Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Ribeira das Avelãs - Chaves - Portugal

02.12.07 | Fer.Ribeiro

 

.

 

Já sabem que aos Sábados e Domingos, por aqui, o que está a dar, são as aldeias.
 
Pois então vamos até à Ribeira, mas para ir à ribeira há que falar com as autoridades na matéria, quem a conhece, ou melhor, as conhece.
 
Faltando o Dória, que só conheci de nome e que era o grande proprietário do local, havia que encontrar outro entendido na matéria. Lembrei-me então da comida biológica que vai fazendo os meus almoços. As couves, os grelos, as batatas, o feijão, a carne (seja ela qual for) e até o bacalhau, e outros peixes, tudo biológico, tem (em tom de brincadeira) origem na Ribeira, a do Cândido. Pois é o Cândido, para mim, o maior entendido em matéria da Ribeira e, como tal, foi a ele que recorri antes da minha visita às Ribeiras.
 
Começa confuso este post, pois tanto falo em Ribeira como em Ribeiras. Então vamos lá esclarecer esta confusão, que até para mim, que tenho origem nas proximidades, sempre tive as minhas dúvidas, mas que agora, depois de as visitar quase todas, cheguei a uma conclusão.
.
.
 
Então é assim: Junto às poldras de Chaves desagua uma ribeira, ribeiro ou rigueiro (conforme preferirem) que dá pelo nome de Caneiro. Chamemos-lhe Ribeira do Caneiro. Esta Ribeira é muito singular, pois conforme vai avançado até montante, ou seja até à sua nascente, vai adoptando outros nomes, bem como dando nome aos pequenos aglomerados de construções que se desenvolvem junto a ela. Assim se junto às poldras se chama Ribeira do Caneiro já, onde a EN 213 a cruza, chama-se Ribeira de Palheiros, curiosamente e popularmente, este último nome de ribeira ninguém o conhece ou reconhece, no entanto e seguindo a cartografia militar (que ainda é a mais fiável) de facto a Ribeira que chega às poldras (ou ao Tâmega) como Ribeira(o) do Caneiro, na sua origem (nascente) lá para os lados das Avelelas, tem o nome de Ribeira(o) dos Palheiros e, pelo caminho, ainda recebe várias linhas de água e uma outra ribeira, como a (vinda de Mosteiró) que dá pelo nome de Ribeira das Olgas. Mas até aqui estamos a falar das ribeiras que conduzem água, e hoje, quero falar de uma ribeira que tem casas e gente.
 
Voltamos ao Cândido. Quando lhe perguntei afinal quantas ribeiras havia, ele disse-me: “- Ora bem, temos a Ribeira de Sampaio, a Ribeira do Pinheiro, a Ribeira de Cima, a Ribeira das Avelãs e a Ribeira de Baixo”.
 
Esclarecidos!? - pois eu nem por isso, e nem há como percorrer a ribeira, ribeira acima, para as ficar a conhecer e, diga-se de passagem que por estrada não é tarefa fácil e, uma boa tarde, quase não chega para as percorrer a todas.
.
.
 
Mas então que já sabemos que há muitas ribeira, vamos ficar por uma delas: A Ribeira das Avelãs, que por sinal é a Ribeira do Cândido (Não haja confusão, pois Avelãs, é a ribeira da aldeia e, Cândido, é o nome do nosso informador, que por acaso é natural da Ribeira).
 
Então, a Ribeira das Avelãs, embora se situe mesmo por baixo do Miradouro de S.Lourenço, entalada entre as freguesias da Cela e das Eiras, pertence à freguesia da Madalena, e como tal, o acesso é feito por baixo e não por cima. Ou seja, a 3 quilómetros apenas de Chaves temos a Ribeira das Avelãs, mas para se chegar lá, há que ir pela Casa Azul, Sr. da Boa Morte, passar junto à quinta da Condeixa e logo a seguir, temos a Ribeira das Avelãs. Para quem gosta de história, nem há como seguir a calçada romana, pois esta passa por lá, ou ao lado.
.
.
 
Localizada que está, vamos até às casas e às gentes da Ribeira (das Avelãs).
 
Quanto a casas e gente (atenção que me refiro ao núcleo histórico da Ribeira e não a novas construções), na Ribeira das Avelãs vivem 5 pessoas, 2 cães e 12 gatos. Raposas, vão passando de vez em quando. Lobos já há muito tempo (anos) que não se sentem. Casas, há outras tantas como pessoas, e mais uma de um emigrante, que também faz número nas férias. Mas se hoje é assim, segundo a D.Júlia, antigamente não era. Bastava aparecer o tocador de concertina de Valpaços e logo ali, no largo que já não existe, fazia-se baile rijo, e até os e as das redondezas apareciam. Hoje a realidade é bem diferente, e, à excepção do simpático casal que nos deu mais que uma hora de conversa, durante esse período, só apareceram duas tias do Cândido e, claro, os 12 gatos e os dois cães. Tudo o resto foi a pacatez da montanha e de um entardecer.
 
Além de toda a “biologia” da Ribeira das Avelãs que o Cândido diariamente defende a quem dá de comer, vamos a um pouco da realidade da Ribeira ,e a realidade, traduz-se muito simplesmente no simpático casal que me acolheu em conversa, o Sr. Armindo, que até é de terras da Samardã e a sua mulher a D. Júlia, ou seja, vamos descer ao Portugal profundo, mesmo aqui a três quilómetros da cidade.
.
.
 
Armindo e Júlia, gente simpática e humilde, muito humilde até. Doentes, ambos do coração. O Senhor Armindo, em jovem, correu mundo. De Angola guarda as melhores e também más recordações. Tem 88 anos, vive agarrado a um cajado que o sustenta de pé, a um pacemaker que o mantém vivo além de uma algália (que lhe dá alguma qualidade de vida e que também lha retira e que o obriga a deslocar-se a Chaves diariamente, de táxi, para tratamento. A D. Júlia, desde a tragédia do filho, vai para nove anos, usa pilha no coração. Disseram-lhe os médicos que aos 7 anos a pilha tinha de ser mudada. Já lá vão 9 anos e vive agarrada à caixa do correio à espera que nela caia a carta em que a chamem para mudar a pilha. Senti-lhe a alegria de poder desabafar com alguém, que afinal até nem era tão estranho, pois tínhamos conhecimentos comuns, mas que de vez em quando largava uma lágrimas quando contava as suas desgraças da vida, das doenças, do filho ao qual lhe riparam a vida e do marido, dependente das suas doenças.
 
Parti, já ao fim da tarde quase noite, pois os meus compromissos familiares obrigavam-me a tal, mas apetecia-me ter ficado por lá, a ouvir os lamentos da D. Júlia e as recordações de Angola do Sr. Armindo, pois um pouco que seja de conversa também é terapia e curativo para alguns dos seus males. E lá parti, serra abaixo um pouco a pensar neste casal, que tão perto que está da cidade e mesmo assim vive isolado, tirando os 3 vizinhos, os 2 cães e os 12 gatos e a pensar como a vida e o nosso sistema de saúde é tão injusto para quem verdadeiramente precisa, para o Sr. Armindo, que com 88 anos de idade, pacemaker e algália, que a custo ainda se vai deslocando agarrado a um cajado, é obrigado a deslocar-se diariamente, de táxi, até ao Centro de Saúde de Chaves e quando eu perguntei à D. Júlia se ninguém do Centro de Saúde lhes vinha dar ali apoio e fazer os tratamentos necessários e diários ao seu marido, a resposta foi pronta: “ Não, enquanto ele se puder deslocar, não!” mesmo que isso custe e tenha o custo de duas viagens de táxi, além do custo de quem quase não se mantém de pé, será isto poder deslocar-se!?. A vida é injusta para os idosos e para quem precisa e, ainda mais, quando queremos mostrar ao mundo que somos um país democrático e tecnologicamente evoluído, que distribui telemóveis e computadores portáteis e deixa à margem casos, muitos casos que se repetem nas nossas aldeias de casais abandonados a si próprios, sem rendimentos e quase sem vidas como o da D.Júlia e do Sr. Armindo da Ribeira das Avelãs, mas o que mais impressiona, é que estes nossos velhos “queridos velhos” como diria Alexandre O’Neil, vivem conformados e até, aparentemente ou mesmo, felizes e acarretam as suas desgraças como uma dádiva de Deus.
 
.
.
Como seria bom que os senhores de Lisboa às vezes descessem ao Portugal real e profundo que ainda se vive nas nossas aldeias e tivessem consciência que Portugal ainda vive a duas velocidades, a dos que entram no sistema e a dos que são esquecidos ou ignorados.
 
Sinceramente lamento ser obrigado a contribuir para um Portugal assim!
 
E entre lamentos e alegrias, só me resta agradecer ao Cândido e à tias, à simpatia do Sr. Armindo e D.Júlia, que, sem se lamentarem, me deram a conhecer mais um bocadinho do nosso Portugal (infelizmente) real.
 
Até amanhã, na civilização de uma cidade de província, que também agarrada à sua comodidade de cidade, costuma ser indiferente a estas realidades que se cruzam connosco no dia-a-dia.
 
Até amanhã!

 

2 comentários

Comentar post