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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Carregal - Chaves - Portugal

04.02.08 | Fer.Ribeiro

 

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No último post disse que esta publicação talvez demorasse um bocadinho. Não pensei que fosse tanto, mas cá estou. Assim e embora hoje seja Segunda-Feira, este post é o que deveria ter sido publicado ontem, Domingo e dedicado a uma aldeia. Fora de tempo, mas cá está ele e dedicado a mais uma aldeia, O Carregal
 
Carregal é uma das sete aldeias da freguesia de Santa Leocádia. Desenvolve-se junto à E.N. 314, pouco antes de esta entrar no concelho de Valpaços.
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Se muitas vezes se fala aqui nas aldeias da montanha, Carregal e toda a freguesia de Stª Leocádia são o exemplo típico dessas mesmas aldeias, que se desenvolvem todas elas bem lá no cimo do Brunheiro, entre encostas e também planato. Todas elas próximas dos 900 metros de altura, conhecem o rigor do frio melhor que ninguém, pois são “brindados” sempre com os primeiros frios, os entretantos e os últimos. Aplica-se também aqui aquele ditado em que os anos se dividem em “Três meses de inferno e nove de inverno.
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E sobre o Carregal pouco mais sei, pois embora conheça a aldeia quase desde que existo, apenas a vou conhecendo de passagem e raramente parei, no entanto sei quem conhece o Carregal melhor que ninguém, e não só o conhece como conta muitas das suas estórias e das suas gentes, que reuniu em livro.
 
Um filho do alto planalto. Fiquemos então com uma das muitas estórias de um livro que a seguir daremos conta.
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PIOR A EMENDA QUE O SONETO
 
Uma Estória de Gil Santos
 
No Planalto do Brunheiro, monte sobranceiro à veiga de Chaves, nada medra que não seja centeio e batata. Terra verdadeiramente fria, é varrida pelos ventos gelados que se entalam entre o Larouco e a Padrela. Mesmo o pinheiro bravo tem dificuldade em crescer naquelas terras onde Deus nunca parece ter passado. De arvoredo, só o carvalho negral e o castanheiro encontram guarida e dão um verde triste àquela paisagem.
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Pelos Santos semeava-se o centeio que havia de se ceifar no estio. Por Março, a batata que se arrancava em Setembro. A actividade agrícola resumia-se quase exclusivamente a isto, não sei se por falta absoluta de condições para outras riquezas se por inflexibilidade cultural para outras oportunidades. Sei é que quase toda a vida se organizava em função do ritmo destes haveres.
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À volta do Carregal, na pujança da Primavera, a paisagem concentrava-se no verde viçoso das searas centeias e na cor térrea do solo lavrado, onde rompiam as primeiras folhitas das canibeques. Mesmo a passarada, por estas paragens, adiava quanto podia a tarefa da procriação, aguardando que os carvalhos ganhassem a folhagem necessária para esconder os ninhos, o que só acontecia por finais de Abril. Andar aos ninhos por esse tempo ou aos míscaros por Outubro eram os passatempos preferidos da rapaziada do lugar.
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A malta nova, que frequentava a escola de Adães, a cerca de três quilómetros que se venciam a pé, no regresso das aulas do professor Matos, não perdia a oportunidade de procurar uns ninhos de gaio, de melro ou de rola. O Nano, o Gripino, o Taleta, o Marcelino, o Adérito, o Tone Fisgas e eu próprio, competíamos na procura daquelas preciosidades, guardando o segredo o mais que podíamos.
 
Em Adães morava o Ti Temporão, padrinho do Tone. Este visitava-o uma única vez no ano, nas vésperas do seu aniversário. Fazia-o porque sabia que, invariavelmente, lhe cairia uma moedita de cinco escudos no bolso. Não falhava! Só que este ano choveram sete e quinhentos. Uma fortuna para o tempo. Porém, o senhor Zé Paranhos, pai do Tone, sabendo da franqueza do compadre, extorquia o metal ao miúdo para queimar em vinho na taberna do Antero.
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No regresso da escola e na confusão da brincadeira, o Tone nunca mais se lembrou do tesouro que transportava na algibeira. Pelo caminho, passando ao Belão, havia uma enorme leira de centeio do Ti Moreiras. Numa borda da seara um enorme castanheiro dava guarida, todos os anos, a um casal de gaios que aí plantava um repimpado ninho. Quase sempre os gaios desaninhavam sem que a rapaziada lhe chegasse. Isso andava a fazer uma comichão danada ao brio passareiro dos mais afoitos. Ora, nessa manhã, o Nano afirmou a pés juntos que viu o gaio com o cibo no bico a ir para o castanheiro. Por isso ditou a lei: temos que dar com o ninho!
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O castanheiro era frondoso, imenso, e para encontrar o dito cujo foi preciso pisar todo o centeio à sua volta. Foi mesmo necessário que alguns se rebolassem pelo chão para verem melhor por entre a folhagem densa. Com o ninho demos, mas o pior foi o que aconteceu depois. O centeio, à volta do castanheiro, ficou irrecuperável e os sete e quinhentos desapareceram do bolso do Tone. Procurámos, voltámos a procurar, e
 
das moedas de caravela nem o rasto! A solução encontrada foi a de cortar o centeio para ver se apareciam. Ceifou-se, mas nada!
 
Em frente do campo morava a Tia Maria Simoa que, fazendo jus ao seu estatuto de cusca, apreciou toda a obra.
 
Quando o Ti Moreiras deu com o estrago e se pôs em campo, logo a Tia Maria lhe segredou o nome dos autores. O Ti Moreiras foi ter com o pai do Tone Fisgas e, pondo-lhe a questão, obrigou-o a pagar os estragos. Foi acordada a importância de quinze escudos e com desconto uma vez que o neto do Ti Moreiras também estava envolvido.
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Coitado do Zé Paranhos! Nesse ano não só perdeu o direito ao presente de aniversário do rebento, como ainda teve de desembolsar o que não tinha para pagar as traquinices do pimpolho!
 
Em vez de matar a sede na tasca do Antero afagou-a num estadulho pelo lombo do Tone. Claro que não lhe deu o mesmo gozo que lhe daria o tintol! E ao Tone muito menos, pois passou uma semana de molho!
 
Coisas da vida!
 
E hoje pelo Carregal é tudo ou quase tudo.
 
Para compensar a demora deste post e na continuação do mesmo, vamos a um post extra e dar conta do tal livro, do seu autor e das estórias do planalto do Brunheiro.
 
Então, até já.

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