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O Patinho feio, uma outra versão da história
Durante muito tempo entendi esta história segundo uma interpretação que me foi transmitida na altura em que ma contaram e era mesmo das histórias infantis a de que eu mais gostava e a que me parecia que tinha mais “moral”. Cheguei, irrefletidamente, a lê-la aos meus filhos!
Depois cresci e compreendi, não sei se o verdadeiro sentido da história, mas pelo menos uma outra interpretação, completamente diferente, que de alguma forma me assustou.
A vítima, passou a ser o agressor. Isto é, o “enjeitado”, criado numa família de patos com valores morais íntegros, com princípios éticos carregados de valor, sentido de família, solidariedade entre os pares, altruísmo social, igualdade de direitos entre os membros, independentemente de serem iguais ou diferentes, todos tratados da mesma forma, passou a ser, para um dos membros, sinónimo de segregação e marginalização. O próprio assumiu-se como diferente, sem nenhuma razão aparente!
Quando a mãe pata viu os filhos a nascer dos ovos, apercebeu-se logo, no primeiro instante, que aquele, o que viria mais tarde a afirmar-se como cisne, era diferente dos outros.
Como qualquer mãe, que gosta dos filhos por igual, independentemente das características físicas de cada um deles e até das particularidades de personalidade opostas que venham mais tarde a desenvolver, chocou-os da mesma maneira, com o mesmo amor, o mesmo carinho indiferenciado e a mesma atenção. Claro que o cisne, precocemente, se começou a achar mais que os outros, superior aos irmãos seus iguais e acima daquela família que começou, com enorme ingratidão, a achar que não era a sua!
Independentemente de se achar diferente, fosse só fisicamente, no princípio, dos outros da sua família, a sua obrigação era considerar-se como pertencente àqueles que o acolheram, que o trataram como verdadeiro irmão e que partilharam com ele o mesmo espaço e as mesmas circunstâncias, fossem elas boas ou más, é assim em todas as famílias! Mais tarde teria tempo de descobrir se a família era biológica ou de adopção! Isto era o que um pato normal faria!
Nunca, em toda a história, se ouviu à mãe pata um comentário mais diferente ou segregador, viviam em paz e harmonia até ao dia em que o patinho feio se aproximou de um lago para beber e armado em Narciso, ao ver a sua imagem reflectida na água, se achou superior aos seus irmãos: ”Afinal, eu sou um cisne!”.
No mesmo dia, sem aviso prévio, como seria normal se tivesse absorvido o que lhe tinha sido ensinado pelos progenitores, e agisse de acordo com os bons costumes que lhe tinham transmitido, partiu, ao avistar um bando de seres fisicamente iguais pensando que estava aí a sua oportunidade de regressar à origem, como se tivesse sido, fosse porque razão fosse, um elemento separado do grupo á nascença! Precipitou-se e juntou-se às aves que o sobrevoavam, iguaizinhas em estilo. Para além de feio era parvo! Não era de nada disso que se tratava, ele era apenas um pato, elemento da verdadeira família de origem, que era, apenas e só, algo diferente dos outros! Acontece tantas vezes, em tanto sítio!
A parecença física iludiu-o. Fez com que ele achasse que pertencia a um grupo com o qual não tinha nada em comum e deixou-se ir! Sabe Deus os problemas que lhe surgiram depois: a falsa identidade, a dupla personalidade, a falta de raízes, … passou definitivamente e por livre vontade a ser um enjeitado. Como é que a família de cisnes o haveria de receber na sua comunidade, agora já adulto, com uma formação de base completamente distinta, com maneiras de agir e pensar que nada tinham que ver com aqueles que já tinham nascido cisnes?!
Enganou-se, achou-se superior aos membros da família a que realmente pertencia, que o amavam e protegiam, embora na verdade fosse estranho como tudo, mas as relações familiares e a amizade que, entretanto, cresceu fazia deles irmãos verdadeiros. Se tinha ou não vindo de uma ninhada diferente ou sido chocado por outro pai, era um pormenor sem importância nenhuma. As mulheres têm esta flexibilidade com as crias! E enquanto os membros da família se esforçavam por lhe mostrar as semelhanças entre eles, o patinho feio não deixava de referir as diferenças e sublinhava como era superior a eles nisto e naquilo, tentando compensar a frustração de se achar diferente deles, sem perceber a razão. Podia até nem haver nenhuma, esta hipótese não a pôs.
É claro, como era demais previsível, que o patinho feio nunca se conseguiu integrar na família de cisnes!
Toda a gente sabe que a infância é fundamental! Os laços que estabelecemos com os membros do grupo em que fomos criados ficam-nos na memória e duram para sempre. Se nessa infância o patinho feio não conseguiu resolver a sua frustração de se achar inferior, apenas sinónimo de diferente, dos outros, isso nunca poderia ser resolvido mais tarde ao inserir-se num novo grupo, onde as diferenças já vêm de trás e são obviamente maiores. Passou, por isso, toda a sua vida, a continuar a sentir-se frustrado e exibia o seu complexo de inferioridade da seguinte forma: ”Eu sou um cisne!”
Na realidade, a sua vida resumiu-se a conviver, em permanência, com uma ausência de identidade: não era pato nem era cisne, independentemente de ser ou não feio. Característica esta que passaria a ser secundária perante a ausência de valores, de referências, de uma origem, de um porto de abrigo, um berço… Na realidade ele tinha-o, mas não o reconhecia como tal e por isso era como se não existisse.
Perguntarão alguns, mais exigentes, de quem foi a culpa! Analisadas todas as hipóteses, apontam todas para ele: quem estava no lago quando ele se baptizou de cisne, quando na realidade era pato? Com quem se comparou para se achar feio? Era porque os outros lho chamavam? Então, para além de um problema de identidade, ele tinha outro talvez mais grave: não se via nem assumia como era e isso trazia-lhe um sentimento de insegurança insuportável que ele disfarçava fazendo-se passar por outro, para que as críticas não o atingissem! A ser assim, a coisa fica ainda pior, ele era um dissimulado, queria vingar nos outros as inseguranças que eram só dele! É normal, acontece a muita gente, mas o problema da culpa ficou resolvido!
Moral da história: é preciso ter muito cuidado quando nos observamos ao espelho! A imagem que nele vemos reflectida pode não ter nada a ver com aquilo que somos!
Cristina Pizarro