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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Orjais - Chaves - Portugal

12.07.08 | Fer.Ribeiro

 

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Sempre o disse e cada vez mais o realço, que é necessário descer até ao coração das aldeias para as conhecer verdadeiramente.

 

Conheço, ou melhor, pensava que conhecia Orjais há mais de vinte anos. Pura ilusão, pois sempre a julguei pela aparência de visitas apressadas e pela sua entrada, que mais me fazia parecer uma planície alentejana, de uma aldeia nova que tinha nascido lá para os anos 50 do século passado. Há tempos, aquando da minha visita a S.Gonçalo, desci até lá via Parada e saí via Orjais e por uma questão de localização e curiosidade, consultei as cartas militares (sempre as mais fieis à realidade do terreno) e dei-me conta que em Orjais, para além daquilo que eu pensava ser a aldeia, existia um núcleo de casario considerável a umas centenas de metros de distância. Pelas cartas tudo levava a crer ser a verdadeira aldeia, a aldeia antiga.

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No último fim de semana tinha combinado com um amigo uma visita a Segirei, e lá fomos nós. Mas já que passava ao lado de Orjais, resolvi fazer um pequeno desvio para ir confirmar a existência do tal núcleo da aldeia antiga e eis que encontro a verdadeira e encantadora aldeia de Orjais. Tão encantadora se mostrou, que entre conversas com alguns residentes (resistentes) e muitas fotografias, a tarde foi-se passando e Segirei esteve quase em risco de ficar para outra visita.

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Agora sim, finalmente posso dizer que conheço um pouco de Orjais, apenas um pouco, pois uma aldeia só se conhece na sua plenitude se for vivida de perto ou no seu seio, comungar das suas festas e alegrias, mas também das suas amarguras e dificuldades, a sua História e as suas estórias, famílias e gentes. Só depois de todas esta vivência e conhecimento, é que verdadeiramente podemos dizer que conhecemos uma aldeia. Assim, fico-me pelo conhecer apenas um pouquinho de Orjais e jamais cairei de novo na asneira de dizer que conheço uma aldeia apenas por ter passado por ela ou pela aparência. Estamos sempre a aprender.

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E já que entrei neste tom confessional, ainda e antes de visitar São Vicente da Raia com olhos de ver e fotografar, depois de conhecer um pouco de Segirei e Aveleda, confesso também que considerava Orjais o “patinho feio” da freguesia. Confirma-se a regra de que as aparências iludem, e embora Orjais não tenha a visibilidade das restantes aldeias da freguesia, pois esconde-se e acolhe-se numa encosta longe dos olhares da estrada e das vistas, não se fica atrás das restantes aldeias da freguesia em beleza e características das únicas aldeias de xisto que temos no nosso concelho e que faz da freguesia, uma freguesia singular, única, entalada entre ares e terras da Galiza, ares e terras de Vinhais e onde começa o amontoado ou mar de montanhas que se perdem no horizonte. Olhares únicos que só nesta freguesia se conseguem.

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Mas vamos então até ao pouco que conheço e sei de Orjais.

 

Orjais pertence à freguesia de S.Vicente da Raia, fica a 30 quilómetros de Chaves, ou seja, é uma das aldeias mais distantes da sede do concelho e só ultrapassada em distância pelas vizinhas Aveleda e Segirei, distância que se reflecte também no seu despovoamento, na sua população envelhecida e em muitos filhos emigrantes, pois em Agosto, diziam-nos os resistentes, a aldeia muda e as ruas enchem-se de gente e todos os dias são dias de festa. Um mês que para os resistentes é o pão da sua resistência.

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Em termos de população e segundo os Censos 2001, Orjais tinha 69 habitantes residentes, dos quais 4 tinha menos de 10 anos, 6 tinham entre 10 e 20 anos e com mais de 65 anos tinha na altura 23 habitantes. Os números dizem tudo, mas penso que nos últimos 7 anos a situação deu mais um pequeno passo para o despovoamento, pois segundo apurei na aldeia, na presente data, apenas possuem um (1) jovem em idade escolar que é transportado diariamente para Chaves.

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Um dado curioso e que demonstra bem o despovoamento e envelhecimento das populações das aldeias, principalmente das aldeias mais distantes de Chaves e das aldeias de montanha, é a preocupação dos actuais Presidentes de junta em construírem casas mortuárias, quando em simultâneo quase todas as antigas escolas do “Plano dos Centenários” fecharam nos últimos anos, por outro lado, e só para termos um ligeiro exemplo de como as ilustres politicas e os seus não menos ilustres políticos gerem os dinheiros públicos, ou sejam os nossos dinheiros, há cerca de uma dezena de anos atrás todas as escolas do concelho foram dotadas de aquecimento (a lenha) num projecto financiado que deu pelo nome de VALOREN. Todo esse investimento, actualmente é lixo e as escolas fechadas, salvo raras excepções, são uma triste recordação de um passado recente em que as crianças alegravam a vida das escolas e das aldeias. Escolas que também elas estão cheias de lixo e numa acelerada caminhada para a ruína. Esta realidade, não é exclusiva de Orjais, pois é comum a quase todas as aldeias do concelho e que mais uma vez eu culpo as políticas de Lisboa (de todos os governos sem excepção) e os politico locais (também todos, sem excepção) por se deixarem embalar pelas políticas de centralismos e nada fazerem para contrariar o problema do despovoamento das nossas aldeias e da sua morte lenta onde só os resistentes “teimam” em honrar com a sua presença a terra onde nasceram. Mais uma vez, ando às voltas com as contas de um rosário que não é exclusivo a Orjais, e hoje é desta aldeia que quero tratar.

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Vamos então para o casario da aldeia, onde se aplica bem aquela da “Vila de Cima” e da “Vila de Baixo”. Pois a aldeia de cima, a tal que me enganou durante anos, é uma aldeia que eu dizia lembrar-me paisagem alentejana, pois a entrada na aldeia faz-se por uma estrada estreita e asfaltada, plana e sem curvas, com muitos campos de centeio onde a primeira construção que se avista ao longe é da capela nova, toda ela pintada de branco, com mais dois ou três anexos também pintados de branco, logo seguida por uma boa dezena de casas de habitação, também todas elas recentes e longe do casario típico de granito, que por aqui (como já atrás disse) deu lugar ao xisto, ou seja, a pedra que abunda nas redondezas, mas não só, pois também está ligada à arte de trabalhar e construir com xisto, que é bem diferente do trabalho com granito. Aldeias de xisto que têm aqui o seu início e se prolongam pelo concelho de Vinhais, ou então (penso que é mais correcto) que começam no concelho de Vinhais e terminam nesta freguesia, que embora flaviense, tem todas as características das freguesias de Vinhais. Características que se reflectem não só nas construções, mas também no passado e história destas aldeias como a seguir veremos. Esta aldeia de xisto, é a “aldeia de baixo”, onde está o seu núcleo antigo e também velho, com muitas das suas casas fechadas ou em ruínas e que é onde os resistentes se reúnem sentados nas soleiras das portas, a aproveitar um pouco de sol ou sobra (dependendo do dia ou época do ano) e onde arrastam conversas durante tardes inteiras e que fazem as honras da aldeia, aos poucos visitantes, tal como foi o nosso caso.

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Vamos então a um bocadinho da história desta aldeia (de baixo, a antiga), à pouca história que há registada em livros e a outra tanta que se deduz ou adivinha.

 

Pois Orjais, que também às vezes é referenciada e desiganada como Urjais, quer em cartas e documentos oficiais que me passaram pelas mãos,  possui uma designação que segundo alguns autores, entre os quais o Padre João Vaz de Amorim, deriva de um apelido espanhol.

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Embora no tal pequeno planalto (que a mim me lembra o Alentejo), no lugar da Barraca, haver uma pequena ermida e ao lado uma capela da invocação do Senhor dos Milagres, construída em 1982 por influência (segundo apurei) do pároco da freguesia Padre Delmino Fontoura, com a sua festividade, que reúne muitos emigrantes no dia 1 de Agosto de cada ano, na a aldeia entre o casario mais antigo e algum em ruinas, destaca-se uma capela de linhas simples, bem mais antiga que a do planalto, mas com alguns acrescentos recentes e que tem por padroeira Santa Luzia cujo dia festivo se celebra a 13 de Dezembro.

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Já no núcleo da aldeia antiga, numa casa em ruínas que mantém a custo a fachada principal onde ainda tem as ombreiras e padieira em granito da porta de entrada,  merece uma referência especial, pelo “mistério” de que se rodeia, pois a padieira ostenta e apresenta um conjunto de caracteres que sugerem ser em escrita judaica, podendo ter aí funcionado uma sinagoga, quando os judeus viviam nesta região – é opinião que está registada num pequeno resumo que encontrei sobre a aldeia. Segundo um dos resistentes que fez as honras da aldeia, a pedra (padieira) teria vindo de Espanha e levou-nos até ao outro lado da rua, numa casa também em ruínas, onde nas padieiras das janelas do seu alçado posterior também existiam gravações idênticas.

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Como não sou perito na matéria e nas tais gravações só consegui distinguir algumas formas geométricas além da data de 1718, recorri a um entendido na matéria e que já é há muito tempo assessor cultural deste blog, que por sorte foi um dos amigos acompanhantes na visita que fizemos a Orjais. E embora na visita não tivéssemos dado a devida importância ao pormenor ou melhor, à leitura das gravações, pois confiámos nas fotografias, esta não se revelaram de grande qualidade, pelo menos para leitura de alguns caracteres, assim fica apenas um estudo breve e possível nesta data, que numa futura visita ao local poderemos completar.

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O apuramento possível:

 

Os símbolos inscritos na padieira sugerem origem cripto-judaica, particularmente no que se refere à estrela de cinco pontas inscrita num círculo e rematada no seu exterior por espirais. O pentagrama é habitualmente relacionado com aspectos demoníacos, mas também surge nos amuletos com uma conotação protectora e benéfica, casos em que é identificado como signo-saimão (expressão eventualmente derivada de "signo de Salomão"). Essa designação popular encontra-se, aliás, consagrada na toponímia de uma aldeia do distrito de Coimbra - Signo-Samo.

 

Embora a estrela de cinco pontas, na sua versão do signo-saimão, esteja conotada com o Judaísmo, a verdade é que a estrela judaica por excelência é a estrela de seis pontas, a estrela do Rei David, ainda hoje patente na bandeira de Israel.

Durante o nazismo, a estrela de David era o símbolo identificativo imposto aos Judeus perseguidos pelo III Reich. Esta identificação, contudo, remonta pelo menos à Idade Média, já que em Portugal se encontra uma compilação legislativa promulgada durante o reinado de D. Afonso V (1432-1481), designada por Ordenações Afonsinas, que preconiza o uso de uma estrela de seis pontas, bem visível no vestuário, pelos Judeus (Ordenações Afonsinas, Livro II, título LXXXVI) . Daí a expressão popular "de estrela e beta".

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Tal símbolo identificativo pode ser visto na representação de um rabi que surge no políptico dos painéis de S. Vicente de Fora, obra do século XV patente no Museu Nacional de Arte Antiga.

 

É de todo possível que tenham origem judaica pois é sabido que naquela região do concelho de Chaves, bem como na região adjacente de Vinhais e Valpaços (zona de Lebução) existiu uma importante comunidade judaica e que tanta influência teve na nossa região, pelo menos e no que é sabido na introdução de alguns hábitos alimentares e novas iguarias, como o caso das alheiras, que embora ganhassem fama com o rótulo de Mirandela, são bem conhecidas e fazem tradição em todo o norte transmontano, e quais as melhores!

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E para terminar, tal como a grande maioria (senão todas) Orjais é uma aldeia que ainda vive e sempre viveu à volta da agricultura, com as culturas tradicionais na região. Boa batata, centeio e nota-se agora por lá algumas plantações novas de castanheiros, que já não é cultura nova na aldeia, pois também os vi por lá (a julgar pelo seu diâmetro) castanheiros centenários.

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E por hoje é tudo e sobre Orjais também ficamos (hoje) por aqui. Congratulo-me por vos poder dar hoje um pouco da “aldeia de baixo” ou o seu núcleo histórico, que esteve para mim escondida durante tantos anos tapada pelo tal planalto “alentejano”.

 

 

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