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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Bairro do Caneiro - Chaves - Portugal

30.01.08 | Fer.Ribeiro

 

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Já sabem de que vez em quando faço um regresso às origens, ao lado de lá do rio, à veiga. No caso de hoje o regresso é até ao Bairro do Caneiro, por onde passaram muitos dos meus passos a caminho da escola primária do Professor Lareno.
 
Era no tempo em que o caminho da escola primária nos era mostrado no primeiro dia, na companhia do pai ou da mãe, e todos os restantes dias e anos eram por nossa conta e risco. Claro que estas contas e riscos eram bem medidos, pois sair fora da linha previamente traçada, dava direito às devidas repreensões e castigos caseiros, além de termos de privar de perto com uma menina redondinha de madeira, com cinco buraquinhos, guardada na gaveta do professor. Nunca cheguei a entender para que eram os cinco buraquinhos, mas que doíam, lá isso doíam. Privei de perto algumas vezes com ela…
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A minha linha ia desde a Casa Azul até à Escola e diga-se que nunca saí dela. Tomava às vezes caminhos alternativos, mas dentro do permitido. Um deles, passava por chegado à casa do Dr. Castro, virar pelo caminho em direcção ao rigueiro do Caneiro para levar a curta companhia de alguns colegas até à escola, principalmente a do meu parceiro de carteira, o Zé Borges, inventor e mais tarde músico, o qual já há muito tempo não vejo por estas paragens. No tempo ainda não existia o actual pontão, e atravessávamos o rigueiro por umas poldras mal amanhadas que mais não eram que pedras soltas que se mostrava acima da linha de água. De verão era mais fácil, mas de Inverno, com as chuvas, às vezes era mesmo impossível.
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Pois há poucos dias, a caminho de casa (mantenho a fidelidade de viver do lado de lá do rio) fui de súbito invadido pelas recordações de infância dos anos 60, e fiz uma breve passagem pelo miolo do Caneiro, inclusive até atravessei o rigueiro.
 
Excluindo duas ou três casas novas, tudo continua lá como nos meus tempos de infância. As pessoas já são outras, pois não reconheci ninguém e não são assim tantas, as hortas também, embora não sejam cultivadas e a maioria das casas também ainda existem, mas metades estão abandonadas e em ruínas.
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Ao entrar no bairro do Caneiro, fez-me lembrar os bairros antigos da cidade, em que cada bairro era como uma aldeia dentro da cidade. Os putos brincavam na rua e havia sempre muitos para brincar e o mais curioso é que, tirando o peão o espeto ou os cromos da bola para os rapazes e os elásticos para as raparigas, não havia brinquedos, e se os havia, eram fabricados e imaginados por nos.  Mas com ou sem brinquedos, éramos felizes na nossa rua.
 
O Caneiro, talvez seja dos velhos bairros da cidade, aquele que ainda mantém alguma identidade do bairro antigo, com pessoas e a passarada na Rua, estendal à porta de casa e só faltam mesmo os putos a brincar na rua. Todos os outros velhos bairros que viviam à volta do “centro social, recreativo e cooperativo” na altura conhecido por tabernas, deram lugar a edifícios ou a novas moradias protegidas por altas sebes e muros.
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Perdeu-se o espírito de bairro dos velhos bairros como o meu bairro da Casa Azul, o do Campo da Fonte, o do Stº Amaro, o de S,Roque, dos Codeçais, do Campo da Roda e embora ainda existam algumas das velhas casas, estão desabitadas, em ruínas e sem putos na Rua.
 
O Caneiro é quase uma excepção, pelo menos no seu miolo, não fosse estar entalado entre duas bombas de gasolina, os 4 grandes edifícios de betão, a grande superfície comercial as hortas desertas, e o Caneiro mantinha a sua originalidade dos anos 60.
 
Claro que a evolução, dada a sua proximidade da cidade, seria mesmo a do aparecimento de novas construções e só não cresceu mais porque estamos a falar de um bairro da veiga, mas mesmo assim, às vezes ainda fico surpreendido como é que o Caneiro ainda mantém as suas velhas casas.
 
Claro que falta a imagem das antigas hortas bem tratadas, povoadas de verde, o caminho das poldras e as próprias poldras (do Tâmega) já há muitos anos que não são atravessadas como era habitual, mas ainda se vai mantendo um pequeno espírito de bairro, nem que seja e só no decorar do pontão com lampiões e vasos que se enchem de vida nas primaveras. Tudo o resto, as hortas, as velhas casas em ruínas e o rigueiro entre o pontão e o Tâmega, são a cidade triste dotada ao abandono, esquecida por todos e sem ninguém que as cuide. Dá uma maravilhosa imagem para quem entra na cidade pela ponte Nova.
 
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Um abraço para os sobreviventes do velho bairro do Caneiro do qual guardo muitas e boas recordações nas minhas passagens para a escola do Professor Lareno. Um abraço também para todos os antigos putos da nossa escola dos anos 60 e de repente veio-me à memória também o saudoso e belíssimo parque infantil do Jardim Público com guarda à porta, as avelãs do rigueiro a língua grossa com que ficávamos quando desviávamos os diospiros das Freiras e o respeito que metiam os Agentes Andrade e Ribeiro (mais um gordito que não recordo o nome) Polícias de Viação montados nas suas “brutas” motos.
 
Às vezes gosto de fazer estes regressos às origens e esquecer as crispações da cidade, das gentes da cidade e dos moços de recados actuais. Faz-nos bem regressar a pureza das recordações de infância.
 
Até amanhã, de novo na cidade.

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