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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Triste tristeza de um centro histórico - Chaves - Portugal

12.03.08 | Fer.Ribeiro


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São 7 horas da noite em Chaves, engrossam os carros nas ruas, cruzam-se passos apressados, ouvem-se muitos até-amanhãs, aparece o carro da recolha de cartões e, em apenas 10 minutos que passam das 7 horas, a cidade cai ou mergulha num profundo e perturbante silêncio.

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Três dias por semana, por força da rotina dos meus afazeres familiares, assisto a este triste fechar da cidade. Disse triste e repito-o, pois todo o centro histórico da cidade fecha às 7 horas da tarde. Para além de um ou outro cão vadio, de um empregado ou patrão mais atrasado, do breve quebrar do silêncio pelo carro dos cartões, as ruas do Centro Histórico ficam entregues a si próprias e, já nem os gatos querem cruzar as ruas destas noites de fim de tarde. Não há gente, homens, mulheres e muito menos crianças para habitar as ruas da cidade à noite.

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Em nada falto à verdade se disser que a cidade há 20 ou 30 anos atrás era uma cidade com vida, alegre, com putos nas ruas, homens nas tabernas, gente nos cafés e muita conversa de rua e de porta, com janelas e portas abertas a deixar cruzar os raios de luz nas ruas, as telefonias a tocar, cães e gatos. Toda esta grande aldeia que era o Centro Histórico, tal como as aldeias da montanha, também perderam os seus filhos e à noite está deserta.

 

Eu sei que lá para o avançado da noite a cidade ganha de novo alguma vida enquanto se troca de poiso entre bares nocturnos. A juventude sempre foi irreverente e não se contenta com silêncios tão profundos e são eles (hoje) os gatos das ruas e das noites do centro histórico de Chaves.

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Coisas dos tempos modernos, da televisão, dos computadores, da Internet, da moda e do prazer do consumo dos concentrados e enlatados, do egoísmo, do viver noites fechadas em casa, em família em pequenos grupos de amigos. Coisas de uma cidade velha onde sem trinar guitarras a acompanhar um triste fado, trinam silêncios e desertos da sua velha alma. O centro histórico da cidade, à noite, apagou-se, é triste, feio e só não é escuro, porque os candeeiros insistem noite após noite e nada iluminar para além das ruas e fachadas das casas.

 

Um homem das cidades, Daniel Filipe, dizia que era urgente o amor. Pois hoje já não é o amor que é urgente, porque o amor até é egoísta. Hoje é urgente gente nas cidades, gente na rua, crianças, convívio e convívios, tabernas nas esquinas, tascas ao meio da rua, cafés com discussões, vizinhos, luz nas janelas, portas abertas, alegria, cantares ao desafio, porrada, lutas de ruas, cães sem trelas, gatos nos telhados, gatas nas ruas… é urgente o convívio, a amizade para além dos empregos, é urgente a vida no centro histórico da cidade, é urgente pensar e meditar sobre a cidade.

 

Ficam as fotos de um início de noite, de duas ou três ruas e largos da cidade, tomadas por aí entre as 7 e as 7 e meia da noite, num qualquer dia de uma noite em Chaves.

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Ó triste, triste tristeza das noites moribundas do Centro Histórico de Chaves. Claro que a modernidade é a culpada oficial desta tristeza, mas também seria bom que os culpados deste triste Centro Histórico “botassem” uns dedinhos a coçar a cabeça para dela tirarem algumas ideias, porque a cabeça também foi feita para pensar. E mais não digo, porque agora além da modernidade, o conformismo das gentes também é oficial…aliás eu até estive para aqui entretido a limpar o pó ao teclado enquanto uns devaneios pensantes me passavam pela cabeça…

 

Até amanhã, e de novo insisto que seja em Chaves, numa cidade que mesmo sem gatos nos telhados e gatas nas ruas, continua e continuará a ser a minha cidade, pois eu, que nada espero dela … também não desisto dela. Pois!  E mais uma vez tenho dito!

 

Até amanhã, por aí…

 

 

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