![GIL GIL]()
O ESPANTALHO
O Ti Balele, de nome próprio Bernardo Medeiros, era um homem levado do catrino. Primogénito de uma família abastada da Veiga e com pouco mais para fazer na terra do que mandar, dedicava o mais do tempo ao ócio. Tecia refinadas diabruras ou passeava o non far niente pelos recantos idílicos da cidade do Tâmega. Dono e senhor de uma capacidade de imaginação notável, dominava as mais invulgares habilidades: tocava um sem número de instrumentos musicais apenas de ouvido; consertava rádios e mais tarde até as televisões de válvulas, concertinas e córdios, fogões a gás, motores de rega e de automóvel e inventava estranhos arcanhos para os mais inusitados propósitos!
Uma inteligência prodigiosa e rara a do Ti Babele! Que se parecesse só conheci a do Tio Júlio das Malhadeiras, dos Moreiras da Amoinha Nova, irmão do meu avô, herói combatente na Flandres.
O Balele vestia como um fidalgo: chapéu às três pancadas; brilhantina num cabelo às ondas penteado para trás, calça de risca ao fundo, tocando levemente num sapato de salto médio com protetores para que tocassem o ritmo gingão das passadas nas pedras da calçada, camisa de seda de um branco imaculado com colarinhos à teta de cabra caindo sobre as dobras do casaco cintado. Aberta até ao peito, a camisa deixava ver os pêlos do peito, que quase não tinha. No anelar da mão direita exibia uma tchapola com um grande rubi e no da esquerda, uma outra, com a bandeira nacional. Quando se pavoneava pela cidade não ficava a dever nada ao mais refinado travolta. Passeava-se de café em café, galando as moças que desfilavam nos passeios. Vaza-as com um olhar ladino, despojava-as das sete fraldas sonhando navega-lhes a alva espuma dos seus brandos corpos!
Um verdadeiro marialva!..
Não havia festa nos arredores da cidade em que não estivesse com o seu Volkswagen carocha carregado de amigos. Pelo setembro, aquando do arraial de Valpaços, um dos mais afamados da região, carregava a caixa aberta da Bedford de rapazes e raparigas e subia a serra de S. Lourenço a passo de caracol até que o planalto permitisse engrenar a prise e seguir mais ligeiro. Chegando a Valpaços, descarregava num qualquer souto, comprava cinco ou seis melões casca de carvalho da Terra Quente e lerpavam-nos ali mesmo sobre qualquer penedo. Bebiam uns canecos do tinto velho de Santa Maria de Emeres e como tegos bailavam, bailavam, umas vezes no ringue, pago, outras no terreiro, livre. Às tantas da matina, admiravam o fogo-de-artifício que era famoso e quando a aurora mostrasse a fuça, regressavam, mais mortos do que vivos.
Por Deus querer, nunca se esbandalhou ao descer, desengatado, a encosta de S. Lourenço. É que era mais o vinho e o cansaço a guiar do que a própria razão!
Casou já quarentão. Porém, tanto escolheu, tanto escolheu, que lhe saiu o gado mosqueiro! Calhou-lhe uma flor que pouco tempo lhe compôs a jarra! Meia dúzia de anos bastaram para que apartassem fazenda e cada um fosse curtir a solidão para sua banda. Assim se mantiveram até que a morte os varreu.
Falando em tropelias, partilhemos então algumas daquelas que o fizeram notado.
Andava há tempos com a cisma de que as vasilhas tradicionais de castanho lhe avinagravam o vinho. A partir de meia vasilha, apesar da estrafega, na lua mais favorável, o vinho azedava. Resolveu, então, experimentar a cuba de cimento. Achava ele que sendo mais fresca, faria com que o tintol durasse mais sem se estragar. Meu dito meu feito, botou mãos à obra. Passado um mês, tinha a dita cuba construída e com capacidade para cinco pipas. Uma obra admirável, não pelo tamanho mas pela novidade que constituía à época. Logo na colheita de setembro atestou-a com o mosto de Anelhe e esperou que a pinga desse de si. Diz o adágio que no S. Martinho se vai à adega e se prova o vinho. Assim foi. Provou-o e de facto estava uma pinga do caraito. Que vinhaça! Cristalina à luz, encorpada, sabor a fruta silvestre!.. É claro que só podia dever-se à qualidade da vasilha! Noutros anos, também tinha afogado no mosto um pedaço de toicinho da pá e nem por isso o tintol ficara tão apurado.
Ao Domingo, não faltava gente a rondar-lhe a para molhar o bico, era um corridinho! Qualquer convidado, por muito biqueiro que fosse, não deixava de, com o órgão do paladar, colorir o ambiente dos apreciadores profissionais com aquele estalido da praxe no fim de um bom golo de tinto: splachhhh! Porém, aquilo estava a tornar-se insuportável. O medidor externo do nível da cuba ia assinalando descidas acentuadas. Era como quem alimentava burros a pão-de-ló! Havia de se fazer qualquer coisa porque, por aquele andar, o tintol não teria tempo sequer ao menos para azedar e lá se ia a experiência.
Não esteve para modas: fechou-se na adega e com tinta e pincel desenhou, na frontaria da dita cuba, um tufo de cachos reluzentes escrevendo a seguinte frase em letras pouco menos do que garrafais:
Beba, não se faça burro!
É claro que para os mais esclarecidos a mensagem passou. O pior é que muitos dos seus amigos não sabiam ler nem escrever!.. O que é facto é que após o escrito o vinho mingava mais d’amodinho. Contudo, não ao ponto de, pelo menos naquele ano, conseguir verificar se a cuba evitaria que o néctar entoldasse!..
De outra vez, meteu-se-lhe na cabeça esculpir um Deus Baco num tronco, taludo, de carvalho, para decoração da adega. Porém, fê-lo tão abantesma que quando o tentou meter junto aos tonéis, batia com a cabeça nas traves de castanho que seguravam o sobrado. Para além do mais, desvirtuava o aspecto genérico da adega. À falta de melhor sítio, pregou com ele no telhado fronteiro de sua casa, em cima de um pedestal de cimento como se de uma estátua se tratasse. Colocou-lhe entre os braços, semiabertos, um arco de ferro com a seguinte frase:
Diz lá, quem te bateu?
Nunca ninguém percebeu o que ele quereria com aquele dezer. Tão pouco alguma vez o explicou. Talvez o propósito estivesse muito avançado para as mentes daquela época!.. A escultura era de tal forma esquisita que intrigava quem a admirava. Inclusivamente as mães, para obrigar os crianços a comer o caldo, ameaçavam-nos com o quem te bateu e a coisa funcionava!.. Ao menos isso!
Noutra ocasião pegou num volumoso livro que andava lá por casa, talvez uma velha Bíblia Sagrada. Com a paciência do chinês, recortou-lhe as folhas interiores até conseguir espaço para introduzir um arcanho eléctrico que ele próprio fabricara. Destinava-se a premiar a curiosidade de quem o abria com um piparote eléctrico do catano! Encapou o livro cuidadosamente com um colorido papel de estanho, matéria condutora da electricidade. Decorou apelativamente a capa com umas imagens de mulheres seminuas, como convinha para atrair as atenções.
A primeira vez que o pôs à prova foi no café Brasil onde havia uns bilhares muito usados pela rapaziada. Um dia, chegou um pouco depois do almoço. Não estava ainda ninguém por lá a dar ao taco. Cuidadosamente, colocou o livro sobre uma das mesas de bilhar. Armou a geringonça e foi tomar o seu café.
Não demorou mais de meia dúzia de minutos, dois matarruanos que vieram feirar entraram, filando de imediato as imagens apelativas da capa. Cegaram-se como se cegam os pinchos com o grilo na pescoceira.
— Ele que caraito é isto? — botava o mais afoito!
— Num bês, é um libro de gaijas! — constatava o outro.
— De gaijas? Bem mou finto!..
— Astrebeibos a abririo e vereides a Greta Garbo toda nuzinha — disse o Balele desde o balcão, para lhes aguçar, ainda mais, o apetite!..
— Atão num astrebemos! — responderam corajosos.
Um deles botou-lhe as unhas e mal o escancarou, a máquina deu de si e aí vai aço!..
— Pu** que pariu!.. — berrou surpreendido, largando o livro que, às cambalhotas pelo ar, se esbandalhou escontra a parede fronteira!..
— Arra fonha-se que vossemecê agora é que me fo***! Vá lá p’ro car**** que o recontrafo** amais o libro. E arrousse-se daqui para casa do carbalho entes que le fo** as bentas!..
Quem assistiu ao espectáculo riu a bom rir. É que galhofas destas só na Lapa, uma vez por ano, com os palhaços do Cardinalli.
De outra vez comprou, creio que a uns ciganos que faziam negócio com material vindo de Andorra, um auto-rádio que montou no seu carocha. Um cantante que fazia as delícias e a inveja dos seus amigos. Tocava os fados da Amália, os rocks do Travolta ou as baladas de Nelson Ned e Mari Sol com tanta categoria que chegava a fazer arrepiar quem as ouvia. Aliás, moça que aceitasse escuitar um destes temas, só conseguia sair do carro com duas beijocas nas trombas! E se não fosse mais! Mas, o rádio, tinha um problema que afligia quantos o admiravam: não tinha marca! Cada vez que alguém o olhava não deixava de lhe notar aquela ausência.
Poderia lá ser, um rádio tão bom e sem marca!..
O Balele tanto se encheu daquilo, que um dia sentou-se na banca de trabalho e desenhou, numa placa de alumínio fino, a marca do rádio. Letras minúsculas que recortou com a minúcia do cirurgião. Depois de pronto o trabalho parecia produto de fábrica. Colou-a no lugar aprazado:
MERDEX
Daí por diante nunca mais ninguém ousou afirmar que aquele rádio não tinha marca!.. Problema resolvido!
Certa ocasião constou que um dos criados de sua casa tinha falecido no Tâmega, ali para os lados da Galinheira, quando à hora de sesta se banhava nas águas frias. Dizia-se que o corpo não teria aparecido por ter sido engolido num dos muitos redemoinhos que por lá havia. De facto, até hoje, o desgraçado não deu à costa. Porém, isso não obstou a que se tentasse levar por diante um funeral digno. O Balele, numa tarde de segada na Veiga, fez constar, entre o rancho de trabalhadores, que o corpo tinha aparecido. Que estava em câmara ardente no salão grande da casa. No regresso do trabalho todos poderiam por fim participar no velório, rezando um terço por sua alma. Teve a tarde toda para preparar a cena como lhe convinha. Contratou um amigo cangalheiro e juntos prepararam os mais refinados pormenores que se exigiam num mortório: a urna repousando sobre suportes cromados, os candelabros de azeite ardendo mortiços e uma grande cruz sobre a cabeceira, encimando um grande pano roxo. Na urna repousava um volume a fazer de corpo, completamente coberto por um véu preto opaco, como convinha. É evidente que aquele volume não passava de um fato velho preenchido com feno e uma cara deslavada fabricada de pasta de papel de jornal. Tudo tão bem preparado que, ao longe e na penumbra, imitava na perfeição o defunto. Fez passar uma corda fina pelo estrebão da casa, ligando o pescoço do defunto a uma sala contígua. A corda estava perfeitamente camuflada pelas colchas roxas que adornavam a cabeceira. Acontecia que quando se puxasse a corda na outra sala, o defunto levantava-se de supetão, com grande estardalhaço, por ter presas às pernas campainhas dos bois.
Quando pela tardinha as pessoas que regressavam do campo, passavam por lá, botavam água benta e rezavam um padre-nosso pela alma do infeliz. À noite botavam o terço e as ladainhas do costume. Foi contratada a tia Cândida para debitar as Avé-Marias.
A noite foi chegando e com ela os muito afanados fiéis. Tudo pronto e a Tia Cândida deu início às rezas com a sala repleta. O sobrado de castanho rangia com o peso do povo. Botou Avé-Marias e Padre-Nossos quantos pôde e quando tudo já dormitava naquele rame rame, o Balele, sorrateiro, esgueirou-se para a sala contígua. Quando lhe pareceu, deu um puxão à corda o que fez saltar o morto que, aos toques endiabrados dos guizos, ficou pendurado, à laia de enforcado, na trave da sala.
Meu amigo… O pânico foi de tal ordem que quem não desmaiou precipitou-se para a porta estreita para dar de frosques. Porém, o peso inusitado de tanta gente aglomerada sobre os caibros que sustentavam o sobrado, junto à porta de saída, fê-los ceder e foi tudo parar à loje dos recos, numa escuridão total. O morto, baloiçando na trave, continuava a fazer tilintar as campainhas. Homens e mulheres, numa amálgama, chafurdavam no esterco da corte. Os desgraçados dos recos grunhiam assustados como diabos, fazendo da cena um autêntico Inferno de Dante. Os que puderam escapar-se pela porta da loje para o pátio, largaram desenfreados rua acima. Os que ficaram gritavam como almas penadas, cuidando estarem já a caminho das parafundas do inferno. Só visto!
Quando passado algum tempo tudo se esclareceu, o Balele teve de fugir para a Póvoa de Varzim para não levar nos cornos. E com rezão!
Contudo, não demorou que regressasse na paz do senhor porque, apesar de tudo, já ninguém deixava de se rir com o arrojo daquele espantalho!
Gil Santos