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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade

01.02.08 | Fer.Ribeiro

 

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Um labirinto
 
texto de José Carlos Barros
 
 
A memória que conservo de Chaves é a de um remoinho, um vórtice, um labirinto que percorri sem levar o fio de Ariadne. Ainda lá estou, portanto, perdido nesse dédalo imenso, nesse espaço de transgressão e descoberta do mundo. Mas não havia Minotauro. O Minotauro devia ter morrido há muito ou estaria desempregado ou com mais que fazer do que impedir a descoberta da árvore dos segredos. Ou talvez houvesse Minotauro, já nem sei, e tivéssemos ambos bebido jeropiga num fim de tarde, no Inverno, já quase noite, depostas as armas respectivas à espera da camioneta da carreira numa taberna escusa cujas paredes foram entretanto derruídas para que não permanecessem sinais alguns dum tempo dividido entre a lentidão e a vertigem, a contrição e o êxtase, a rede e o trapézio.
 
Não sei muito bem como era nesse tempo a cidade de Chaves. Não recordo. Não sei muito bem se havia florzinhas coloridas nos taludes da muralha, como eram as margens do rio antes do espelho das águas, como eram as árvores do Largo das Freiras, o antigo quartel dos Bombeiros, o jardim do Bacalhau, os campos agrícolas a caminho dos Aregos, as tendas da Feira dos Santos. Não sei muito bem como era nesse tempo a cidade de Chaves – do mesmo modo que ninguém sabe descrever um vulcão quando se encontra no meio da lava ainda incandescente.
 
A cidade de Chaves pertenceu-me entre os quinze e os dezoito anos. Ou seja: durante pouco mais que um dia ou um mês, durante um instante breve ou o tempo todo do mundo. E a cidade, por esse tempo, era o odor carregado a fuligem e a gasóleo queimado da estação da Auto-Viação do Tâmega, a Romana e uma árvore do Tabolado, a sala dezanove e o balcão de madeira do Faustino, uma minúscula sala-de-estar cheia de livros, o laranja de um quadro do Nadir e a pequeníssima varanda da rua de Santo António, um rosto, um corpo, o amor, uma camisola de lã, um perfume, o futebol, o fio de pesca, uma dança no ginásio do Liceu, os suplementos dos jornais locais, o Jardim Público nos fins de tarde de Novembro, o vinho, a cerveja, a água das Caldas Santas, os poemas fotocopiados, as edições de autor, o riso, as ruas, as tabernas, as esplanadas. E, sobretudo, a descoberta da amizade como bem insubstituível e imperecível.
 
Era isso, nesse tempo, a cidade de Chaves. Um remoinho, um vórtice, um labirinto onde passeei com o Minotauro de mãos dadas.
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