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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Adães - Chaves - Portugal

15.03.08 | Fer.Ribeiro


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Hoje vamos até Adães.

 

Adães fica a 17 quilómetros de Chaves e pertence à freguesia de Stª Leocádia, fica a Sul da cidade de Chaves, em plena montanha, com vistas para terras de Valpaços e penso que até para terras de Vila Pouca de Aguiar. O acesso à aldeia (a partir de Chaves) faz-se pela E.N. 314 ou estrada de Carrazedo (é assim que ela é conhecida), chegados ao Peto de Lagarelhos, vira-se à esquerda e depois é ir sempre em frente, mas às curvas, muitas curvas e estar com atenção às placas indicativas a partir de France. Depois é só virar à direita, porque curiosamente a partir de France, todas as aldeias do concelho viram à direita (política aparte). Se não apanhar o primeiro desvio para aldeia, não se preocupe, basta continuar até ao Carregal e, aí sim, obrigatoriamente vire à direita senão entra logo em terras de Valpaços.

 

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Pensei que hoje não ia falar do Peto de Lagarelhos, mas quer se queira, quer não, cada vez que vamos para as aldeias de montanha a Sul de Chaves temos que passar pelo Peto de Lagarelhos. Mas hoje é mesmo de Adães que por aqui se fala.

 

Pois Adães é mais uma das aldeias de montanha que segue todas as características da maioria das aldeias de montanha. Aldeia virada para a agricultura e pecuária, envelhecida, muita casa abandonada no seu núcleo, mas também como quase todas, uma aldeia com casario rural e tradicional interessante, algum senhorial e alguns atentados ou pecados cometidos nas reconstruções. Mas felizmente o contrário também se verifica, quer nas construções novas que saíram do núcleo e que nada o perturbam quer nas reconstruções que se fizeram ou estão a fazer com gosto, amor e carinho, com a dignificação do passado e dos seus antepassados. Uma delas dará origem a um post futuro neste blog, não só pelos antepassados a que a “casa” esta ligada, mas também pela recuperação exemplar a que está a ser submetida, com gosto, vontade, carinho e respeito. Sem dúvida que merece um realce neste blog, pois é um bom exemplo daquilo que ainda se pode fazer pelas nossas aldeias de montanha. Fica prometido que lá para o Verão, Adães estará aqui de novo, com mais um pouco da sua história.

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Por hoje é história possível de Adães, mas sempre temos como recurso uma estória de Gil Santos que, melhor que ninguém, conhece as estórias do planalto onde esta aldeia não é estranha a tais estórias.

 

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O PADRE SALGADO

 

Por entre as envergonhadas flores do tojo bravo coava-se um sol arrepiado de uma fria tarde de Março. O carvalho negral preparava os seus primeiros rebentos. Do chão, ainda curtido pelos gelos do Inverno, rompiam os primeiros fachos de erva tenra. O ar, apesar de gelado, respirava-se límpido. Os dias estavam a crescer e não tardava por aí o cuco a anunciar a metamorfose primaveril.

 

O Zé Pimpão era pastor. Fez-se à vida mal aguentou a sacola da merenda às costas. Teria uns cinco anos, não mais. Conhecia cada rês pelo seu nome. As touças não tinham segredos nem fronteiras. Na arte do pastoreio não havia pai. As cabras entendiam-no espantosamente. Deus me perdoe, mas até parece que o Pimpão foi cabra numa outra vida! O rebanho assemelhava-se a um exército às ordens de um implacável general! O Zé era fino como azougue, apesar de não conhecer uma letra do tamanho de um comboio. E que mal tinha isso? O monte nada disso exigia, nem as cabras! Não havia pai para o Pimpão nas artes da natureza!

 

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O rebanho do Zé Pimpão saía da corte aos primeiros raios da alva. Pastava embalado pelo tilintar das campainhas, nas encostas baldias do ermo. Tinha para lá de cem cabeças. E ainda crescia, uma vez que muitas cabras andavam prenhes e outras já acompanhadas por travessos cabritinhos. Um rebanho desta monta rapava tudo. Quando, por descuido, o Pimpão o deixava entrar nalguma leira de centeio lá tinha o troco: arcar com o prejuízo. Por vezes, permitia que pastasse nas bordas da estrada nacional, onde as valetas criavam a erva mais viçosa. Mas já sabia que corria o risco de uma multa pesada, aplicada pela Guarda do Vidago.

 

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Há dias chegou-lhe uma carta, pelo correio. Não se importou em saber o que dizia ou de onde vinha. Guardou-a no bornal. Importante era fartar as cabras, o resto podia esperar! Mais dia, menos dia, haveria de aparecer alguém que lha lesse!

 

O Padre Salgado, homem ilustre e letrado, pároco da freguesia de Santa Leocádia, há mais de vinte anos foi chamado, pelo seu homólogo da Póvoa de Agrações, para cantar o ofício a uma pessoa de posses que falecera. Saiu cedo no seu alazão. Tinha caminho para mais de quatro horas.

 

Cantou o ofício com mais sete abades. Almoçou uma caldeirada de cabrito como gostava. Pagou-se com uma nota de vinte mil réis. Regressou. Seriam umas quatro da tarde quando desceu calmamente um dos contrafortes do lado norte da Serra da Padrela. Passou na Doma e botou um caneco que a tia Brízida fez questão de lhe oferecer. O presunto recusou-o. Que vinha farto, que tinha apenas sede.

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Seguiu para Vale do Galo. Um dos lugares mais ermos e pobres da sua freguesia. Meia dúzia de casebres, alguns ainda colmeados, faziam lembrar uma qualquer terra esquecida por Deus. Ora, só o facto de o reitor passar por lá, o que era raro, já era um acontecimento. Os paroquianos, sabendo da notícia, fizeram questão de estar presentes à passagem do representante do Pai. Também eles queriam mostrar que, apesar da pobreza, tinham boa vontade e não o deixariam passar sem lhe molhar o gorgomilo!

 

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- Bote-nos a sua bênção, senhor padre Salgado!

 

- Deus vos abençoe, meus filhos. Então as batatas já estão semeadas? Olhai que está no tempo de as botar!...

 

- Está quase tudo. A porra é que este ano a estrangeira está muito cara. Mas o que se há-de fazer!... A filha não dá nada. Se não for a batata a encher a barriga dos nossos filhos, o que havia de ser de nós!...

 

- Tendes razão, meus filhos, mas Deus é pai!

 

- Bota um copito, senhor padre?

 

- Bem, já que teimais!... Botai pouco, botai pouco!

 

Apesar de puxar um cibito ao vinagre o padre não se fez rogado e nem deu parte de fraco. Não lhe passaria pela cabeça recusar. Seria uma grave ofensa para o seu rebanho. Tinha de fazer o sacrifício. Que fosse pelo perdão dos pecados, pensava enquanto se despedia.

 

Fez-se ao caminho para Adães. Ainda não tinha chegado a meio e já vinha o Zé Pimpão esbaforido ao seu encontro.

 

- Ó senhor padre Salgado, vossemecê sabe ler?

 

- Boa tarde! Então que se passa, rapaz, para nem dares as boas horas? Parece que viste lobo! Ele que há?!...

 

- O lobo não me assusta, tenho cagufo é da Guarda do Vidago que me prega cada estopada que até me troce. Os filhos da puta só conhecem os pobres! Olha que aos ricos não os fodem eles! Tenho aqui uma carta que deve ser mais uma talhada! Queria que o senhor padre fizesse o favor de ma ler.

 

- Deixa lá ver, Zé...

 

O padre, sem se apear do cavalo que aproveitava para remoer uns rebentos de tojo bravo, abriu calmamente o sobrescrito. Leu a carta para si sob o olhar expectante do pastor que não bulia nem tugia. Calmamente meteu a carta no envelope e, com o seu ar bonacheirão, virou-se para o pastor:

 

- Não te preocupes, rapaz! Desta vez, não tens de pagar nada. É da Câmara a lembrar-te que tens de vacinar os cabritos novos!...

 

O Zé respirou fundo como se o tivessem livrado dum fardo pesado.

 

- Porra, ainda bem! Pensei que fosse outra talhada! Muito obrigado, senhor padre. Beba uma pinga da minha lingureta!

 

- Não quero, rapaz. Não tenho sede, ainda agora bebi em Vale do Galo.

 

- Ó senhor padre Salgado, não me vai fazer a desfeita de não bober. O vinho é fraco, mas é de boa vontade!

 

- Bem sei moço, mas não tenho sede.

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OPimpão não perdeu tempo. Vendo que não pagava o favor com vinho, abriu as goelas entre as mãos em concha e clamou:

 

- Tchezinha!...

 

Demorou pouco até que estivesse ao seu lado uma cabra reluzente e viva. Tinha um úbere repleto que quase tocava no chão e que havia de esvaziar às turras de dois cabritinhos que a esperavam na corte.

 

Então não havia de pagar o favor ao reitor, pensava o Zé Pimpão!...

 

- Ó senhor padre Salgado, já que se está a fazer fidalgo ao vinho, ao menos mame aqui nesta cabra e não se faça burro!...

 

 

O padre, sem palavras, esporeou o cavalo e, perdido de riso, fez-se à residência paroquial a galope onde havia de partilhar a história com a governanta que já o esperava com a ceia pronta!  

 

In “Ecos do Planalto” – Estórias,  Gil Santos, Edições Ecopy, Porto, 2007

 

E por hoje é tudo. Amanhã cá estamos de novo com mais uma aldeia de Chaves.

 

Até amanhã!

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