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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

A casa da máscara e as casas - Chaves - Portugal

07.11.07 | Fer.Ribeiro

 

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Iniciei a minha actividade laboral como desenhador de construção civil. Trabalhei com muitos engenheiros e alguns arquitectos e claro que também ia tendo os contactos necessários com os clientes a quem nós chamávamos requerentes. Tínhamos dois tipos de clientes, os que construíam para vender e os que construíam para habitar, ou seja construíam a sua casa. Os primeiros deixavam a criação do projecto ao critério do arquitecto, geralmente apenas exigiam um x número de apartamentos, a sua tipologia, um número determinado de lojas, de garagens e por aí fora, claro que, tendo em conta o custo dos materiais a utilizar. Quanto à arquitectura propriamente dita o arquitecto decidia tendo em conta, claro, os interesses do dono, ou seja um edifício o mais interessante possível e de construção também o mais económico possível, pois o lucro era o que estava em causa. Claro que havia algumas excepções, mas com o lucro sempre presente.
 
Mas hoje quero mesmo é falar das casas, das moradias das famílias, da casinha com que cada um sempre sonha. A casa de sonho, de cada um.
 
No caso da moradia, havia de todo o tipo de clientes: Os que sabiam o que queriam e exigiam que a casa fosse projectada conforme idealizaram e de acordo com as suas necessidades; Os que pensavam que sabiam o que queriam e exigiam que o projecto fosse executado como teimavam, mesmo que não fosse de encontro às suas necessidades; Os que traziam revistas debaixo do braço para ser feito o projecto de sonho de qualquer um, com lindos e amplos relvados, jardins, árvores e montanhas de fundo com neve nos picos, bruta piscina, luxuoso carro ao lado e por aí fora, mas para adaptar tudo a um lote de 20x20m, sem piscina, relvados e montanhas de fundo, sem tanto vidro, com mais pedra, telha de cor preta, alumínio nas janelas e uma garagenzita para arrumar o quatro latas…; havia outros clientes que sabiam perfeitamente quais as suas necessidades, mas não faziam a mínima ideia de como iriam distribuir os espaços nem como seria o aspecto da casa; Haviam os que queriam uma casa igualzinha a uma que viram, mas com mais ou menos quartos, com mais ou menos varandas, sem tantos ou com mais telhados e, igual, mas em vez de dois pisos, só com um…; haviam os que só queriam uma casa que fosse bonita e tudo o resto não interessava… Enfim, havia clientes/requerentes para todos os gostos.
 
Aprendi que casas reflectem em tudo a personalidade das pessoas que as habitam e assim sendo, ia concluindo eu, que o melhor mesmo era projectar as casas que as pessoas queriam e de nada valia chamá-las à razão das coisas, pois que raio, afinal para quem era a casa!?
 
Claro que as casas têm de ser feitas à medida das pessoas que as habitam e com a funcionalidade que as pessoas lhe queiram dar. Numa aldeia, por exemplo, em que as pessoas têm os seus trabalhos de campo e agrícolas, gostam de ter as suas galinhas e frangos caseiros, de fazer fumeiro no Inverno e consolarem-se com uma boa lareira ao fim de um dia frio e de trabalho de Inverno, que gostam de comer e conviver na cozinha, de uns bons assados na brasa… não se lhe vai projectar uma cozinha com todo o requinte, micro-ondas, fogões e frigoríficos de alta tecnologia, pois o resultado (está provado) seriam fazerem um barraco anexo para a lareira e os potes. Também na arte de projectar há que ter em conta a personalidade das pessoas, um pouco de psicologia e conhecer as suas necessidades e os seus hábitos, senão o resultado é sempre desastroso e corre-se o risco, como acontece muitas vezes, de as pessoas terem uma casa para mostrar e uns barracos, em anexo, para habitar ou então de se contribuir para a sua ruína ou infelicidade, e não é isso que queremos, pois todos nós gostamos de ver pessoas felizes. A arte do arquitecto está aí mesmo, fazer arte e bonito para passante ver e admirar, mas de modo a que as pessoas que habitam esses espaços,  possam usufruir deles e serem felizes com o seu cantinho.  
 
Há dias em que o texto serve de pretexto para a fotografia, há outros, em que acontece o contrário. É o caso de hoje em que a fotografia apenas serviu de pretexto para o texto, pois embora já conheça a “casa da mascara” há muito anos, não conheço o seu proprietário, mas pelo aspecto e arquitectura (pelo menos exterior) suponho que o requerente fez a casa que queria e a casa dos seus sonhos. Vistosa é e até já teve honras de televisão além das honras diárias de pessoas e putos que passam pela rua, só para a verem e,  hoje, tem honras de imagem neste blog.
 
Se pensam que isto é caso único cá na terrinha, tirem o cavalinho da chuva, pois há mais e até temos casas com aviões ou avionetas verdadeiras no jardim, incluindo a com torre de controle, ou casas que desafiam o colorido com o mais berrante ou aberrante que há no mercado, para não falar das “maisons” ou das casas tipicamente algarvias, e até casas amarelas com carro amarelo a servir de decoração em cima do telhado (dizem, eu infelizmente não vi).
 
Até amanhã em Chaves cidade.

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