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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Portela das Três Vilas - Vila de Baixo - Chaves - Portugal

12.04.08 | Fer.Ribeiro


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Portela das três Vilas

 

Hoje vamos até à Vila de Baixo das três Portelas, que é como quem diz, vamos até às Assureiras de Baixo.

 

Como sempre a literatura sobre as nossas aldeias é escassa ou nula e se a há, está dispersa. Assim, temos que entrar aldeia adentro e ir perguntado o que a aldeia tem ou não tem, do que vive, quantos são, o que de interessante tem para oferecer, etc.

 

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Hoje iniciei precisamente o post com o nome de Portela das três Vilas em vez de Assureiras e, fi-lo propositadamente, pois foi uma das coisas que por lá aprendi, ou seja, quando tentei compreender os limites das três Assureiras, lá me foram explicando,  mas terminaram dizendo-me: - Isso é agora, pois na escola ensinaram-me que eram as Três Vilas, a Vila de Baixo, a do Meio e a de Cima.

 

Na realidade e consultando a cartografia do exército mais antiga (1954) e mais recente (1995) e também toda a cartografia actual, não há consenso quanto às Assureiras, pois numas cartas apenas aparecem Assureiras (sem baixo, meio ou cima), noutras, apenas aparecem as Assureiras do Meio e numa delas até aparece Porto de Assureiras. Consensual (em todas) só mesmo o lugar da Portela das Três Vilas que, estas sim,  aparecem em todas as cartas militares.

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É apenas um pormenor curioso das Três Portelas ou das Três Assureiras, pois oficialmente na divisão politico-geográfica do concelho, apenas existe a aldeia das Assureiras, como pertença da fregueisia de Águas Frias. A Portela das Três Vilas só existe no mapa e na memória dos mais velhos que as aprenderam na escola primária e por último, as Assureiras de Baixo, do Meio e de Cima, que são as que existem na realidade, são reconhecidas pelos respectivos populares e até estão assinaladas na placas de trânsito da Estrada Nacional, realidade que parece ser bem conhecida pelas Estradas de Portugal, pois até já teve o cuidado de substituir o sinal de perigo das tradicionais criancinhas a correr para a (ou) da escola, por dois velhinhos, já vergados pela idade e apoiados numa bengala. Aliás, na maioria das nossas aldeias,  todos os sinais das criancinhas,  deveriam ser retirados e substituídos pelos do casal de velhinhos, uma vez que a grande maioria das escolas fecharam ou vão fechar ainda e nas nossas aldeias apenas restam os tais casais de velhinhos. É uma triste realidade da qual tenho dado por aqui conta e que é conhecida por todos e ignorada por muitos, principalmente por quem tem responsabilidades na matéria e nada faz contra o desertificar das nossas aldeias e do nosso interior. É tudo, ao que parece, uma questão de moda e modernidade de tudo concentrar em grandes centros, com as pessoas nas grandes cidades, o turismo no Algarve e na Madeira, o comércio nas grandes superfícies, o dinheiro nos bancos, etc, coisa e tal… e viva a modernidade, que é porreira, pá. As tradições, a identidade (singular) de um povo, a genuinidade, são coisas que não interessam e são apenas pertença de um povo atrasado e ignorante que nada tem a ver com a modernidade, que graças aos filhos que esse mesmo povo criou, educou e estudou (sabe-se lá com que sacrifícios) e agora o condena, assim, a uma espécie em vias de extinção.

 

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Quando chego a uma aldeia, costumo perguntar onde está o povo daquela terra e todas me respondem que antigamente havia muita gente, mas partiram todos e só ficaram os velhos, mas, dizem-me sempre: - Venha cá em Agosto e vai ver como estas ruas se enchem de gente. Eis a prova, provada e conhecida por todos nós, de que quem parte leva sempre a terrinha no coração e só partiu, porque foi obrigado e, as suas aldeias nada lhe ofereceram para que nela possam constituir a sua família e dar-lhes alguma dignidade, porque as (novas) oportunidades, estão todas nas cidades (nas grandes).

 

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O engraçado disto tudo é que os boys responsáveis por esta situação estão atentos e, a questão da cultura e educação do nosso povo já a começaram a resolver com  “as novas oportunidades” (pelo menos em números para a CEE) e não vai tardar nada e toda a gente vai ter pelo menos o 12º ano. Quanto à resolução de fundo do problema da desertificação do interior, também não podemos dizer que não estão atentos, pelo menos a julgar pelos projectos megalómanos que têm em agenda, como o TGV, a nova ponte de Lisboa e o novo Aeroporto Internacional de Lisboa. Tudo aponta para que dentro de uma dezena de anos, com a gente que vai vir de TGV ou de avião para o novo aeroporto, basta-lhe atravessar a nova ponte e termos o problema do interior resolvido, ou quase, só falta mesmo mandarem a ASAE actuar e entrar nas aldeias, com as suas “campanhas de sensibilização”, pois não tarda nada e o pouco presunto de Chaves que ainda há, não poderá ser produzido se o reco a “cebar” não tiver água canalizada e casa de banho privativa, para além (claro) de não poder comer directamente da gamela nem as suas refeições serem preparadas sem luvas… lá chegaremos.

 

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Desculpas, mil desculpas mesmo para as Assureiras de Baixo da qual me aproveitei para deixar por aqui alguns dos meus lamentos.

 

Pois vamos lá às Assureiras de Baixo ou se preferirem até à Vila de baixo das Três Portelas, que embora não se enquadre totalmente nas aldeias desertificadas pelos bons acessos que tem até à cidade, onde a maioria da sua população mais jovem trabalha, também é habitada nos seus dias pelos mais idosos e reformados que lá vão cuidado dos campos como podem, mas mais por distracção ou para consumo próprio. Jovens agricultores, um ou dois a tempo inteiro, lá se vão aventurando com algum gado, vacas e ovelhas, para além de outras culturas.

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Assureiras de Baixo, pertencem à freguesia de Águas Frias, ficam a 10 quilómetros de Chaves e acomodam-se do lado direito da Estrada Nacional 103, como quem vai de Chaves para Vinhais. Agrícola por excelência, nela se produz boa batata, algum centeio, vinho bom sem ser muito encorpado e cereja, esta última pegou na moda dos últimos anos por aquelas terras. No entanto a sua maior riqueza talvez seja mesmo aquela que guardam nas adegas frescas e secas, o presunto, do genuíno presunto de Chaves, mas que não é para todas as bocas. Pois enquanto lá para baixo vão comendo o presunto de Chaves made in spain, aqui o povinho ainda come do bom e muito bem, pois cada um come aquilo que merece.


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Presunto de Chaves

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Pessoas, nestas Assureiras, são à volta de 60, escola não há, mas em todas as Assureiras ainda se conta 8 crianças em idade escolar que são repartidas pelas escolas de Chaves e Águas Frias.

 

Festa, já festejaram o Stº Amaro a 15 de Janeiro, agora só já há gente e dinheiro para a missa que se vai rezando na data.

 

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E quanto à história da aldeia o que temos!? Talvez alguma coisa ou pouca coisa, depende dos entendidos, pois se há quem defenda que por aqui passou uma das seis vias romanas que partiam ou passavam por Chaves, como a importante via militar de Bracara Augusta a Asturica Augusta, outros há que contestam. Eu nisso, não me meto.

 

Quanto ao topónimo e pondo de parte a questão da Portela das Três Vilas, o Padre João Vaz de Amorim, referem que o nome Assureiras provém de Azoreiras, topónimo que alguns documentos de Oviedo do Século VIII, IX e X, empregam para designar matas, montes ou devesas, destinadas essencialmente para a produção de lenhas.

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E pelas Assureiras de Baixo ou Vila da Portela de Baixo,  vai sendo tudo. Fica a promessa que também passaremos pela Vila do Meio e pela Vila de Cima.

 

Resta agradecer a simpatia com que fomos recebidos e o “copo” que numa tarde quente de primavera,  pode-se dizer que caiu que nem ginjas, para fazer jus a terra de cereja.

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