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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Izei, aldeia de montanha a 6 Km de Chaves

27.01.08 | Fer.Ribeiro

 

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Prometi passar por todas as aldeias do concelho e continuo a cumprir a promessa.
 
Às vezes os que estão mais próximos são os últimos, é o caso de Izei, que fica aqui ao lado, a apenas 6 quilómetros de Chaves, freguesia de Samaiões.
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Pela certa que já passei umas centenas de vezes por Izei, quase sempre de passagem, pois até hoje apenas tinha parado por lá, na estrada, talvez duas a três vezes. Ontem fui lá com olhos de ver e embora a aldeia pouco mais tenha do que aquilo que se vê da estrada, há que parar para apreciar os pormenores e as belezas escondidas.
 
Izei é uma aldeia de estrada (E.N.314) e localiza-se em plena encosta da Serra do Brunheiro entre Vilar de Nantes e o Peto de Lagarelhos. Embora na encosta, suponho que a sua vida sempre foi agrícola e sempre se desenvolveu naquilo que ainda é veiga de Chaves, pois é aos pés de Izei que a Veiga termina.
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Sem qualquer apoio documental e portanto posso estar errado, mas pelas características da aldeia, nota-se ter sido aldeia agrícola e rica, mas de apenas dois ou três senhores. Testemunha disso são uma casa senhorial (junto à estrada) e uma outra solarenga, com brasão e capela, ao lado da qual ainda existe uma outra construção, completamente em ruínas, mas que ainda mantém uma entrada nobre. Tudo o resto na aldeia, são construções humildes, incluindo a pequena capela, que embora pequena e humilde, mantém a sua dignidade e beleza.
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Quanto a construções nova e recentes, apenas duas ou três e parecem-me desabitadas, concerteza de emigrantes. A casa senhorial junto à estrada, com uma lindíssima entrada por rua interior, e (pelo espreitar) uma belíssima fonte, ainda é habitada por uma senhora idosa, segundo me disse um habitante da aldeia. Será uma das 10 pessoas e três famílias que habitam a aldeia, segundo informação do mesmo habitante com quem falei.
 
A casa solarenga, com brasão e capela, propriedade da família Taveira, encontra-se aparentemente e exteriormente em razoável estado de conservação, talvez fruto de ser habitada esporadicamente pelos seus proprietários.
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Tal como me disse uma senhora da freguesia, por ali havia muitas e boas terras que eram de gente rica e que no passado eram as mais bem tratadas. Agora as terras dos ricos estão abandonadas e as dos pobres é que ainda vão sendo tratadas. Ou seja, Izei, embora próxima da cidade, sobre dos males de todas as aldeias de montanha, com a desertificação, o abandono das terras e população envelhecida.
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10 pessoas, 3 famílias. Eu pessoalmente nesta minha “incursão” à aldeia, vi 3 senhoras de idade, 1 senhor de idade, 1 homem de meia-idade, 2 pombas, e 6 cães, suponho que também haveria gatos, mas não os vi.
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Quase concluída que está a visita do blog a todas as aldeias, nota-se e é do conhecimento de todos, que a grande maioria sofre de desertificação, tem pouca população e envelhecida e os campos não são cultivados. Todos sabemos, aceitamos e compreendemos as razões do abandono das aldeias, mas custa e dói ver morrer assim as nossas aldeias e as suas tradições, mas custar mesmo, custa ver tudo isto acontecer e nada poder fazer, e quem pode fazer alguma coisa por elas, nada faz.
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Claro que os filhos das aldeias que partem e as deixam para trás, não são os culpados dos males das aldeias. Esses (que me desculpem o termo) coitados, são obrigados a partir para tratar da vidinha, para sobreviverem e para darem uma vida digna aos filhos, vida que nas aldeias nunca encontrariam. A culpa mais uma vez vai para os políticos e para Lisboa e as suas políticas de centralização. As nossas aldeias, mais que ignoradas, são desprezadas e, quase é como se não existissem no mapa político português.
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Ontem mesmo, o Bastonário da Ordem dos Advogados teve a coragem de denunciar publicamente os interesses e corrupção que vai na classe política do poder, mas e embora isso seja preocupante, as más políticas desses mesmos políticos, são bem mais preocupantes.
 
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Chaves é um concelho agrícola e até há umas dezenas de anos atrás, a grande maioria da população do concelho vivia da agricultura. Com tanto subsídio e incentivos que houve para a agricultura por parte da CEE, pergunto eu, em Chaves (concelho) onde é que esses subsídios e incentivos estão à vista? Em meia dúzia de explorações numa população com 40.000 habitantes e 150 aldeias. As más políticas dos políticos (claro) que locais, mas principalmente nacionais, é que são os culpados da desertificação e envelhecimento das nossas aldeias. Eles acabaram com a agricultura, com a pecuária, as vacas e o leite, com os grandes rebanhos, com o presunto… mas sobretudo estão a acabar com as nossas aldeias, com a sua cultura e tradições e nem sequer tem a perspicácia de ver e reconhecer as nossas potencialidades agrícolas de qualidade aliadas ao turismo rural, de montanha e belezas naturais com uma população cheia de tradições culturais e religiosas.
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Para Lisboa, turismo, é Algarve de praias e sol, agricultura, são as grandes explorações e a civilização está nos grandes centros do litoral e um bocadinho nas capitais de distrito. Tudo o resto não existe, é apenas paisagem.
 
Mais uma vez a minha revolta vai para os políticos (sejam eles PSD’s ou PS’s) do poder, começando pelos Governos que sempre nos ignoraram, pelos nossos deputados que nunca nos representaram e pelo poder local, os autarcas, que nunca nos souberam defender nem reivindicar e se entretêm com politiquices caseiras (excepção para a maioria das juntas de freguesia que vivem e sofrem as suas aldeias). Razão tinham os anarcas do pós 25 de Abril quando diziam que “ a merda é a mesma, as moscas é que mudam”. Não admira que segundo o estudo que saiu recentemente a público a classe política seja uma das mais mal vistas em Portugal.
 
Peço desculpas a Izei e às suas gentes ou heróis que ainda têm a teimosia de a habitar por este meu desabafo, mas revolta-me entrar nas aldeias e não ver crianças, nem vida nem alegria, não ver os campos cultivados, não ver gado a pastar, nem rebanhos de ovelhas e cabras e, deparar sempre com casas, belíssimas casas da nossa arquitectura rural e tradicional, abandonadas aos lagartos, às cobras, às silvas, à ratazanas e à ruína.
 
Izei é uma aldeia pequena, interessante, de estrada, com ricas terras e montes, mas que, como todas as aldeias de montanha, está doente, sem ninguém que a cuide ou olhe por ela.
 
Até amanhã, de regresso à cidade onde, pelo menos, nos podemos orgulhar da história dos nossos antepassados flavienses.
 

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