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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade

30.05.08 | blogdaruanove

 

 

O "Jástou Servido"

 

Enfezado e de nariz adunco, o Anacleto passou a meninice sentado nos degraus do fontenário da Madalena. As mulherzinhas que iam encher os cântaros na torneira de pressão tinham que o enxotar quase sempre. Macambúzio, de joelhos ossudos e pernas esgalgadas, punha os braços sobre os joelhos que espreitavam dos calções, entrelaçava os pulsos  e ficava tempos infindos olhando para quem ia à água. Animava-se apenas quando os xailes negros ou os lenços sobre os cabelos grisalhos davam lugar a alguma moçoila espigadota, indiferente às suas graçolas de reguila ou, as mais das vezes, repontona.

 

Crescidote, era vê-lo a jogar ao sete-e-meio ou à lerpa, à sombra das arcadas, sempre de olho nas pernas das raparigas que iam à água.

 

Feito o serviço militar, em Braga, regressara a Chaves, lamentando que as representantes de um dos três "Pês" que a má-língua  atribuíra à cidade minhota não fossem assim tantas na sua terra. Foi-se contentando com as poucas que havia, ficando-se pelos hábitos da adolescência.

 

Continuando a viver na Madalena, aí trabalhava durante o dia, atravessando todas as noites a ponte para ir até aos reservados de jogo dos cafés da Rua Direita ou da Rua de Sto. António. Já de madrugada, passava depois pelas casas que consolavam a solidão dos milicianos de Cavalaria e Infantaria e dos noctívagos da cidade.

 

Mas não acamaradava com estranhos. Ia com o seu grupinho folgazão, o mesmo de sempre. Enfezado em criança e enfezado depois da tropa, um meia-leca como diziam os companheiros de pândega, deixava-se envolver pela animação das meninas, encostando-se aqui e ali, quase desaparecendo entre as ancas generosas e os seios opulentos.

 

Quando a bebida toldava os pensamentos dos folgazões e despertava os sentidos, o ambiente das casas animava-se ainda mais e começavam as romarias para os quartos. As meninas fugiam aos beliscões subindo os degraus, com gritinhos escandalizados, enquanto os mais atrevidos ensaiavam um levantar de saias ou o desapertar de um corpete.

 

Nessa altura havia sempre uma menina que olhava para trás e reparava que o Anacleto permanecia no sofá, com um aspecto seráfico, de sorriso nos lábios.

 

"Então o Sr. Anacleto não sobe?", perguntavam sempre. A resposta era invariavelmente a mesma — "Não, muito obrigado menina. Já estou servido..."

 

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