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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade

07.03.08 | Fer.Ribeiro


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Eram outros tempos

 

um texto de José Carlos Barros

 

 

 

Chaves é uma cidade de província. Mas para os das Boticas, nesse tempo, Chaves era a metáfora do urbano que ficava mais à mão. Porto, Lisboa, andavam longe; não havia internet nem televisão por satélite: a camioneta da carreira saía do largo do Toural e avançava vagarosamente em direcção à cidade. A cidade era a cidade de Chaves.

 

Boticas, por sua vez, seria para as gentes do Barroso profundo (quer dizer: das alturas) o que Chaves era para os das Boticas: já lá avisava o padre de Beça que tivessem os seus paroquianos cuidado redobrado com os das Quintas – que das Quintas se avistava a Vila; querendo dizer na sua o bom do prior que dali se estava chegando perigosamente perto da licenciosidade e dos maus costumes.

 

Os das Boticas, para os do Barroso, eram os frutiqueiros: porque pela batata trocavam a uva e a maçã que levavam da veiga; para os das Boticas, por sua vez – e sem nenhumas segundas intenções – os de Chaves eram os paneleiros, pela razão prosaica e pragmática de que vendiam panelas nas feiras dos dez e dos vinte.

 

Mas até por aí se via o quanto menos era avançada e moderna a relação dos do Barroso com os das Boticas relativamente à destes com os de Chaves: os frutiqueiros trocavam produtos sem a intermediação da moeda, valendo uma cesta de boas uvas de mesa duas de batatas, e uma de maçãs uma e meia do tubérculo – não sendo maçã corrente, em que a troca se fazia ela por ela; já os paneleiros, nas mercâncias da feira, recusavam a troca directa e exigiam dinheiro vivo (não se lhes dando, imagina-se, que se passasse um cheque visado por um desses gerentes de conta nómadas que corriam aldeias ou certificado por carimbo de casa comercial com porta aberta).

 

Compreende-se que a iconografia da Vila se valha tanto das imagens de Chaves tão indispensáveis a suportar o rifão das noites compridas de neve ou sincelo…

 

Ele é a história das cadeiras e mesas do Aurora recolhidas numa tarde de Verão, às claras, como se fossem para arranjo de oficina especializada, e que ficaram anos e anos no Sumol do Guilhermino a testemunhar uma boa parte das narrativas do mundo. Ele é a história do amigo flaviense convidado para uma noite de copos na Vila, mas que avança com as mãos atrás das costas, mexendo-as em gestos sucessivos com as palmas viradas para dentro, chamando outros – sucedendo que surgia uma dúzia de marmanjos nas adegas quando não se tinha convidado mais que um único singular. Ele é a história dos de Chaves que comeram um reco na corda. Ele é a história do Manecas e do companheiro no dia em que, num restaurante da cidade com fama de servir copiosas doses, mamaram uma carroça de grelos – e não desarmaram até o patrão da casa lhes pedir desculpa mas que se acabara a provisão do legume. Ele são as girafas da Romana. Ele são as crónicas de gloriosas noites no cinema de Chaves, num tempo em que o cinema não era as mais das vezes que um pretexto para a pândega desatada: a história do Rique – quando entrou no cine-teatro e (já com as luzes apagadas e ele ainda indeciso à procura do lugar) amandou uma chuçada no pilha que vinha aos ésses a ver-lhe o bilhete e lhe pareceu a ele (Rique) uma bicicleta avançando perigosamente na linha da coxia em sua direcção Ou, finalmente, a história do Forte: era uma dessas películas de autor, dessa cinematografia do leste europeu a que os críticos davam cinco estrelas mas que se arrastava penosamente como se aos das Boticas lhes interessasse a estética do fotograma lento e madraço; acontece que o protagonista, chegando a casa mais cedo que o costume, batia à porta de casa, disciplinado, sem que ninguém lha franqueasse; ora sabia-se que a mulher dele, protagonista, trebelhava nesse preciso momento com um terceiro na cama enquanto o legítimo esposo, calmo, batia de novo; e foi então que o Forte não se teve que não dissesse, em voz alta, recebendo sincero e unânime aplauso de quantos viam que o filme já não tinha mais pernas que andar que não fosse o motejo da plateia: «bate mas é com os cornos, ó artolas…»

 

Eram outros tempos, já se sabe.

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