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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Bustelo - Chaves - Portugal

22.06.08 | Fer.Ribeiro

 

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Mais um Domingo, mais uma aldeia. Hoje é a vez de Bustelo, aldeia e freguesia.

 

A sua proximidade da cidade, faz com que entre a aldeia e Chaves, não haja praticamente separação física, sendo na prática mais uma freguesia urbana, aquela que fica a seguir a Santa Cruz/Trindade. No entanto e embora esta proximidade, continua também com a sua ruralidade que lhe é conferida pelo amanho de terras férteis, na planície alta de Chaves que se desenvolve entre pequenas montanhas desde a Torre de Ervededo até Curalha, passando por terras de Sanjurge, Soutelo e Valadanta. São terras férteis, que embora sem regadio, não tem falta de água, principalmente as de Bustelo, onde à boa maneira rural, ainda é frequente ver a água a correr junto aos caminhos.

 

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A freguesia estende-se ao longo de 9.34 km2, a maioria solo agrícola e embora a aldeia ao longo destes últimos 20 anos tenha crescido, com novos bairros de habitação e algumas construções ao longo da estrada municipal que liga a Chaves, a verdade é que também perdeu população nestes últimos 20 anos, pelo menos os números dos Censos para aí apontam, com 585 habitantes em 1981 e 517 h em 2001. Perda de população que, comparativamente com a maioria das aldeias, não tem qualquer significado, pois continua a ser uma aldeia habitada, com vida, ainda com muitas crianças e gente jovem. 50 crianças com menos de dez anos (em 2001), o número diz tudo.

 

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Quanto ao casario, digamos que também não vai mal, com muitas reconstruções e recuperações e casas novas. Claro que no seu núcleo também há casario abandonado e outro a precisar de obras, mas comparado com aquilo que é habitual na maioria das aldeias, Bustelo até se recomenda. Ao todo, ainda segundo o Censos 2001, a aldeia possui 318 alojamentos para 180 famílias. Parece haver contradição de números, mas não há, pode acontecer, o que aliás é comum nas aldeias, uma família ter mais que uma construção.

 

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Dando uma volta, mesmo que apressada pela aldeia, nota-se facilmente a sua vida, que é reflectida também no equipamento desportivo e de lazer de apoio à aldeia, onde existe um polivalente para a prática das mais variadas modalidades e bem juntinho a este, um pequeno um simpático parque de lazer ou de merendas, à sombra de imponentes sobreiros e muitos carvalhos, onde não faltam grelhadores, mesas e bancos.

 

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Quanto ao casario da aldeia, no seu núcleo, ainda há muito do casario tradicional em granito, mas também casario mais recente, e outro que com base no granito, foi sofrendo ao longo dos tempos algumas transformações e adaptações. Também há casas senhoriais, como a casa do paço, no cimo da aldeia,  habitada e em bom estado de conservação, onde se adivinham simpáticos jardins e zonas de estar ao ar livre, pelo menos a julgar pela aparência e por aquilo que se vê da rua.

 

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Mais abaixo, quase na entrada do núcleo da aldeia e na rua principal existe outra construção também senhorial, que suponho ter sido dividida ao longo dos tempos, apresentando-se metade em bom estado de conservação onde são notórias obras de restauro recentes, penso que habitada, pelo menos ocasionalmente e na continuação desta, a outra metade, a pedir e necessitar de obras interiores mas que, os seus proprietários não as fazem porque a querem preservar. Parece uma contradição, mas quem conhece a realidade da casa em questão, facilmente compreende que não há qualquer contradição, pois as suas velhas paredes estão quase todas elas pintadas com frescos, além de um dos compartimentos ser uma autêntica capela, com direito até a uma preciosa imagem de Nossa Senhora da Piedade.

 

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Compreende-se assim o porque dos proprietários não quererem fazer obras no seu interior, pelos menos “obras tradicionais”, ou seja daquelas que se manda tudo abaixo para fazer de novo. Os proprietários, sem saberem mesmo qual a origem dos frescos, a sua data e até o que eles representam, sabem que aquilo tem valor e não se aventuram com obras, entretanto vão esperando…

 

A verdade seja dita, vi os frescos e,  sem perceber nada do assunto,  entendi logo que aquela gente neles representada não é gente da nossa, o que (para mim) aumenta ainda mais o seu interesse, não só no que eles representam como também em quem os pintou ou mandou pintar.

 

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Quanto ao frescos, como leigo na matéria, recorri a um amigo e também colaborador deste blog, que após um breve estudo sobre o assunto me disse que  “as imagens orientais dos frescos talvez se tenham inspirado na batalha de Aboukir (1799; há outra, naval, com o mesmo nome, de 1798) ou mesmo no massacre de Scio (1822), embora esta última hipótese seja mais improvável. De qualquer modo, está fora de dúvida que as imagens serão da primeira metade do século XIX e que o senhor com chapéu e penachos corresponde à iconografia da Revolução Francesa (1789).”

 

Talvez fosse bom consultar os historiadores cá da terra sobre o assunto, ou talvez não, que às tantas ainda mandam rebocar os frescos para os preservar. (não resisti…).

 

Também eu não sei qual a solução para os frescos e qual o seu real valor e também eu, tal como os proprietários, também espero interessado em saber qual o seu futuro, entretanto a velha casa vai deteriorando-se dia após dia ou ano após ano.

 

(Obrigado Carla por nos teres aberto as portas da casa).

 

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E para rematar o post de hoje vamos a mais um bocadinho da história e o resumo possível sobre Bustelo.

 

Fez parte, desde o século XIV ao século XIX, do extinto concelho de Ervededo, tendo tido nessa altura uma Companhia de Ordenanças. A aldeia, como quase todas nestas condições, aproveitou o inicio da encosta da serra para implantar as suas casas, deixando os terrenos planos e férteis para a agricultura onde produzem essencialmente, o centeio, batata, vinho e frutas, além das habituais hortas de proximidade e algum gado (pouco).

 

Na entrada da aldeia situa-se a capela do Senhor dos Aflitos, bonita e digna de ser apreciada e cuja festividade se realiza no segundo Domingo de Agosto. Mais no cimo do povo temos a igreja paroquial, da invocação de Santa Maria Madalena, de linhas barrocas, possui no interior belos altares adornados de esculturais colunas salomónicas em madeira, com um bonito trabalho e douradas. Do casario o principal destaque vai para a “casa do paço”. Na documentação consultada, diz-se ter sido pertença dos Marqueses de Subserra, com uma frontaria com ornatos interessantes, possui no tal jardim interior (que se adivinha na passagem) uma lindíssima fonte com três taças concêntricas sobrepostas.

 

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Embora eu pessoalmente desconheça, encontrei ainda referências à existência, no termo da  freguesia, na encosta da serra do Laspedo a rochas com insculturas rupestres ofiolatras, e também a ruínas do grosso muro do Castro que existiu no alto da serra da Bandeira.

 

E sobre Bustelo é tudo, só falta mesmo localizá-la para que não sabe onde ela fica, ou seja, sai-se de Chaves (centro – que antigamente era nas Freiras e que agora não se sabe muito bem onde é…) em direcção às grandes superfícies comerciais, seguindo depois a caminho do Casino ou da auto-estrada. Poderá estranhar a estrada e pensar que vai enganado, mas não, vai bem e a estrada é mesmo assim, estreita e não está nas melhores condições, mas é essa. Quando chegar à primeira rotunda de acesso ao Casino/Auto-estrada, esqueça a estrada nova e boa que vê à sua esquerda e siga em frente, pela velha e estreita. Mais à frente, irá passar por baixo da auto-estrada e logo a seguir ao cruzamento de Sanjurge ou à “moagem”do Seara, surge o desvia para Bustelo, mas à direita. Se tudo isto for confuso, o melhor mesmo é perguntar qual é a estrada para Vilar de Perdizes ou Montalegre e quando encontrar a placa com indicação de Bustelo, vira aí, não há nada a enganar…

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Agora mais a sério ainda. Bustelo fica aqui mesmo ao lado, mas é uma daquelas aldeias que para se conhecer temos que ir lá de propósito ou fazer um pequeno desvio da estrada, mas para que gosta de conhecer as nossas aldeias, é mais uma a não perder, pois ainda tem o seu núcleo tradicional quase intacto, em bom estado, além de se poderem apreciar algumas das coisas que por aqui deixei descritas e outras, pois não é possível deixar por aqui tudo.

 

Até amanhã, de volta à cidade!