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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade

11.04.08 | Fer.Ribeiro


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Não me toquem nos pasteis de Chaves

 

Poema de José Carlos Barros

http://casa-de-cacela.blogspot.com

 


Um ex-amigo meu dizia-me «que raio de cidade

que tem nos pasteis e em trajano

os seus maiores símbolos»?

Estamos, quanto a trajano, conversados: nasceu

por cercanias de sevilha

com o currículo genealógico que se sabe, lutou com

imensa glória e nunca visto poderio de

armas contra os coitados dos dácios, e a tanta

riqueza dos saques e vilanagem serviu

na sede do império além das pulseiras abundantes

de ouro para as jovens e belíssimas romanas

a boa arquitectura e muita obra pública a esmo e

em chaves enfim a ponte romana que

vai da madalena ao arrabalde

para constar dos brasões e dar o nome do

propriamente dito imperador a uma pensão do meu tempo

em que uma vez a noite

toda não dormi. Dou de barato, pois, apesar

de tudo, o símbolo. Agora

não me toquem nos pasteis de chaves.

Destruam-me a reputação e a biografia, mas

não me toquem nos pasteis de chaves.

A fernanda do arsénio bem sabe

quando chego do sul a correr

o que lhe peço vindo de súbito

para a mesa a imperial: um pastel de carne.

E ela bem sabe a tristeza de recentemente saber que

a princesa deixou de remeter

os ditos à vila: as finíssimas películas de massa

folhada desfazendo-se num estalido

ao toque mínimo. E que dizer

dessa arte de juntar a água à exacta temperatura (nem muito

fria nem muito quente) à farinha

amassada com os ovos? E que dizer da massa (finíssima

sempre) que depois se estende com o rolo

num rectângulo? E que dizer das quatro

indispensáveis operações

de meter a manteiga barrada e enrolar

e estender de novo na tábua? E da precisão

dos cortes, que dizer? E das

recheadas rodelas de carne picada

dobradas a meio

e do modo como a pressão é exercida

evitando tocar nas pontas

sobre essa parte específica? E do jeito como vai

ao forno? Que dizer da arte sublime de ver depois

nos tabuleiros o pastel de chaves?

Quantas cidades davam por tanto

menos serem assim no mundo reconhecidas

por quem ama

a sua cidade?

Tirem-me tudo. Rasurem a precária biografia

dos meus anos e vilipendiem trajano

e o império. Mas

não me toquem nos pasteis de chaves.

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