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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Souto Velho - Chaves - Portugal

17.05.08 | Fer.Ribeiro

 

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Olhando bem para esta primeira foto, poder-se-á tomar como um bom exemplo das nossas aldeias e da sua evolução ao longo dos tempos, um pouco da sua história e da importância que a terra teve ao longo dela.

 

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Na realidade a terra cultivável, enquanto teve a sua importância, encostou e fixou as casas e pessoas na encosta da montanhas, deixando os melhores terrenos livres para cultivo. Com a modernidade as pessoas deixaram de se fixar à terra e de a cultivar, pelo menos tão intensamente como o faziam de há 40 ou 50 anos para trás e, o respeito quase sagrado que havia pelas boas terras de cultivo, deixou de existir, as novas casas começaram a entrar pela “terra sagrada” dentro.

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Claro que este fenómeno da modernidade repete-se em todas as aldeias mas também na cidade onde é notória a invasão do betão em terras da veiga. Claro que associado a esta modernidade, quase sempre desastrosa, estão a falta de politicas acertadas para a vida das aldeias de interior, mas mesmo pior que as políticas acertadas, foi a ausência de qualquer política que tivesse em vista a vida das aldeias do interior e a sua fixação. Com a modernidade as aldeias foram como que esquecidas, entregues a si próprias e pouco ou nada contam para o contexto geral deste Portugal cada vez mais centralista em que as terras não valem pelos seus valores próprios e únicos, mas pelo número de votos que podem render.

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Desculpas a Souto Velho (a nossa aldeia de hoje) por esta introdução generalista, mas também ela é uma das que se enquadra à perfeição em tudo que disse e,  embora seja uma aldeia com terras ricas, a um passo de Vidago e a dois de Chaves, é mais uma das que já conheceu melhores dias, e hoje está envelhecida e só não caminha a passos largos para a desertificação graças aos bons acessos, à tal proximidade de Vidago e Chaves e à riqueza das duas terras e vinho.

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Mas vamos então até Souto Velho, que pertence à freguesia de Anelhe, fica a 3 quilómetros de Vidago, junto ao Rio Tâmega (margem direita), a 18 quilómetros de Chaves e a apenas 2 quilómetros do nó da auto-estrada (Vidago).

 

Em termos de população e segundo os Censos de 2001, Souto Velho tinha 72 habitantes residentes dos quais só 5 tinham menos de 10 anos. Actualmente só 1 criança é transportada para a escola EB, 2,3 de Vidago.

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E sobre Souto Velho, já o temos dito muitas vezes, é terra de vinhos excelentes, mas graças a riqueza das suas terras e à proximidade do Tâmega é também terra fértil das mais variadas culturas e típicas da região e até uma das que não é propriamente típica por esta terras, a cortiça, graças à abundância de sobreiros que há nas redondezas da aldeia.

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Durante a Segunda Guerra Mundial a riqueza agrícola da terra foi trocada por outra riqueza, também da terra, mas de minério, pois foi relevante a actividade mineira durante o decurso da guerra, e economicamente também.

 

Conta a lenda e a tradição que o grande senhor destas terras, de uma e outra margem do rio, foi D. Fernão Gralho, o mítico marido da não menos lendária Maria Mantela. A casa que a lenda lhes atribui é um belo casarão em granito situado na entrada do núcleo antigo da aldeia, de uma arquitectura bem interessante que se destaca ao longe, na sua altaneira posição, adornada com um elegante e também altaneiro canastro (ou espigueiro se preferirem).

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A capelinha é da devoção a Santo António. Em tempos já houve festa na aldeia, agora já há uns anos, que por falta de gente para festejar, não se realiza.  

 

Para terminar e uma vez que fiz referência à lenda de Maria Mantela, não será demais deixá-la (para quem ainda não conhece) mais uma vez por aqui.

 

 

Lenda de Maria Mantela

 

Morava Maria Mantela com seu marido Fernão Gralho, numa casa da Rua da Misericórdia, nas proximidades da Igreja Matriz em Chaves. Era um casal abastado, que vivia dos rendimentos, podendo assim Fernão Gralho entregar-se à caça de quando em vez, seu prazer favorito. Um dia, achando-se Maria Mantela grávida, passeava com o marido nos arredores da vila, quando foi abordada por uma mulher pobre com dois filhos gémeos abraçados ao peito, implorando lacrimosa uma esmola para minorar a sua miséria e a das suas criancinhas. Dela se compadeceu o marido que generosamente a socorreu. A sua mulher, pelo contrário, tratou-a duramente, colocando em dúvida a sua honestidade, por não compreender que, mulher de um só homem, pudesse de uma só vez gerar mais que um filho. A mendiga, sentindo-se injuriada, respondeu-lhe fazendo votos de que Maria Mantela não fosse castigada pelo que acabava de dizer, já que também estava grávida. Esta mensagem ficou sempre no espírito de Maria Mantela e uma certa sensação de remorso angustiava-a diariamente.

 

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Quando Maria Mantela deu à luz, encontrava-se o marido ausente, numa das suas caçadas. E do parto, para surpresa dela, nasceram sete gémeos, todos gerados ao mesmo tempo, apesar de ela ser fiel ao marido. Ficou tão aflita lembrando-se do que tinha pensado e dito à mãe dos gémeos que não teve coragem de apresentar ao marido os sete filhos, pelo que ele poderia pensar dela. No seu estado de aflição e loucura, encarregou a ama da casa que lançasse ao rio Tâmega seis dos recém nascidos, deixando ficar somente o que lhe parecesse mais robusto e bem constituído. A ama saiu, ao cair da tarde, para cumprir a missão, levando num cesto coberto os seis gémeos e preparava-se, a meio das Poldras, para lançar na forte corrente do rio os pequenos inocentes, quando avistou o Fernão Gralho que a observava da margem do rio. Veio ao seu encontro e inquiriu-a sobre o que fazia com aquele cesto, naquele local. A mulher procurou uma desculpa dizendo que a cadela tivera sete cachorrinhos e que ela vinha afogar seis, ficando em casa o de melhor raça. Porém o Gralho, pediu para os ver e então deparou com os seis meninos. Fernão Gralho, como homem compassivo que era, compreendeu a loucura da esposa que estivera a ponto de cometer um crime que a acompanharia toda a vida e perdoou-a desde logo. Tomou conta do cesto e ordenou à criada que fosse para casa participar o cumprimento das ordens que a senhora lhe dera, guardando segredo sobre a entrega dos recém nascidos. E, de seguida deslocou-se a seis aldeias do concelho de Chaves a confiar a outras tantas amas a sua criação.

 

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Passaram dez anos sem que Fernão Gralho desse a entender à esposa o segredo que guardava. Para ela era uma tortura o crime que havia cometido com os seus filhos.

 

O dia de ano novo, desse ano que começava, decidiu o Gralho festejá-lo com um lauto banquete, do que informou a mulher pedindo lhe que tratasse de tudo pois tinha seis amigos como convidados. À hora da refeição, quando Maria Mantela se dirigiu à mesa do banquete ficou muda de espanto; é que sentados, não estava só o filho, estavam sete rapazinhos todos iguais em feições e vestuário, de tal forma que ela não sabia dizer qual era o que ela tinha criado. O marido então esclareceu todos os acontecimentos acalmando enfim o sofrimento daquela alma tão longamente angustiada.

 

Os sete gémeos, diz ainda a lenda. Tornaram-se sete padres, paroquiando sete igrejas que fundaram com a invocação de Santa Maria. São elas a Igreja de Santa Maria de Moreiras, Santa Leocádia, Santa Maria de Calvão, o mosteiro de Oso já desaparecido e metade da Igreja Matriz de Chaves, Santa Maria de Émeres no concelho de Valpaços e São Miguel de Vilar de Perdizes do concelho de Montalegre. Na Igreja de Santa Maria Maior de Chaves. junto ao altar mor, em tempos passados existia um epitáfio, testemunho real da fundamentação da lenda e que dizia: "Aqui jaz Maria Mantela, com seus filhos à roda dela".

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