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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Pereira de Selão - Chaves - Portugal

18.05.08 | Fer.Ribeiro

 

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Na minha primeira actividade laboral muitas vezes me cruzei com o termo “solos seleccionados das minas de Pereira de Selão”. Os técnicos diziam que eram bons para os fins a que se destinavam. Da minha parte apenas lhe conhecia o nome, até que um dia resolvi perguntar onde se localizavam estas minas de solos tão apreciados e, responderam-me: Ficam ali para os lados de Vidago!. Espanto meu e ignorância minha, pois pensei que solos tão apreciados pela classe técnica das engenharias, nunca poderiam ser cá da terrinha, mas eram. Ignorância porque só nesse dia soube que Pereira de Selão pertencia ao concelho de Chaves. Mas isso, foi há quase 30 anos atrás, depois disso, a aldeia de Pereira de Selão já fez e faz parte de muitos dos meus itinerários e visitas.

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Já entenderam que a nossa aldeia de hoje é Pereira de Selão.

 

Pois vamos então até mais uma daquelas aldeias que encanta pelo seu casario tradicional e que é testemunha de Pereira de Selão já ter sido uma aldeia cheia de vida.

 

Pereira de Selão fica a 13 quilómetros de Chaves e a cerca de 4 de Vidago, pertence  à freguesia de Vilas Boas e faz parte daquele grande grupo da região de Vidago. Em termos de população e segundo o Censos 2001, tinha nessa data 89 habitantes, dos quais 52 tinham mais de 65 anos e apenas 7 com menos de 10 anos. Os números dizem tudo, pois de 1981 a 2001 perderam metade da população e na presente data, pelo que apurei,  apenas uma criança é transportada para a escola de Vidago, pois em Pereira de Selão a escola fechou por falta de alunos.

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Penso que nunca é demais referir por aqui esta constante da perda de população nas nossas aldeias e que é do conhecimento de todos nós, infelizmente. Tenho pena que Pereira de Selão não tenha a vida e alegria que imagino que teria há 40 ou 50 anos atrás, ou até talvez menos. Perdas que jamais serão recuperadas, pelo menos no que respeita a tradições associadas à vida rural, aos trabalhos do campo, às festas das colheitas, aos Domingos, às crianças na rua e por aí fora.

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Antigamente, quando se entrava numa aldeia, as ruas estavam cheias de vida, principalmente crianças, muitos adultos e, (claro) cães, galinhas, gatos, burros e cavalos, bois, rebanhos de ovelhas ou cabras. As aldeias eram agitadas com toda uma vida de campo. Pois parece incrível, mas é verdade, na minha última deslocação a Pereira de Selão para tomar as fotos que hoje vos deixo, estive por lá cerca de 45 minutos em plena tarde de Sábado e nesse período apenas vi duas pessoas e um cão.

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Não quero com tudo isto dizer que Pereira de Selão não tenha gente, pois já vimos pelos números que a há e a nível de casario até há muitas construções recuperadas e até com gosto, mas não passa de uma aldeia dormitório e com grande parte da sua população envelhecida.

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Mais uma vez o digo aqui que dá pena ver uma aldeia como Pereira de Selão, com tanta intimidade de casario interessante, mas sem vida de rua. Um bom exemplo de como a vida das nossas aldeias e a população rural foi e é esquecida nas políticas centralistas praticadas pelos senhores de Lisboa e consentidas ou até imitadas pelos senhores da política local.

 

Tal como os problemas da poluição mundial, do buraco de ozono e do aquecimento global já entraram num período de não retorno, também as nossas aldeias entraram nesse período.

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As aldeias que antigamente eram uma fonte abastecedora de produtos agrícolas de qualidade, carnes e outros bem necessários dos quais a cidade dependia, hoje são em tudo dependentes da cidade. No trabalho, nos embalados das grandes superfícies vindos sabe-se lá de onde e até da carne, das verduras e outros produtos de aviário, da educação e formação e até de valores, morais e monetários.

 

Desculpem-me estes desabafos, mas sempre o disse aqui que na minha infância e embora tivesse nascido na cidade e sempre vivido nela, sempre tive uma forte ligação ao mundo rural e às aldeias, e custa-me ver como as aldeias de hoje se despem de gente, de valores e de qualidade de vida. O curioso disto tudo é que as aldeias de hoje (digo-o sempre) têm tudo pelo que sempre ansiaram há muitos anos atrás, ou seja a electricidade, a água canalizada, o saneamento, telefones e bons, ou pelos menos dignos acessos rodoviários, mas hoje falta-lhes o principal e que é um meio de poderem também subsistir dignamente com o trabalho que poderiam ter nas suas aldeias.

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Peço desculpas a Pereira de Selão por este lamento, mas é um lamento sentido, que dia-a-dia, cada vez mais, revolta.

 

Mas vamos então até um pouco da aldeia e da sua história.

 

Ao que dizem os entendidos, Pereira de Selão, é um topónimo derivado de Sillus, um nome pessoal de origem germânica e daí teria surgido villa Sillani. A aldeia mostra no seu casario e nas suas casas senhoriais, a imponência que outrora a caracterizou; apresentam ainda traços estilísticos e ornatos que merecem admiração e embora alguns mantenho a sua dignidade, outros há que mereciam uma atenção urgente.

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Diz a tradição que num local perto duma das casas da aldeia estiveram acampadas, em 1809, as tropas do Marechal Soult e que aí mataram e comeram uma junta de bois. Para roubarem os animais fizeram tochas de pano embebidas em azeite que, acesas, lhes iluminaram o caminho e lhes ajudaram a atingir o objectivo. As suas três fontes de mergulho que marcam usos e costumes de ainda poucos anos atrás, evidenciam a abundância de nascentes de água. No Largo de S. Martinho, ao que parece ter sido o centro da aldeia,  está situada a capela da Senhora das Neves, com a sua torre sineira galaico transmontana.

 

Embora não a tivesse visto, pois perdi o meu tempo pelas ruas da aldeia, a documentação existente sobre a aldeia diz que perto do seu termo pode observar-se uma interessante estação de arte rupestre, ligada ao culto da fecundidade, no lugar designado por Bubane. junto do ribeiro do mesmo nome.

 

Pereira de Selão é terra natal do célebre capitão Ruivo, brioso militar da famosa Legião Portuguesa, que combateu em Wagran e Moscovo.

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E para terminar regresso de novo às minas de Pereira de Selão e ao modo como as leis são elaboradas, postas em prática e cumpridas. Pois toda a gente sabe que as leis existem para as explorações mineiras e pedreiras, que as obrigam a repor os solos, ou seja, a tapar os buracos que abrem. Pois as minas de Pereira de Selão já há alguns anos que fecharam e foram abandonadas e o buraco continua por lá, pois não foi tapado. Hoje está cheio de água que imagino será um perigo físico além de ambiental, pois duvido da qualidade daquelas águas estagnadas. Não vale a pena perguntar porque é que a lei não foi cumprida, pois possivelmente foi porque a empresa que a explorava faliu e “prontos”, como se costuma dizer, o assunto está arrumado. O Estado só existe para fazer leis e cobrar impostos para os seus devaneios. Quanto ao cumprimento da lei ou a substituir-se a quem a devia cumprir (quando não é cumprida), aí a coisa já é diferente, e quanto ao cumprimento dela, depende de quem a tem de cumprir. Faz-me lembrar um primeiro-ministro que proibiu fumar em espaços públicos e dias depois “botou” umas cigarradas num avião dizendo que desconhecia a lei, é como a crise que só é para ser paga por alguns.

 

Até amanhã de volta às polémicas da cidade, com abertura de uma nova rubrica neste blog.

 

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