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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Vila Verde da Raia - Chaves - Portugal

16.03.08 | Fer.Ribeiro


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Em Vila Verde da Raia, no dia tantos e tal, passava a pulo a fronteira… Era assim que começava uma canção inserida em peça de teatro que há coisa de trinta anos vi representada em Vila Real. Penso que seria de autoria de Pires Cabral e do que recordo, para além das primeiras palavras da canção e da sua música, contava as façanhas de alguém que “pulou” clandestinamente a fronteira de Vila Verde com destino a França.

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Sem dúvida alguma que Vila Verde da Raia tem muito significado nas estórias da emigração clandestina. Foi ponto de partida para muitas aventuras e é também um ponto de referência na chegada a terras lusas, quando depois de uma longa viagem pisão solo da terrinha, mesmo que esta ainda esteja a centenas de quilómetros.

 

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Para além de ter em si o nome de Raia, Vila Verde desde sempre esteve ligado a ela, quer oficialmente quer clandestinamente. Oficialmente porque Vila Verde tinha uma das poucas fronteiras oficiais terrestres de entrada e saída do país, com alfândega e Guarda-fiscal até a abertura das fronteiras, bem como um posto da PIDE até ao 25 de Abril de 1974. Clandestinamente, porque graças à geografia do terreno e às vias de comunicação, também era pela raia de Vila Verde que se fizeram muitos dos atravessamentos clandestinos dos nossos emigrantes. Clandestina, porque sempre foi terra de contrabando e das rotas do contrabando. Não fugirei à verdade se disser que todas as famílias de Vila Verde da Raia estiveram ligadas a estórias de contrabando, quer de um lado como contrabandistas, quer do outro, como autoridades. Mas tudo isto são estórias do passado e de tempos bem mais difíceis que os de hoje. Para o bem e para o nosso mal, hoje não há fronteira em Vila Verde da Raia.

 

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E já que andamos pelo passado de Vila Verde, regressemos a esse mesmo passado em que a aldeia, ou mais propriamente o Açude, estava intimamente ligado às férias, ao verão, ao lazer e à praia. Estávamos no tempo em que fazer férias nas praias de mar era um luxo só para alguns.

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Desde cedo que o Açude passou a ser a praia fluvial do vale de Chaves. Centenas de pessoas povoavam o pequeno areal, os lameiros e as sombras dos amieiros. Pela certa que não há flaviense das gerações de 60 e 70 que não tivesse passado bons momentos do e no açude. De bicicleta, de motorizada, de carreira ou à boleia, nos verões quentes todos os caminhos iam dar ao açude. Após o 25 de Abril de 74 a população veraneia do açude cresceu consideravelmente com a juventude que veio das ex-colónias que, para além da praia, aproveitavam para dar um pulo ao outro lado e matar saudades de uma Coca-Cola ou para comprar umas calças de ganga Lois. Coisa que poderá parecer estranha aos olhos dos putos de hoje, mas que os de mais idade recordam bem que gangas e Coca-Cola, só mesmo em meados dos anos 70 é que entraram em Portugal. Um aparte e uma curiosidade, pois nós flavienses, graças a Vila Verde e ao açude lá fomos vestindo as primeiras calças de ganga Lois e bebendo umas Coca-Colas,  enquanto o resto do país só lhe conhecia o nome, ou nem isso.

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Mas tal como a fronteira, também a praia fluvial do açude já é de outros tempos. Há uns anos atrás ainda por lá se fez um parque de lazer, com churrasqueiras, mesas, parque infantil e instalações sanitárias. Dotou-se o açude com algumas condições que nunca teve quando centenas de pessoas povoavam o local e fizeram falta e que, também aqui, aconteceu um fenómeno idêntico ao das aldeias de montanha que não tinham água canalizada, electricidade e asfalto nos caminhos, ou seja, quando as infra-estruturas lá chegaram, já pouca gente havia para as usufruir. Ficaram no entanto muitos e bons momentos passados no açude e que ainda hoje se recordam com saudade.

 

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Mas vamos até Vila Verde da Raia, aldeia e freguesia. Com uma área de 9,54m2 e a uma altitude aproximada de 400m (cota da veiga de Chaves e Verin), é banhada pelo rio Tâmega (limite de freguesia) e por um seu afluente, a Ribeira de Arcossó. Segundo o Censos 2001 a sua população residente era de 855 pessoas, 298 famílias e 437 edifícios. Curiosamente, Vila Verde da Raia embora ano após ano se veja crescer em construções novas, novos bairros e atraia alguma população sem origens na aldeia, relativamente aos Censos de 1981, corrigidos em 1989, perdeu quase 140 habitantes, pois nesse censos tinha 995 pessoas residentes. Aqui a descida de população (embora pouca) não se deve tanto ao fenómeno de desertificação da maioria das aldeias, mas talvez à baixa da taxa de natalidade, porque Vila Verde da Raia está longe de ser uma aldeia desertificada, antes pelo contrário.

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É uma aldeia que mantém o seu núcleo ainda habitado e reconstruído mas com as inevitáveis casas abandonadas e em ruínas, embora poucas. Vila Verde de hoje perde-se ao longo da Estrada Nacional e ao longo dos caminhos em direcção à serra e à Atalaia. A veiga mantém-se fértil e bem tratada, irrigada e até com os seus caminhos asfaltados, no entanto não é à agricultura que se dedica a maioria da sua população, ou melhor, embora quase todos se dediquem à agricultura, não é a sua principal ocupação, pois o ganha pão da maioria encontram-no na cidade, que embora fique a 10 quilómetros da aldeia, fica mesmo ao lado a apenas três rectas de estrada e uns minutos de carro. Pondo de fora os trabalhos da cidade e a agricultura e também graças aos bons acessos e localização geográfica, há ainda a considerar nas actividades da aldeia e freguesia, o comércio e a indústria, com as suas conhecidas e grandes “casas” de moveis, a indústria da transformação do granito, da panificação (esta de há longo tempo) e outras pequenas “casas” de comércio e até serviços, onde se inclui o Posto dos Correios, para além de muitos cafés, restaurantes e até discotecas e outras casas de diversão.

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Assim, e quem não conhecer Vila Verde da Raia, não pense que é uma aldeia qualquer, pois embora tenha a sua dose de ruralidade, a aldeia pelo que tem e oferece, além de o ter no nome, embora oficialmente não o seja, é uma autêntica pequena Vila.


Também é uma aldeia com alguma riqueza histórica, possuindo vestígios de ter povoamento muito antigo, como sejam achados (uma pedra) com uma inscultura de bucrâneo, elemento associado à cultura egípcia do culto ao deus Serapis, entre outros achados da mesma época.

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Possui algumas casas senhoriais rurais e a Igreja paroquial, cuja padroeira é a Senhora das Neves, imagem de roca. A servir de pia de água benta tem uma ara romana.


A capelinha do Senhor dos Milagres ficou na história porque foi no seu sino que os couceiristas tocaram a rebate no dia 8 de Julho de 1912, no combate travado entre monárquicos e republicanos.


Tem um belo chafariz construído em 1894 e um artístico cruzeiro dedicado ao Senhor dos Milagres.

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A população mostra grande interesse pelas actividades desportivas e culturais e, para as satisfazer, possui o Centro de Cultura e Desporto e a Associação Desportiva e Cultural que se dedicam essencialmente a promover o futebol e, ainda a Banda Musical de Vila Verde da Raia, de muita fama e popularidade, tal como a festa da aldeia no primeiro Domingo de Setembro, em honra do Senhor dos Milagres, que todos os anos apresenta um espectacular fogo de artifício, sempre rival do que dias depois, em 8 de Setembro, se lança do outro lado do rio. Realizam ainda todos os anos a 5 de Agosto a festa em honra da padroeira Nossa Senhora das Neves.

 

Claro que a Vila Verde não podia faltar o seu espaço na Net. Já o anunciamos em tempos e até tem link na barra lateral deste blog na secção das aldeias de Chaves, mas também fica aqui: Vila Verde da Raia o link directo para o seu sítio e para mais informações sobre a aldeia e freguesia.


Só resta mesmo agradecer a hospitalidade dos amigos que por lá temos e que nos brindam sempre com as dietas genuínas da aldeia (linguiça, salpicão, presunto, pão e vinho – tudo caseiro e bom).


Pela minha parte amanhã cá estaremos de novo, de regresso à cidade de Chaves.