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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

19
Jul08

Mairos - Chaves - Portugal

 

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Mais vale tarde que nunca, diz o ditado e muito bem, mas para compensar o atraso e para refrescar um pouco (pelo menos em imagem) mais um dos dias de inferno que Chaves vive, com as temperaturas a caminhar apressadamente para a casa dos 40ºC, deixo-vos com uma imagem de Inverno, do tempo frio, precisamente da aldeia que hoje vamos visitar - Mairos.

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Mairos, tem 13,77 Km2 de área, fica a 18 quilómetros de Chaves e é mais uma das nossas aldeias da raia. É a única aldeia da freguesia. Confronta a Norte com a Galiza e com as freguesias de Stº António de Monforte, Lamadarcos, Travancas e Paradela de Monforte.

 

Em termos de população (Censos 2001) Mairos possuía 354 habitantes de população residente, dos quais 74 tinham menos de 20 anos e 27 menos de 10 anos, ou seja, é uma aldeia que ainda tem muita gente jovem e que nos pode levar a crer que é uma aldeia que não sofre de despovoamento. Aparentemente não o sofre, mas se compararmos os dados mais recentes com os dados dos Censos de 1981, em que a freguesia tinha 680 habitantes de população residente, facilmente observamos que Mairos em 20 anos perdeu quase metade da sua população. Mas se compararmos os dados desta freguesia com os das freguesias da montanha, Mairos ainda se recomenda.

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Aliás Mairos deve mesmo recomendar-se e pelas mais variadas razões que iremos descobrindo ao longo deste post, mas, claro, também tem as suas amarguras.

 

Claro que é também uma aldeia difícil de abordar, principalmente pela sua riqueza histórica, arqueológica, associativa e onde houve gente importante e, há  também gente interessada e estudiosa da freguesia, além de alguns amigos que nunca me perdoariam um mau post,  mal documentado e ilustrado. Mas como sempre, faço o possível.

 

Como a quase totalidade das aldeias do concelho, também Mairos é uma freguesia rural, onde a agro-pecuária sempre foi uma componente importante, tendo em tempos  (há cerca de 10 a 15 anos atrás) existido mais de100 criadores de gado bovino, com cerca de 500 cabeças de gado (vacas leiteiras) e que faziam de Mairos o maior produtor de leite de todo o concelho. Hoje penso que em termos de criação de gado e produção de leite (não tenho dados, apenas por observação), em termos de criadores e produção de leite, é apenas uma amostra com esses ricos anos de produção, e tudo graças às tais políticas que nos ditam de Lisboa e que em vez de apoiar, impõem quotas e culturas, políticas que tanto têm contribuído para o despovoamento das nossas aldeias, e (claro) para o enriquecimento de alguns que se movem bem nos corredores das políticas agrícolas e das suas instituções, bem como do poder.

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Para além da pecuária, Mairos tem também o “fabrico”das terras um dos seus meios de vida, terras que se desenvolvem desde os pequenos vales, ou planaltos junto à aldeia e sobem pela Serra de Mairos fora, onde o centeio e a batata são as principais culturas, mas também um pouco de vinha e de milho, sendo o seu restante território revestido de verdejantes pastagens, que (também por observação) nos últimos anos, tem perdido terreno em benefício das culturas de estufa.

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Toda esta cultura da terra é “apoiada” por bons recursos hídricos, possuindo mesmo e desde há uma dezena de anos atrás, uma barragem para rega e que, segundo me constou na aldeia, alguma da pedra que ajudou a construí-la, foi recolhida nas redondezas da aldeia, a eito, entrado mesmo por algumas estações arqueológicas adentro. Aliás já é conhecida a boa relação que os empreiteiros costumam ter com a arqueologia e também a boa pontaria que as suas máquinas têm para iniciarem obras precisamente nos locais onde há interesses arqueológicos, sem fiscalização ou arqueólogos por perto, onde, sempre e sem querer, destroem milhares de anos de história. Pena é que neste país em que há ou se inventam leis para tudo, não as haja ou não sejam aplicadas nestes casos, em que todos saem impunes e por isso, estes casos se repetem. Fico-me por aqui, pois todos estes casos são conhecidos por quem tem responsabilidades na matéria e todos sabem que escavações arqueológicas, ou atrasam obras ou até as inviabilizam e claro está que situações dessas não agradam a quem executa as obras, nem a quem as manda fazer.

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E entramos assim na história de Mairos, e nos importantes achados arqueológicos da freguesia e que confirmam arcaicos povoamentos de finais da Pré-História ou inícios da Proto-História e que tantos estudiosos já levou até à aldeia a explorar os diversos locais de interesse, como a famosa estação de arte rupestre ao ar livre do tripé, onde em vários penedos graníticos se inscrevem enigmáticos petróglifos à mistura com figurações cruciformes de cronologia discutível, com datações propostas dos inícios da metalurgia – Calcolítico e Broze Inicial.

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Dois arqueo-sítios, conhecidos peo “Muro de tróia” e “ Soutilha” foram já arrolados como povoados fortificados castrejos, tendo também estes locais sido objecto de vários estudos, prospecções e referências bibliográficas.

 

Um autêntico tesouro e museu ao ar livre ao qual alguns dos seus filhos, como Firmino Aires (infelizmente já falecido) dedicaram muito do seu tempo, tal como uma Associação, o Centro Social e Cultural de Mairos se dedicou ao estudo e interesses da aldeia, tendo criado mesmo um sítio na net que desde já recomendo e que é de visita obrigatória para se conhecer Mairos: http://cscmairos.home.sapo.pt/

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Sítio na NET e Centro Social que parou ou diminuiu infelizmente a sua actividade, pois segundo apurei na aldeia esta associação era feita de muita gente jovem e estudantes, que agora está fora da aldeia e já se sabe que associações sem gente não “andam”. Não por falta de interesse, porque interesse há-o de sobra na aldeia em preservar aquilo que têm de bom, falta-lhe é a tal juventude e também alguns apoios, principalmente para Museu Etnográfico de Mairos ou Museu do Abade de Baçal, instalado no antigo quartel da Guarda Fiscal, onde estão reunidas algumas peças da vida quotidiana e religiosa do passado da aldeia. Aliás é o único museu do género que existe no concelho e penso que na região e que bem poderia ser um grande museu etnográfico do concelho Chaves, onde fosse recolhido todo um espólio etnográfico ainda existente  no concelho,  e que aos poucos,  se vai perdendo ou vendendo para fora do concelho. Penso que essa recolha  esse espaço seria uma mais valia para a região, antes de se perder definitivamente todo esse património da história das nossas aldeias, onde nem sequer um carro de bois, um estadulho ou até mesmo uma candeia ou um engaço restem para podermos mostra às gerações futuras. O Museu Etnográfico de Mairos bem poderia ser o início desse grande espaço, entretanto apenas reúne nele algumas peças interessantes, mais ou menos cuidadas e guardadas ou fechadas no antigo quartel da guarda, pois para além disso não me consta que faça parte de algum roteiro turístico nem sequer tem as portas abertas ao público. Para se visitar tem que se encontrar primeiro a pessoa que tem a chave do museu e esta estar disponível para nos acompanhar numa visita, que o fazem com gosto, mas que as lides do campo ou da casa, nem sempre permitem a sua disponibilidade.

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É também terra de emigrantes, aliás uma constante em todo o nosso concelho. Com emigrantes na Europa mas que também tem (ou já teve) uma parte importante da sua população nos Estados Unidos da América, ou simplesmente na América, como por aqui era costume dizer-se.

 

De gente importante ou que de uma forma  ou de outra dignificou as suas gentes e as suas terras, temos o Abade de Baçal, Sacerdote secular, arqueólogo e historiador, de seu nome Francisco Manuel Alves (Braçal, Bragança, 9.4.1865 - ib., 13.11.1947), filho de Francisco Alves Barnabé e Francisca Vicente.  Cursou preparatórios no Liceu, e Teologia no Seminário de Bragança, sendo ordenado presbítero (13.6.1889) e logo nomeado pároco, ou abade da sua terra natal, por isso que ficou vulgarmente conhecido por Abade de Baçal, embora por vezes assine também Reitor de Baçal.  Dedicou parte da sua vida à investigação arqueológica e histórica, para a qual teve um singularíssimo instinto, sem necessidade de estudos científicos prévios, por isso há quem lhe aponte alguma assistematicidade nos estudos. Foi precisamente em Mairos que o Abade de Baçal iniciou a sua actividade como arqueólogo e historiador, onde ainda existe a casa onde se alojava na qual a população fez colocar uma placa alusiva. Casa que por sinal merecia estar em melhor estado de conservação e também ela, porque não, ser uma casa museu.

 

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O Abada de Baçal, independente, modesto e sóbrio, misturado com o povo, foi nomeado (1925) director-conservador do Museu Regional de Bragança que hoje em dia ostenta o seu nome.  Absorvido na arqueologia, não descurou os interesses da Igreja, participando nas polémicas que perturbaram a diocese no princípio do século XX, em defesa do seu bispo (O caso de Bragança e resposta aos Críticos,1905, e Notas biográficas do Ex."' Senhor D. José Alves Mariz, bispo de Bragança, Porto, 1906). Deu vasta colaboração à imprensa, havendo artigos seus nos mais inusitados periódicos: Alerta, Anuário de Viana do Castelo, A Palavra, A Torre de D. Chama, A voz, O Comércio do Porto, Distrito de Bragança, Gazeta de Bragança, Leste Transmontano, Notícias de Bragança, O Comércio de Chaves, O Bragançano, Diário de Noticias, O Século, O Pirilampo, O Primeiro de Janeiro, etc. e em revistas.  Em 1935 foi alvo de grande homenagem: atribuição do seu nome ao Museu de Bragança, condecoração com o Grande Oficialato da Ordem de Santiago.  Sócio da Academia das Ciências, da Associação dos Arqueólogos Portugueses, do Instituto Etnológico, vogal da comissão de História Militar e membro de vários intitutos académicos estrangeiros.  A sua obra principal é constituída pelos 11 volumes das Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, começados em 1909 e terminadas em 1947, fonte incontornável para o estudo da vida, história e valores do nordeste transmontano.

 

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Outro dos grandes nomes ligado a Mairos é o de Domingos Rodrigues Sá, um benemérito da aldeia pois a ele se lhe atribui (há coisa de 100 anos atrás) a construção da primeira escola, a pavimentação da aldeia a calçada de seixo, a construção de um calvário (entretanto desmantelado) e deixou um fundo de maneio para a aldeia de 1 Conto de Reis.

 

E que mais se poderá dizer de Mairos!?. Que dizer não falta sobre esta aldeia e concerteza terá um futuro post dedicado à sua riqueza histórica e arqueológica, mas para já acrescento ainda a origem do seu topónimo, por exemplo.

 

Pois o seu topónimo tem sido motivo de investigação e aceita-se que poderá provir do nome de um encarregado geral romano chamado Marius, que teria sido o prospector, explorador e controlador de uma vasta área metalífera. Depois, por hipertese, isto é transposição de sons entre sílabas do mesmo termo, Marius transformou se em Mairos. Por este apontamento, já se pode inferir que também esta aldeia é muito antiga e rica de testemunhos dessa condição.

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Por sua vez, além desta origem para o topónimo,  o Centro Social e Cultural de Mairos, na sua página defende ainda que Mairos possa advir da palavra céltico-romana Matres, as Mães, as deusas mães, sofrendo as várias alterações, de acordo com o linguajar do povo, durante séculos e consagradas posteriormente.

 

Constituída a nacionalidade portuguesa, Mairos e outras aldeias vizinhas, nem sempre estiveram dentro dos limites de Portugal. Os habitantes umas vezes foram vassalos dos alcaides do Castelo de Santo Estêvão e outras vezes súbditos dos monarcas de Leão, até que, por fim no reinado de D. Dinis, ficaram na dependência do Castelo de Monforte. Só mais tarde consegue a sua autonomia como freguesia independente escolhendo para padroeira a Senhora da Expectação.

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Considerada a posição fronteiriça desta povoação raiana, facilmente se reconhece que ela devia ter desempenhado, também, papel importante na defesa da independência nacional. E, de facto em 1641, os dados históricos revelam como soube, heroicamente, repelir as porfiadas investidas dos espanhóis.

 

Dentro do povoado, é importante referir a existência de dois invulgares cruzeiro de Santa Apolónia que estiveram inicialmente colocados nas entradas da aldeia. Possui também belo Peto.

 

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A igreja paroquial é de arquitectura muito simples, de uma só nave, com dois altares laterais e capela mor. De destacar é a artística tribuna, em estilo barroco, com as suas bonitas e antigas imagens. Possui ainda a capela da Senhora do Rosário onde está também o Sr. da Misericórdia. Curioso que entre a padroeira e alguns santos e santas das suas capelas, igrejas e cruzeiros, a festa seja em honra de Santiago, no 3º Domingo de Agosto.

 

E por hoje sobre Mairos é mesmo tudo. Mais logo, Domingo, teremos por aqui outra aldeia do nosso concelho.

 

Até mais logo e desculpem pelo atraso deste post.

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