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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade - A Fuga do Neves, por Gil Santos

02.05.08 | Fer.Ribeiro


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a fuga do neves

 

Texto de Gil Santos

 

Neves, o Passador, era um homem atarracado e maciço. Torto como um arrocho nasceu nas terras de Montenegro e passou a maior parte da vida escondido nas sombras da noite. Fugia de tudo: das mulheres, do trabalho e da PIDE. Dedicava-se a uma actividade bastante lucrativa nos anos 50 a de Passador. Este trabalho consistia na recolha de homens para os lados da Terra Quente que quisessem passar a salto para França. Por lá os contactava, organizava o transporte até à fronteira de Vila Verde da Raia entregando-os ao contacto que tinha em Feces. Daí para a frente já nada era consigo. Para os fazer chegar à fronteira cobrava cinquenta contos de réis a cada infeliz. O trabalho fazia-se quase sempre a coberto da noite e pelos atalhos que conduziam à raia. O negócio corria de vento em popa. As maiores dificuldades prendiam-se com as noites de invernia, em que o zimbro fustigava o corpo mas em contrapartida encobria a fuga dos que no estrangeiro procuravam o que a pátria lhes negava. Eram horas difíceis mas o lucro minimizava o esforço e nem o frio ou a neve, tão frequentes no Planalto do Brunheiro, hipotecavam o negócio do Neves. O homem enriquecia a olhos vistos. O povo como não visse actividade que justificasse os bons fatos que envergava na missa de domingo começou a desconfiar. Não foi preciso muito tempo para que um qualquer bufo, dos muitos que na altura a PIDE cooptava, fizesse chegar à Secreta a dúvida da licitude das suas actividades. As investigações começaram e não demorou que dessem pela ratada. Descoberto o modus faciende do Passador era só preciso armar-lhe a esparrela. O Neves cairia como pato bravo. Pensavam eles!...


O Passador para os lados de Mirandela tinha os seus angariadores a quem pagava o respectivo serviço. Os serviçais reuniam os homens em grupos de 10 que em dia marcado o Neves recolhia-os e fazia chegar, em camionetas de carga, pela noite escura, à aldeia de France onde se divisa do Planalto a cidade de Chaves. Daí para a frente era a pé até à fronteira que transpunham de madrugada a vau pelo regato. Os homens dormiam durante o dia num palheiro em Feces para na noite seguinte seguirem viagem até aos Pirinéus. O Trabalho do Neves acabava naquela aldeia galega. Dali para a frente já nada era consigo e as contas haveriam de ser feitas com o galego que os faria chegar à fronteira de França. Após o trabalhinho o Neves passava por Chaves onde pernoitava no Hotel de Chaves recompondo o corpo e a alma do esforço das noites de trabalho. Quando lhe parecia apanhava a carreira do Marinho para Carrazedo onde aguardava nova jornada.


Ora os da PIDE, que há algum tempo andavam na sua peugada, depressa lhe apanharam a manha montando o esquema próprio para o caçar. Eles sabiam que o Neves não facilitava uma vez que não era para brincadeiras. Pouco lhe custava aviar dois ou três pimpões que o enfrentassem, mesmo que estivessem armados. Aliás, ele era conhecido por ser zaragateiro. Romaria onde estivesse havia molho pela certa e quase sempre se saía bem. Portanto os PIDES também o temiam e para ser apanhado teriam que ser prudentes na armação da teia.


A estrada nacional que de Chaves conduz a Carrazedo Montenegro tem no lugar do Peto de Lagarelhos um entroncamento que do Seixo conduz a Vidago por Loivos. Ora esse lugar, ermo, era óptimo para caçar o rato. O Neves saiu de Chaves na camioneta de carreira pelas quatro horas da tarde de um dia cinzento de Abril. Daí a meia hora estacava na paragem do Peto ao sinal de paragem de dois homens que de samarra se faziam passar por lavadores. Aquela paragem, tão despropositada, causou alguma apreensão ao Neves. Os homens entraram e o revisor passou-lhe bilhete para Serapicos. Ainda mais estranho pois dessa aldeia do concelho de Valpaços conhecia o Neves quase tudo. Ali havia gato, cogitava o Passador! Sentaram-se num banco logo atrás de si. Não tinham ainda chegado a Lagarelhos e já o cano frio de uma Walter se encostava ao ouvido do Neves. Estremeceu!...


- Não se mexa, está preso!


Ainda pensou reagir, mas medidas as consequências imediatas só podia perder dado o contexto não lhe ser nada favorável.


Cedeu!


Enquanto o braço esquerdo do que empunhava a fusca lhe apertava o pescoço contra as costas do banco, o outro agente apressava-se a algemá-lo. Mandaram o chaufer parar em Lagarelhos onde os esperava um Wokswagen preto. Entraram e guiaram para a cidade de Trajano. Conduziram o preso até à esquadra da Polícia de Segurança Pública na rua da Cadeia Velha onde foi barbaramente interrogado. Claro, duro como era, silenciou-se pouca razão dando aos polícias para que o prendessem. Porém, como à polícia tudo era então permitido e depois de lhe aqueceram bem o motor deixaram-no preso sob a acusação de ajuda à emigração ilegal. No dia seguinte haveria de ser presente ao meritíssimo juiz da comarca para que decidisse o seu futuro. Os PIDE’s, ajudados por dois agentes da PSP, haveriam de o conduzir, no dia seguinte, até à Casa da Justiça.


Seriam umas oito e meia da manhã quando o preso foi acordado para que estivesse pronto a horas de ir ao tribunal. Claro que a noite foi passado quase em branco a tecer a forma como havia de ludibriar a vigilância dos guardas e pôr-se ao fresco. Evidentemente que a fuga dependeria mais da ocasionalidade dos factores favoráveis do que dos planos perfeitos que fizesse. Disso tinha o Neves plena convicção. Mas o indomável valor da liberdade acendia-lhe de tal forma a luz da esperança que não esmorecia em si a vontade de fugir.


Dois agentes da PSP acompanharam-no ao tribunal. Estranhamente nenhum dos PIDE’s que o prenderam estava presente. Estariam no tribunal pensava Neves. Da rua da Cadeia o Wokswagen carocha desceu a ladeira até ao Jardim das Freiras, depois a rua de Santo António até aos Quadradinhos e estacionou junto à Residencial Santiago mesmo ao lado do Tribunal. Acompanhado pelos agentes o Neves entrou no edifício. Subiu as escadas para o átrio da sala de audiências e esperou sentado pela chamada. Tardou até que um dos citotes chamasse o arguido. O Neves foi mandado entrar para uma sala de espera que servia de antecâmara. Os dois guardas aguardavam no átrio a saída do Neves. Como se tivessem informado junto do Oficial de Diligências do tempo que demoraria a audiência e dando para tomar um cafezinho nas Longras, os agentes facilitaram e saíram para regressarem daí a uma meia hora.


Evidentemente que o Neves logo que viu a maré favorável saiu sorrateiro da sala de espera sem que o citote, entretido, desse por ela. Desceu ligeiro as escadas para o amplo hall de entrada do Tribunal que dava acesso ao Registo Civil e à Conservatória e mal se viu na porta de entrada desceu apressado as escadas para as Longras. Pela canelha das hortas, um caminho que da esquina da Pensão Rito dava ao Tâmega, pisgou-se até ao rio. Quando o oficial deu pela falta do preso e porque estava à sua responsabilidade tralhou-se de medo. Deu o alerta, os guardas chegaram mas do Neves só o fumo.


Ao Inverno duro daquele ano seguia-se uma Primavera chuvosa e fresca. O Tâmega corria grosso. O Neves teria que o atravessar para se por a salvo. Mas a tarefa não se mostrava nada fácil pois à forte corrente da água gélida juntava-se a falta do hábito de nadar em águas tão agitadas. Porém não havia alternativa, ou tentaria ou seria facilmente apanhado pelo cerco que a guarda entretanto lhe montava. Botou-se ao rio descalço mas vestido. Nadando como um cão aflito e depois de um esforço que o ia levando para inferno lá chegou à margem esquerda pelas bandas do parque de campismo. Saiu rapidamente da água e enregelado botou a fugir pelas hortas até ao barracão de uma fabriqueta de chocolate que por ali havia. Ali se escondeu até que os donos, pela noitinha, deram com ele. Estava búzio de frio. Contou a sua história e os proprietários, condoídos, após a promessa de que sairia imediatamente dali, arranjaram-lhe roupa seca. Mal a noite caiu meteu pés Brunheiro acima. O objectivo era aportar na casa de um amigo de seu pai, António Moreiras no lugar do Carregal. Bateu-lhe à porta pelas onze da noite.


O que depois se passou é contado na estória “Neves o Passador” no livro Ecos do Planalto – estórias.

 

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