Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

13
Ago19

Pedradas e Tesouros


1600-(35050)

 

Muitas vezes, inconformados com outras coisas, revoltamo-nos com as coisas da nossa cidade e com a própria, com o que nela não acontece (de bem) ou no que nela acontece (de mal), que deveria ser assim, ou assado, saudades daquilo que já não existe, etc.  e que venha daí um que atire com a primeira pedra se nunca o fez… é muito fácil, e então agora com o Facebook, é só pedradas, contra isto, contra aquilo, etc, coisa e tal, e fazem-no com a mesma facilidade e leviandade como aquela em que esquecem a nossa história milenar e os nosso preciosos tesouros, que poucas cidades do país têm, quer em quantidade, quer em qualidade, e que nós vamos esquecendo e até desprezando.

 

1600-(47129)

 

Poder-vos-ia enunciar aqui todos os nossos tesouros, como a ponte romana, as nossas fortalezas militares (medievais, seiscentistas e até as atuais, os fortes, as muralhas e castelos), as termas romanas e as atuais, todo o nosso centro histórico, as nossas praças monumentais, entre outros, mas também a hospitalidade da nossa gente, a nossa gastronomia, o nosso mundo rural, e por fim, os nossos museus, como o Museu Militar, e um dos que já é considerado dos melhores de Portugal, como é o Museu de Arte Contemporânea  Nadir Afonso, quer pela arquitetura do edifício do Mestre Álvaro Siza Vieira, quer pelo seu conteúdo, mas também um outro que não deixa de poder ser considerado um museu, que é o da arte sacra, quer nos edifícios religiosos que temos, quer na riqueza dos seus interiores e conteúdos, refiro-me às nossa igrejas medievais rurais (Outeiro Seco, Graginha, Santa Leocádia, São Julião, Moreiras, etc), aos nossos santuários (São Caetano, Nossa Senhora da Saúde, Nossa Senhora da Aparecida, Nossa Senhora do Engaranho, etc.) quer pela quantidade de capelas e igrejas um pouco espalhadas por todas as aldeias do concelho, mas também dentro da cidade, com destaque para a Igreja Matriz, da qual hoje deixo imagens, a Igreja de Misericórdia, a Igreja de São João de Deus na Madalena mas também a Igreja de Santa Cruz Trindade,  que se destaca pela sua arquitetura contemporânea e por ser diferente daquilo que é habitual, mas também sem esquecer as nossas capelas da cidade, como a da Stª Cabeça e a de Stª Catarina (exterior e interior), e a capela da Lapa, entre outras. Mas hoje, ficaria só com o destaque para a Igreja Matriz, que para além da sua história ( desde a época medieval até hoje) e destaco-a principalmente pela riqueza do seu interior, um autêntico museu de arte sacra e de uma beleza impar, quer da própria estrutura em pedra (colunas e tetos das capelas), pela riqueza e arte dos vitrais, altares e do seu monumental órgão, etc.. E fico-me por aqui.

 

 

 

 

13
Ago19

Chaves D´Aurora


1600-chavesdaurora

 

 

  1. CABRITA EXPIATÓRIA.

 

Quem teria dado com a língua nos dentes e exposto os Bernardes às mordidas do povoléu? – Por muito tempo, o patriarca esteve a remoer sobre isso. Flor e os filhos se excluíam, por motivos óbvios, como ele bem queria crer. Alice também, pois o respeitava tanto, que ficava a tremer como varas verdes sempre que, por algum motivo, estivesse frente a frente com o sogro. Ao cocheiro, jamais perdera a confiança, ainda mais que soubera de sua nobre atitude em admoestar Hernando, obrigando-o a fechar a boca, definitivamente.

 

Restavam, portanto, as criadas. Sobre estas, Reis não se pôs a duvidar. Ainda que lhe fosse a mais simpática, a mais querida e a mais agradável, aquela que havia ajudado sua Florinda a cuidar dos filhos com o maior desvelo, desde quando ele chegara do Brasil, o coração de Reis sentiu apertar-se, pois nada mais lhe restava senão chamar Zefa de Pitões e ter com ela uma conversa muito especial.

 

 

Zefa chegou ao gabinete do patrão como sempre, com um largo sorriso nos lábios e a enxugar as mãos no avental. – Oh, meu senhor João Reis, o que estais a querer da vossa humilde Zefa? Aquele chazinho inglese, com torradas barradas a mel e geleia de morangos? Ou, a calhar, quereis o café com biscoitos que a dona Florin… – mas ele interrompeu-a – Não, obrigado, pra já não estou a precisar de nada. Estou a querer falar consigo sobre algumas coisas muito graves, mas que logo se hão de consertar.

 

Essa última palavra desconcertou a criada e o sorriso espontâneo logo desapareceu de seus lábios – Ai-jesus, mas o que foi que eu fiz? Que andaram a dizer da Zefa, enquanto ela dormia e agora, que já está acordadinha, cá não está a perceber?! Ai que ela não enxerga nem um boi do que se passa! Pois juro que não me lembro de estar a fazer nada de errado nesta casa e o senhor bem sabe que nunca… – mas o patriarca – Aí está, dona Josefa Maria de Pitões, aí está! – pelo que, ao ser chamada pelo nome de batismo e ainda mais de dona, mais assustada ela ficou. O que fosse ou deixasse de ser, ela não via mesmo nem uma boiada do que estava a se passar ali, diante do patrão.

 

Bernardes começou, então, por lhe agradecer todos esses anos que ela servira aos seus e a enumerar suas muitas e reconhecidas qualidades. Zefa abriu um largo sorriso, mas este logo se desfez. Foi quando o chefe da casa seguiu direto ao assunto – Só lastimo é que tenhas um pequeno... na verdade, um grande defeito. – e, após uma ligeira pausa, mas que pareceu longa demais, quase a matar de ansiedade a pobre Zefa, João Reis mirou-a com súbita dureza – Tens a língua sempre maior do que o teu corpo. Alguém daqui desta casa deu a vazar aos outros o que não devia. Agora me diz, quem nós podemos considerar que seja essa gralha, gralhíssima, que esteve a abrir o bico, como um verdadeiro papagaio falastrão?

 

A cada palavra do patrão, Zefa se pôs a reduzir toda, cada vez mais baixa e mais gordinha, até se achatar por completo, quase ao chão. Num sus!, porém, como um polichinelo em uma caixa de mola, voltou logo ao normal – E eu lá sei quem foi, senhor Reis! – mas ao perceber de que lado a corda ia romper – Ai-jesus, não esteja o senhor a pensar que fui eu! Não, não!!! Bem sabe o patrão o quanto estimo a menina Aurora e… e a todos desta casa! Ai que, a mim, não gostava nunca fazer convosco uma maldade dessas!

 

Tudo isso já estava quase a desarmar João Reis – Está bem, ninguém pode acusar de seres tu quem nos causou esse grande mal – e esse dito fez a criada soltar um suspiro de alívio. Já se dispunha a se ajoelhar e beijar as mãos do patrão, quando ele, porém – De qualquer modo, a senhora tem algo que me fez aborrecer muito, consigo. Aborrecer-me demais – Zefa tornou a tremelicar e o Reis – Alguém há de ter ajudado a menina a se encontrar com o patife, sabe lá desde quando – Fez outra pausa terrível e mais terríveis, ainda, eram os olhos dele sobre ela – Se calhar, dona Josefa, estou muito convencido de alcançar quem os chegou. Se não me haja ter sido a senhora...

 

Zefa soltou o pranto, afinal – Mas isso nunca, nunca mesmo é que o senhor havia de me… Com toda licença, senhor João Reis, estais a me ofender! Não por me chamaires de papagaio ou de gralha, mas por estaires a dizer que eu... Ai se cá me estivesse a dona Florinda! Havia ela de me pôr defesa! – e perdeu, então, o controlo das palavras e estas saíram em turbilhão – Pois mandai perguntar à menina Aurora, juro que eu nunca ajudei nada desse namoro, só depois daquela manhã quando ela, na cozinha, me fez falar de certas coisas de mulher e a pobre menina, ela me confiou o grande segredo que lhe bulia a garganta e que, ai, Jesus, aquilo tudo se dava por acabar assim, a nossa Aurita ficar prenha desse gajo que eu sempre dizia pra ela: se guarde longe dele, minha menina, aquilo cheira pior do que peixe podre e eu então, ora pois, foi só depois dela ficar sem os dias de histórias é que eu passei a lhe dar uma ajudinha, mas ai-jesus! Que tontarias estás a dizer, sua Zefa pateta?!

 

Traíra-se, pois, de algum modo.

 

 

  1. EXPIAÇÃO.

 

Reis se pôs a pensar por alguns segundos, mas logo se dirigiu ao pequeno cofre inglês e dele...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

fim-de-post

 

 

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

1600-(61066)-21-anos

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • cid simoes

      Caro Fernando, é uma notícia triste, criei uma afe...

    • Francisco Carita Mata

      É Pena.https://asmontanhasqueosratosvaoparindo.blo...

    • fjr barreiro

      Parabéns AMIGO Fernando DC Ribeiro por mais este a...

    • Fer.Ribeiro

      Caro Cid Simões, eu é que agradeço as suas visitas...

    • Cid Simões

      Há muitos anos que acompanho o seu trabalho e agra...

    FB