as tradições, as suas e as do próximo, sabiam que tanto os flavienses natos, quanto os que ali vieram habitar, compunham uma população maioritariamente católica, mas que sempre tratava as minorias, como a eles e alguns judeus e protestantes, com gentileza e urbanidade. Quando alguns nativos cristãos estavam a conviver apenas entre si, todavia, nunca deixavam de ver os mouros como infiéis, iguais aos seus antepassados, os que ocuparam e foram expulsos da Península Ibérica há tantos séculos. Isso tudo, ainda que ocorresse à privacidade dos lares, traduzia-se em chacotas, maledicências e infames anedotas. (Quanto a alguns raros judeus, remanescentes em um país que mandara à fogueira, obrigara a se converter em “cristãos-novos” ou expulsara do solo português, há centúrias, um considerável contingente de praticantes de sua fé, era tudo similar).

 

À vista disso, embora discretamente, ao contrário dos ciganos aculturados (esses eram cristãos), os Alsharife eram colocados à margem da vida social. Reis e Florinda, porém, sempre os trataram com sincera cordialidade. Assim foi que os islamitas, à altura daquele triste e difícil período, esmeraram-se em conceder aos Bernardes, sem nem de leve mencionar por quais motivos, um apoio que se traduzia em pequenos gestos de delicadeza e de plena solidariedade.

 

Nisso também os imitavam alguns vizinhos próximos ao Raio X, como os Bacelar e suas filhas. Por mais estranho que parecesse a Aldenora e aos mais da Quinta, as três raparigas, quase destinadas à solteirice eterna e, por consequência, talvez a nunca ouvirem um grito de bebé ecoar no casarão dos pais, faziam constantes visitas à jovem embaraçada e levavam preciosos mimos para o miúdo que se estava a esperar.

 

 

  1. MORAL E SOCIEDADE.

Geralmente, as pessoas menos favorecidas de bens pecuniários, como as que então constituíam a classe nomeada pelo...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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27
Mai19

Ausências e viagens cruzadas


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Eu sei que vos tenho habituado a ter por aqui, aos fins de semana, as aldeias de Chaves e o Barroso aqui tão perto, mas há sempre exceções, principalmente quando são por uma boa causa, que é o caso de hoje, ou melhor, deste fim-de-semana que fica para trás.

 

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Estive ausente durante estes últimos dias para assistir e participar num Congresso Internacional em que tinha como tema “As artes na Educação Especial” no âmbito da Animação Sociocultural, debatendo teorias, metodologias e práticas sociais, culturais e educativas para a inclusão, onde houve vários painéis temáticos, oficinas, workshops, espetáculos, conferências, etc. com  a conferência inaugural a cargo do Doutor Pedro Strecht e a de encerramento a cargo do Doutor Álvaro Laborinho Lúcio.

 

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Um congresso que era destinado ao público em geral, mas em especial aos profissionais do ensino, da Animação Sociocultural e outros profissionais que lidam com cidadãos portadores de deficiência.

 

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Penso que basta para justificar a ausência das crónicas aqui habituais ao fim-de-semana. Quanto às imagens, são desse congresso, de um espetáculo realizado na noite de 24 de maio, pelo grupo “Era uma vez”, teatro da APPC- Associação do Porto de Paralisia Cerebral, que apresentou “Viagens Cruzadas” a partir dos sete sapatos sujos de Mia Couto. Sem dúvida um espetáculo inesquecível que recorrendo às palavras de Laborinho Lúcio, cintado Sofia de Mello Breyner a respeito da arte, é um espetáculo que não se explica, mas que implica quem o vê.

 

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Mas dirão ou poderão interrogar aí desse lado – E o que é que um blog dedicado à cidade de Chaves tem a ver com tudo isto!? – Ora nem que fosse e só por se tratar de inclusão de pessoas com deficiência, já teria a ver com Chaves, isto porque tem ou deveria ter a ver com todos em geral, mas tem a ver também indiretamente com Chaves porque a Associação que promove estes congressos, a INTERVENÇÃO – Associação para a Divulgação e Promoção Cultural, tem sede em Chaves e muito do trabalho que antecede estes congressos é também feito em Chaves.

 

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E para terminar ficam os cartazes, um deste congresso que ocorreu em Vila Nova de Famalicão e do próximo, a acontecer em Vinhais, no próximo mês de Novembro, com um tema que nos toca bem de perto: A Animação Sociocultural, território rural, património, turismo, envelhecimento e desenvolvimento comunitário. Se a temática lhe interessa, informe-se no site da INTERVENÇÃO (https://associacaointervencao.pt/).

 

 

27
Mai19

Quem conta um ponto...


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444 - Pérolas e Diamantes: Nem Ulisses conseguiu

 

Ler Faulkner ou Saramago exige esforço. O seu tom autoirónico e de autoenaltecimento criaram um estilo. Por vezes podemos confundi-los com velhos vagabundos que alimentam pombos. Mas é engano. Os artistas costumam ser extremamente vaidosos e estranhamente endiabrados.

 

Dizem que faz parte da dignidade de um ser humano o longo sofrimento e o orgulho desprezível. Tretas.

 

Se a Humanidade é uma criação de Deus, estou em crer que o Criador acha que fracassou. Há quem confunda brutalidade com beleza.

 

A procura do sentido da vida remete-me para a velha história de Nicolau de Cusa. Este monge afirmou que quantos mais lados acrescentarmos a um polígono regular inscrito num círculo mais ele se parecerá com o círculo. Mas, teoricamente, é cada vez menos um círculo, porque um círculo só tem um lado. Para resolver o paradoxo, Nicolau disse que só podemos eliminar a distância entre os dois através de um ato de fé. É o tal salto no escuro.

 

O problema é quando finalmente encontramos o inimigo e o inimigo somos nós.

 

Por vezes sinto-me uma avestruz a sair de uma fábrica de frangos. Tudo o que sei é que já não sou um pintainho.

 

Penso que a minha cidade deixou de pertencer ao futuro. Mas eu sou um pessimista.

 

Tenho de admitir: sou um agnóstico do progresso. Mas também sei que o velho mundo ordeiro não é coisa em que se possa confiar, nem sequer para escrever um livro. Os sons da modernidade, em vez de harmonizar o que era discordante, criaram ainda mais discórdia.

 

Não é à toa que vivenciamos a nossa irrelevância. De facto, a irrelevância pode ser divertida até ao momento em que deixa de o ser.

 

A democracia dá ares de esgotamento. Votamos no partido com que alinhamos, mas ele já nada nos diz interiormente. Aqui chegados, lembro-me sempre que há duas maneiras de tirarmos um penso-rápido.

 

Os radicais acham que para se mudar o mundo é necessário dizer “não” a tudo e dessa forma se encerra o assunto. Mas eu, depois destes anos todos, sei que não é possível mudar nada se não se estiver disposto a dizer sim.

 

Ter variedade de escolha não é o mesmo que ter liberdade de escolha. Sobretudo quando são as outras pessoas a determinar essa escolha e não nós. Não é nada agradável ser uma espécie de exemplo ilustrativo de um argumento qualquer.

 

É da ciência antiga: as pessoas generosas são más negociantes.

 

Quando começa a ambição, terminam os bons sentimentos.

 

Se podemos dizer tudo o que nos apetece é porque aquilo que dizemos não faz diferença nenhuma.

 

As minhas certezas estão carregadas de dúvidas. E as minhas dúvidas estão, cada vez mais, carregadas de certezas.

 

Já os políticos mais apreciados e queridos pelo povo são os que desenvolveram a arte de dizer sim para conseguir chegar ao não e os que aprenderam a dizer não para conduzir a um sim. São ainda capazes de se dizerem apreciadores, e cultivadores, de uma tal pobreza honrada, enaltecendo o velho relógio da sala que nos remete para uma abastança já desaparecida. Gostam de dizer enfaticamente, lembrando Balzac, que compreender é igualar.

 

A social-democracia é a mãe de todas as vaidades. E de todas as desculpas. E de todas as justificações.

 

O pudor, mesmo disfarçado, possui os seus requintes. Isto gostam de repetir os que apreciam os bons lugares-comuns, como o tal de que não foram eles que escolheram a política, mas que foi ela que os escolheu.

 

É a crua realidade dos factos: vivemos entre o deslumbramento do homem executivo e do socialismo agnóstico.

 

Além disso, todos acreditamos em milagres. E esse é o principal milagre.

 

Em “A Minha Luta”, Karl Ove Knausgard reflete sobre o nosso tempo, sobre o fosso que existe entre o que se deve pensar e o que verdadeiramente se pensa, entre o que se devia sentir e o que sente realmente. E também entre o que o mundo devia ser e o que é. Ou seja, entre a ideologia e a realidade, entre a política e a literatura.

 

Cresci a sonhar com a possibilidade de fazer algo heroico. O radicalismo parece levar-nos a esse caminho. Mas sei agora que os heróis não existem, a não ser no papel.

 

Nem Ulisses foi capaz de fugir ao seu destino.

 

Na vida, ser sensível é mau, muito mau. Mas um escritor não consegue viver sem esse defeito.

 

PS – Descobri porque gosto muito, mas mesmo muito, de Bach, sobretudo das fugas. Apesar de revelarem uma estrutura altamente cerebral, quase matemática, estão carregadas de emoção.   

 

João Madureira

 

24
Mai19

Discursos Sobre a Cidade


GIL

 

O ESPANTALHO

 

O Ti Balele, de nome próprio Bernardo Medeiros, era um homem levado do catrino. Primogénito de uma família abastada da Veiga e com pouco mais para fazer na terra do que mandar, dedicava o mais do tempo ao ócio. Tecia refinadas diabruras ou passeava o non far niente pelos recantos idílicos da cidade do Tâmega. Dono e senhor de uma capacidade de imaginação notável, dominava as mais invulgares habilidades: tocava um sem número de instrumentos musicais apenas de ouvido; consertava rádios e mais tarde até as televisões de válvulas, concertinas e córdios, fogões a gás, motores de rega e de automóvel e inventava estranhos arcanhos para os mais inusitados propósitos!

 

Uma inteligência prodigiosa e rara a do Ti Babele! Que se parecesse só conheci a do Tio Júlio das Malhadeiras, dos Moreiras da Amoinha Nova, irmão do meu avô, herói combatente na Flandres.

 

O Balele vestia como um fidalgo: chapéu às três pancadas; brilhantina num cabelo às ondas penteado para trás, calça de risca ao fundo, tocando levemente num sapato de salto médio com protetores para que tocassem o ritmo gingão das passadas nas pedras da calçada, camisa de seda de um branco imaculado com colarinhos à teta de cabra caindo sobre as dobras do casaco cintado. Aberta até ao peito, a camisa deixava ver os pêlos do peito, que quase não tinha. No anelar da mão direita exibia uma tchapola com um grande rubi e no da esquerda, uma outra, com a bandeira nacional. Quando se pavoneava pela cidade não ficava a dever nada ao mais refinado travolta. Passeava-se de café em café, galando as moças que desfilavam nos passeios. Vaza-as com um olhar ladino, despojava-as das sete fraldas sonhando navega-lhes a alva espuma dos seus brandos corpos!

 

Um verdadeiro marialva!..

 

Não havia festa nos arredores da cidade em que não estivesse com o seu Volkswagen carocha carregado de amigos. Pelo setembro, aquando do arraial de Valpaços, um dos mais afamados da região, carregava a caixa aberta da Bedford de rapazes e raparigas e subia a serra de S. Lourenço a passo de caracol até que o planalto permitisse engrenar a prise e seguir mais ligeiro. Chegando a Valpaços, descarregava num qualquer souto, comprava cinco ou seis melões casca de carvalho da Terra Quente e lerpavam-nos ali mesmo sobre qualquer penedo. Bebiam uns canecos do tinto velho de Santa Maria de Emeres e como tegos bailavam, bailavam, umas vezes no ringue, pago, outras no terreiro, livre. Às tantas da matina, admiravam o fogo-de-artifício que era famoso e quando a aurora mostrasse a fuça, regressavam, mais mortos do que vivos.

 

Por Deus querer, nunca se esbandalhou ao descer, desengatado, a encosta de S. Lourenço. É que era mais o vinho e o cansaço a guiar do que a própria razão!

 

Casou já quarentão. Porém, tanto escolheu, tanto escolheu, que lhe saiu o gado mosqueiro! Calhou-lhe uma flor que pouco tempo lhe compôs a jarra! Meia dúzia de anos bastaram para que apartassem fazenda e cada um fosse curtir a solidão para sua banda. Assim se mantiveram até que a morte os varreu.

 

Falando em tropelias, partilhemos então algumas daquelas que o fizeram notado.

 

Andava há tempos com a cisma de que as vasilhas tradicionais de castanho lhe avinagravam o vinho. A partir de meia vasilha, apesar da estrafega, na lua mais favorável, o vinho azedava. Resolveu, então, experimentar a cuba de cimento. Achava ele que sendo mais fresca, faria com que o tintol durasse mais sem se estragar. Meu dito meu feito, botou mãos à obra. Passado um mês, tinha a dita cuba construída e com capacidade para cinco pipas. Uma obra admirável, não pelo tamanho mas pela novidade que constituía à época. Logo na colheita de setembro atestou-a com o mosto de Anelhe e esperou que a pinga desse de si. Diz o adágio que no S. Martinho se vai à adega e se prova o vinho. Assim foi. Provou-o e de facto estava uma pinga do caraito. Que vinhaça! Cristalina à luz, encorpada, sabor a fruta silvestre!.. É claro que só podia dever-se à qualidade da vasilha! Noutros anos, também tinha afogado no mosto um pedaço de toicinho da pá e nem por isso o tintol ficara tão apurado.

 

Ao Domingo, não faltava gente a rondar-lhe a para molhar o bico, era um corridinho! Qualquer convidado, por muito biqueiro que fosse, não deixava de, com o órgão do paladar, colorir o ambiente dos apreciadores profissionais com aquele estalido da praxe no fim de um bom golo de tinto: splachhhh! Porém, aquilo estava a tornar-se insuportável. O medidor externo do nível da cuba ia assinalando descidas acentuadas. Era como quem alimentava burros a pão-de-ló! Havia de se fazer qualquer coisa porque, por aquele andar, o tintol não teria tempo sequer ao menos para azedar e lá se ia a experiência.

 

Não esteve para modas: fechou-se na adega e com tinta e pincel desenhou, na frontaria da dita cuba, um tufo de cachos reluzentes escrevendo a seguinte frase em letras pouco menos do que garrafais:

 

Beba, não se faça burro!

 

É claro que para os mais esclarecidos a mensagem passou. O pior é que muitos dos seus amigos não sabiam ler nem escrever!.. O que é facto é que após o escrito o vinho mingava mais d’amodinho. Contudo, não ao ponto de, pelo menos naquele ano, conseguir verificar se a cuba evitaria que o néctar entoldasse!..

 

De outra vez, meteu-se-lhe na cabeça esculpir um Deus Baco num tronco, taludo, de carvalho, para decoração da adega. Porém, fê-lo tão abantesma que quando o tentou meter junto aos tonéis, batia com a cabeça nas traves de castanho que seguravam o sobrado. Para além do mais, desvirtuava o aspecto genérico da adega. À falta de melhor sítio, pregou com ele no telhado fronteiro de sua casa, em cima de um pedestal de cimento como se de uma estátua se tratasse. Colocou-lhe entre os braços, semiabertos, um arco de ferro com a seguinte frase:

 

Diz lá, quem te bateu?

 

Nunca ninguém percebeu o que ele quereria com aquele dezer. Tão pouco alguma vez o explicou. Talvez o propósito estivesse muito avançado para as mentes daquela época!.. A escultura era de tal forma esquisita que intrigava quem a admirava. Inclusivamente as mães, para obrigar os crianços a comer o caldo, ameaçavam-nos com o quem te bateu e a coisa funcionava!.. Ao menos isso!

 

Noutra ocasião pegou num volumoso livro que andava lá por casa, talvez uma velha Bíblia Sagrada. Com a paciência do chinês, recortou-lhe as folhas interiores até conseguir espaço para introduzir um arcanho eléctrico que ele próprio fabricara. Destinava-se a premiar a curiosidade de quem o abria com um piparote eléctrico do catano! Encapou o livro cuidadosamente com um colorido papel de estanho, matéria condutora da electricidade. Decorou apelativamente a capa com umas imagens de mulheres seminuas, como convinha para atrair as atenções.

 

A primeira vez que o pôs à prova foi no café Brasil onde havia uns bilhares muito usados pela rapaziada. Um dia, chegou um pouco depois do almoço. Não estava ainda ninguém por lá a dar ao taco. Cuidadosamente, colocou o livro sobre uma das mesas de bilhar. Armou a geringonça e foi tomar o seu café.

 

Não demorou mais de meia dúzia de minutos, dois matarruanos que vieram feirar entraram, filando de imediato as imagens apelativas da capa. Cegaram-se como se cegam os pinchos com o grilo na pescoceira.

 

— Ele que caraito é isto? — botava o mais afoito!

Num bês, é um libro de gaijas! — constatava o outro.

De gaijas? Bem mou finto!..

Astrebeibos a abririo e vereides a Greta Garbo toda nuzinha — disse o Balele desde o balcão, para lhes aguçar, ainda mais, o apetite!..

Atão num astrebemos! — responderam corajosos.

 

Um deles botou-lhe as unhas e mal o escancarou, a máquina deu de si e aí vai aço!..

 

Pu** que pariu!.. — berrou surpreendido, largando o livro que, às cambalhotas pelo ar, se esbandalhou escontra a parede fronteira!..

Arra fonha-se que vossemecê agora é que me fo***! Vá lá p’ro car**** que o recontrafo** amais o libro. E arrousse-se daqui para casa do carbalho entes que le fo** as bentas!..

 

Quem assistiu ao espectáculo riu a bom rir. É que galhofas destas só na Lapa, uma vez por ano, com os palhaços do Cardinalli.

 

De outra vez comprou, creio que a uns ciganos que faziam negócio com material vindo de Andorra, um auto-rádio que montou no seu carocha. Um cantante que fazia as delícias e a inveja dos seus amigos. Tocava os fados da Amália, os rocks do Travolta ou as baladas de Nelson Ned e Mari Sol com tanta categoria que chegava a fazer arrepiar quem as ouvia. Aliás, moça que aceitasse escuitar um destes temas, só conseguia sair do carro com duas beijocas nas trombas! E se não fosse mais! Mas, o rádio, tinha um problema que afligia quantos o admiravam: não tinha marca! Cada vez que alguém o olhava não deixava de lhe notar aquela ausência.

 

Poderia lá ser, um rádio tão bom e sem marca!..

 

O Balele tanto se encheu daquilo, que um dia sentou-se na banca de trabalho e desenhou, numa placa de alumínio fino, a marca do rádio. Letras minúsculas que recortou com a minúcia do cirurgião. Depois de pronto o trabalho parecia produto de fábrica. Colou-a no lugar aprazado:

 

MERDEX

 

Daí por diante nunca mais ninguém ousou afirmar que aquele rádio não tinha marca!.. Problema resolvido!

 

Certa ocasião constou que um dos criados de sua casa tinha falecido no Tâmega, ali para os lados da Galinheira, quando à hora de sesta se banhava nas águas frias. Dizia-se que o corpo não teria aparecido por ter sido engolido num dos muitos redemoinhos que por lá havia. De facto, até hoje, o desgraçado não deu à costa. Porém, isso não obstou a que se tentasse levar por diante um funeral digno. O Balele, numa tarde de segada na Veiga, fez constar, entre o rancho de trabalhadores, que o corpo tinha aparecido. Que estava em câmara ardente no salão grande da casa. No regresso do trabalho todos poderiam por fim participar no velório, rezando um terço por sua alma. Teve a tarde toda para preparar a cena como lhe convinha. Contratou um amigo cangalheiro e juntos prepararam os mais refinados pormenores que se exigiam num mortório: a urna repousando sobre suportes cromados, os candelabros de azeite ardendo mortiços e uma grande cruz sobre a cabeceira, encimando um grande pano roxo. Na urna repousava um volume a fazer de corpo, completamente coberto por um véu preto opaco, como convinha. É evidente que aquele volume não passava de um fato velho preenchido com feno e uma cara deslavada fabricada de pasta de papel de jornal. Tudo tão bem preparado que, ao longe e na penumbra, imitava na perfeição o defunto. Fez passar uma corda fina pelo estrebão da casa, ligando o pescoço do defunto a uma sala contígua. A corda estava perfeitamente camuflada pelas colchas roxas que adornavam a cabeceira. Acontecia que quando se puxasse a corda na outra sala, o defunto levantava-se de supetão, com grande estardalhaço, por ter presas às pernas campainhas dos bois.

 

Quando pela tardinha as pessoas que regressavam do campo, passavam por lá, botavam água benta e rezavam um padre-nosso pela alma do infeliz. À noite botavam o terço e as ladainhas do costume. Foi contratada a tia Cândida para debitar as Avé-Marias.

 

A noite foi chegando e com ela os muito afanados fiéis. Tudo pronto e a Tia Cândida deu início às rezas com a sala repleta. O sobrado de castanho rangia com o peso do povo. Botou Avé-Marias e Padre-Nossos quantos pôde e quando tudo já dormitava naquele rame rame, o Balele, sorrateiro, esgueirou-se para a sala contígua. Quando lhe pareceu, deu um puxão à corda o que fez saltar o morto que, aos toques endiabrados dos guizos, ficou pendurado, à laia de enforcado, na trave da sala.

 

Meu amigo… O pânico foi de tal ordem que quem não desmaiou precipitou-se para a porta estreita para dar de frosques. Porém, o peso inusitado de tanta gente aglomerada sobre os caibros que sustentavam o sobrado, junto à porta de saída, fê-los ceder e foi tudo parar à loje dos recos, numa escuridão total. O morto, baloiçando na trave, continuava a fazer tilintar as campainhas. Homens e mulheres, numa amálgama, chafurdavam no esterco da corte. Os desgraçados dos recos grunhiam assustados como diabos, fazendo da cena um autêntico Inferno de Dante. Os que puderam escapar-se pela porta da loje para o pátio, largaram desenfreados rua acima. Os que ficaram gritavam como almas penadas, cuidando estarem já a caminho das parafundas do inferno. Só visto!

 

Quando passado algum tempo tudo se esclareceu, o Balele teve de fugir para a Póvoa de Varzim para não levar nos cornos. E com rezão!

 

Contudo, não demorou que regressasse na paz do senhor porque, apesar de tudo, já ninguém deixava de se rir com o arrojo daquele espantalho!

 

Gil Santos

 

23
Mai19

Simplemente Madalena!?


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Não acreditem naquilo que veem na imagem, ou melhor, acreditem porque é real, mas a ilusão de ótica leva-nos a crer que todos aqueles telhados do casario estão juntinhos quando na realidade há um rio a separá-los e uma ponte a uni-los. De facto assim é, mas as diferenças são algumas, pois o casario mais distante está em Santa Maria Maior, o mais próximo está na madalena, ou seja lá para o fundo é a cidade, mais próximo é a Madalena, lá para o fundo é Santa Maria Maior, mais cá é simplesmente Madalena, mas pouca gente sabe que esta Madalena é a Santa Maria Madalena. E qual o porquê da Santa Maria de cá ser só Madalena!? Só Freguesia da Madalena!? O porquê de lá ser cidade, cá não!? O porquê de a Santa Maria de lá ter uma igreja e a de cá apenas ter tido uma capela!? Capela essa que hoje é habitação e casa de móveis. Pois não sei responder a todas essas questões, embora desconfie qual seja a razão. Ainda dizem que o Sol ou a Lua quando nasce é para todos! Mentira, ainda há três dias estava eu na cidade a ver nascer a Lua, grande e luminosa, fui para casa a correr para lhe tirar uma fotografia e quando lá cheguei tive de esperar meia hora para que ela nascesse, e já não era tão grande assim!

 

Para que conste, neste blog, a partir de hoje a Madalena passa oficialmente a ser tratada por Santa Maria Madalena, e mais nada!

 

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