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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade

22.02.08 | Fer.Ribeiro


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Texto de Gil Santos

 

nega zé nega

 

O Tâmega, com uma extensão aproximada de 145 quilómetros, é um rio internacional secundário que nasce à altitude de 960 metros na serra de S. Mamede em Verin na província de Ourense  na comunidade autónoma da Galiza. Termina o seu curso desaguando em Entre-os-Rios no rio Douro. Ao longo do seu trajecto, atravessa duas cidades, Chaves e Amarante. Espreguiça-se desde Verin e até ao termo da cidade a que os romanos chamaram Aquae Flaviae, num vale resultante da uma falha tectónica responsável pelas ferventes águas das Caldas de Chaves. Por essa Veiga entrou Soult em 1809 com o seu exército na segunda invasão francesa, tomando a praça de Chaves ao Reino de Portugal. O terreno por ali era-lhe muito favorável servindo de alternativa ao plano original, frustrado, de travessia do rio Minho em Valença, por nesse Inverno, invulgarmente pluvioso, tornar o seu caudal demasiado grosso.


Sendo esta Veiga muito fértil, boa de trabalhar e dada a fartas colheitas, foi considerada desde há muito o celeiro da cidade. As margens baldias do rio, nas proximidades da urbe, sempre foram o lugar eleito para poiso de ciganos e outros vadios provindos da vizinha Espanha. Aí se instalavam por ser fácil fartar os jumentos e sempre dar para rapinar algumas hortaliças do renovo das muitas hortas que por ali havia para sustento da prole. Com um património cultural sui generis, estes gitanos eram gente pobre, que vivia do expediente no incessante nomadismo de terra em terra. A sua origem perde-se na penumbra dos tempos, por ausência de evidências escritas. Toda a gente os temia não só pela vida errante e obscura que levavam mas sobretudo por nada estar seguro perto deles. O adágio popular “um olho nu burro e outro no cigano”, resultará certamente desta convicção!?... Pela wikipédia fomos informados de que a origem indiana dos ciganos é hoje admitida por muitos estudiosos como a mais provável, com base na sua cultura. Esta gente cigana, cujo verdadeiro nome é Rhom para a maioria dos grupos e Sinto para os demais, é designada vulgarmente por gitana, ou até mesmo zíngara consoante o sítio e a cultura específica de quem a classifica. Hoje espalha-se por quase todo o mundo e não se misturando com a população paisana constitui uma minoria étnica marginalizada, à força de preconceitos etnocêntricos o mais das vezes exagerados.

Ora num belo dia de Primavera, pelo final da tarde, à Galinheira, um sítio nas margens do Tâmega, chegou a família Gimenes. Eram mais do que as mães como é vulgar dizer-se. O patriarca, era um gitano ancião de longas barbas brancas. Vestia inteiramente de preto usando um chapéu que deixava cair sobre os ombros e as costas ligeiramente curvadas por uma malota pouco proeminente, uma melenas brancas, surradas. De tão magro o velho Gimenes parecia tísico. Comandava um exército de gente. Só carroças eram umas vinte. Mulheres, crianças e cães faziam tamanha algazarra que nem a cidade, a meio quilómetro lhe era indiferente.


− Ai rapazes chegou a fim do mundo! Fitchaide as portas que eles estão aí! − Anunciava o cubano em desespero pela cidade.


E a verdade é que estavam. Nada acautelado ou desacautelado lhes escapava e para o tempo em que as portas das casas nem de noite se fechavam era um verdadeiro martírio. A bem dizer não o era para todos porque alguns farsolas com menos escrúpulos, passeando-se sorrateiramente pelas proximidades do acampamento sempre conseguiam, a troco de uma moeditas, conquistar as ciganitas para uma cama de feno. O pior era se algum dos mais velhos topasse. Das duas uma: ou permitiam a aventura e esvaziavam o aventureiro dos seus teres ou se não lhes chaldrasse encetavam-lhes o lombo com uma vara de marmeleiro e nem o cheiro do feno o deixavam provar. Não sei se para contrariar este hábito ou não mas ao Chico Peixinho aconteceu pior. O marlante, na casa dos dezoito anos, logo que soube da chegada dos zíngaros não perdeu tempo, rondou o acampamento e convenceu uma ciganita reboluda a assinar o contrato no fofo da erva seca! A menina de uns bem nutridos dezassete anos e longos cabelos negros, iludida pelos trocos prometidos seguiu-o até a um lameiro guardado pelo S. Brás para feno e que serviria para os esconder do pecado. A um rapazote que por ali fartava um jumento, o desusado movimento não passou despercebido. Logo que percebeu a marosca correu ao acampamento cigano e chamou dois dos seus. Dirigiram-se a uma touça de giesta branca de onde poderiam observar os pombinhos já preparados para o enleio. Chegados e espreitando por entre as fronças das giestas reparavam que a caneta do Chico se encontrava já pronta para prostrar a respectiva assinatura no acordo. Antes que o selassem saltaram em algazarra tamanha sobre os contraentes que estes apavorados ficaram tralhados sem pinga de sangue. À moçoila, um deles pregou tamanha solha no focinho, que a deixou a espirrar sangue por quanto poros aí tinha. Ao Chico foi apertado o gasganete até que se esvaziasse de tudo o que tinha. Como eram demasiado parcos os haveres do guloso, os gitanos não estiveram com meias medidas, despiram-no até ao pescoço e com dois pontapés no estojo da dita caneta puseram-no ao fresco. Ora como passava pouco das quatro da tarde e ainda faltava um bom para de horas para que a noite encobrisse as vergonhas do Peixinho, permitindo que chegasse a casa sem mais desgraças, escondeu-se entre o colmo alto de um centeio verde que por ali havia até que a noite caísse. Quando anoiteceu e esperando pela hora da ceia em que naturalmente andaria menos gente nas ruas, lá se decidiu o Chico a ir para casa. Colado às sombras da noite seguiu até ao Forte de S. Neutel. Daí e até ao Monumento dos Combatentes não houve novidades. Como morava na Rua do Postigo tinha de atravessar a parte mais difícil pelo Terreiro de Cavalaria até às Portas do Anjo. Daí tomaria pela Rua do Sal as traseiras da Câmara até ao Largo de Camões. Se conseguisse chegar à igreja de Santa Maria Maior sem ser visto estaria safo. Até ao Largo de Camões a coisa desenrolou-se sem novidades. Corria Maio, o mês de Maria, na Igreja Matriz finalizava-se a reza do terço. No exacto momento em que o Chico passava na frente da templo saiam dela os devotos. Escusado será contar o resto!.. Os pecados, expiados pelo santo sacrifício, foram repostos de imediato através de impropérios de toda a espécie. A sorte do Peixinho é que o breu das ruas sem iluminação pública e a destreza das suas pernas colocaram-no a salvo antes mesmo que fosse possível reconhecê-lo. O episódio serviu-lhe de lição pois doravante nem nos dias de maior canícula foi capaz de ir até à Galinheira refrescar o pente nas águas límpidas e frescas do Tâmega.

 

Comer por comer, com o objectivo único de sobreviver é uma característica que não distingue o bicho homem do animal do mato. Porém, o bicho homem pressionado pela necessidade imperiosa de uma vida em sociedade tem de o aprender. É precisamente a capacidade de aprendizagem que distingue a cultura da herança biológica e o homem, cigano ou paisano, é forçado a integrar as regras sociais que enformem os seus comportamentos. Assim, ingerir alimento para sobreviver é um acto puramente biológico, alimentar-se de acordo com um horário fixo, determinado tipo de alimentos, usando utensílios e rituais próprios já é um acto social que se aprende de acordo com o grupo a que se pertence e é por isso um acto cultural.


É claro que, apesar de aparentemente a comunidade cigana parecer ausente de cultura própria, também ela a integra submetendo-se aos seus elementos materiais e espirituais próprios ao serviço imperioso de uma coesão social que permita a reprodução dos valores, das crenças das normas e dos comportamentos de modo a garantir a sobrevivência e a distingui-la como cigana. Esta comunidade, portadora de uma cultura que tão bem a caracteriza, no que respeita à gastronomia e aos hábitos alimentares, valoriza determinados costumes que muitas vezes chegam até a chocar-nos. Alguns dos mais bizarros, explicados pela pobreza, respeitam à necessidade de aproveitar todas as oportunidade que o meio lhe oferece.


O Ti Santiago Catrapisca, assim chamado por padecer de um tique que consistia em piscar insistentemente os olhos, morava no Campo da Fonte. Tinha numa das leiras à Galinheira uma pocilga com dois requitos a cevar para o Natal. Numa manhã, quando lhes levava a lavadura para o mata-bicho, um deles tinha esticado o pernil, quiçá de colapso cardíaco. É claro que o bicho morto de morte morrida sem ser sangrado foi imediatamente desprezado pelo. O Ti Catrapisca abriu uma cova funda num dos cantos da campina e fez-lhe o funeral sem ofício. É claro que o acontecimento não passou despercebido à malta do acampamento. A morte cheirou-lhes. Deixaram anoitecer e vai de desenterrar o defunto. Carregado às costas até ao acampamento e pendurado no espeto, haveria de ser o prato principal e único da festança que se preparou em sua memória. O Ti Santiago percebeu bem a que se devia aquela algazarra porque entretanto deu com a cova do pobre defunto esventrada. Não se importou, ficou até contente por ter oportunidade de oferecer aquele manjar pelas alminhas que já lá tinha!...

 

Entre o Tâmega e um campo semeado de erva tenra e verdejante, ceifada aos remendos para os coelhos do Ti Zé Porto, havia um caminho de terra onde os ciganos fartavam os jumentos. Acompanhava um franzino gitano de meia idade um seu filhote que se distraia com uma linha de crina de cavalo pendurada na ponte de uma cana da índia. Num enferrujado anzol usava de isco um farrapito vermelho vivo. Pescava rãs para o jantar num charco estagnado que uma curva do rio fazia. O Ti Zé Porto acabava de ceifar um cesto de erva que carregaria às costas para um palheiro onde provavelmente estava a sua criação de láparos. Usava para a transportar um velho cesto de vime cortando a erva com uma seitoura contrabandeada de Espanha. Ora como um cesto não lhe bondou, deixou a dita seitoura no lugar do corte para ceifar outro. Não foi preciso mais nada, o cigano pai aproveitando a ausência do Ti Zé mandou o rapazote por ela e que a metesse no alforge que o burrito tinha sobre o lombo. Quando o Ti Zé regressou e se preparava para continuar o trabalho, da seitoura nem o cheiro. É claro que dando com os olhos no cigano que se preparava já para zarpar mailo burro, apressou-se a ir ter com ele, questionando-o sobre o desaparecimento da ferramenta. É evidente que invocando uma imensidão de juras à laia cigana negou peremptoriamente que a tivesse subtraído. Perante a insistência do lesado e para tornar mais credíveis essas juras virou-se para o rapaz que agora fingia pescar e perguntou:


- Oh Zei bistes a xiscamandisca deste senhor?!!!

- Está no bisaco mê pai!..

-Nega Zé nega!...


Perante isto o Ti Zé Porto ficou convencido que a dita cuja havia avoado para o reino da ciganada e não havendo mais nada a fazer deu meia volta e ofereceu-a pelas alminhas do purgatório!...


Que Deus tivesse delas compaixão e que a seitoura servisse para encher de felicidade aquela pobre gente!


Em Feces de Abaixo havia mais seitouras!...

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