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No altar da Santa
Estava ali há já algum tempo, não sei quanto, mas tempo demais.
Tinha exposto o caso, detalhadamente, enunciado as premissas, contado os factos, passados e presentes, as vantagens e desvantagens, os se sim e os se não. Dei exemplos, pus hipóteses, delineei perspectivas, as prováveis e as possíveis. Fiz de conta, voltei a fazer de conta, contrapus, justifiquei, expliquei os argumentos, os contra-argumentos, o que pesava mais e o que pesava menos. Defini balança, unidades de medida, enumerei critérios e, para que não restassem dúvidas, identifiquei todo o léxico aplicado.
Foi então que a Santa me disse, muito baixinho: “Eu não faço milagres!”
Nesse momento baixei irrefletidamente os olhos pela gravidade da tristeza, embora ela não tivesse massa e não constituísse matéria, pesava como um fardo! Percebi, e constatei, só aqui, que a Santa tinha os pés muito grandes!
Como se tivesse despertado de um coma, reparei que me encontrava de joelhos, aos pés da Santa, e levantei-me num ápice como se, de repente, o padre no confessionário tivesse dado a reunião por terminada!
Foi nesse preciso momento que a Santa se ajoelhou aos meus pés e, de novo muito baixinho, era o seu timbre de voz, me suplicou: “Liberta-me desta prisão!”
Não percebi logo. Reparei que tinha nos pés, definitivamente grandes, uma corrente que a ligava ao altar.
Escutei-a sem dizer absolutamente nada, até ao momento em que percebi que estava ali há muito tempo, não sei quanto, mas tempo demais.
Tinha exposto o caso, detalhadamente, enunciado as premissas, contado os factos, passados e presentes, as vantagens e desvantagens, os se sim e os se não. Deu exemplos, pôs hipóteses, delineou as perspectivas, as prováveis e as possíveis. Fez de conta, voltou a fazer de conta, contrapôs, justificou, explicou os argumentos, os contra-argumentos, o que pesava mais e o que pesava menos. Definiu balança, unidades de medida, enumerou critérios e, para que não restassem dúvidas, identificou todo o léxico aplicado.
Olhei para ela, desta vez olhos nos olhos, e sorri!
Cristina Pizarro