Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

...

25.07.08 | Fer.Ribeiro

 

.

 

 

A Ponte a Pé

 

um poema de José Carlos Barros

http://casa-de-cacela.blogspot.com

 

 

Nunca Marco Ulpio Trajano atravessou a ponte

a pé vindo de namorar à sombra dum plátano do

Jardim Público para jogar matraquilhos

na outra margem ou ouvir o Satisfaction dos Rolling

Stones numa Jukebox Wurlitzer de mil

novecentos e setenta e um: e isto

a meu ver vale um império.

 

 

Nunca Marco Ulpio Trajano atravessou a ponte

a pé vindo da Romana (oh a ironia)

depois de beber uma girafa e olhar o Tâmega

como se nenhum outro rio corresse

em todo o perímetro da península onde

parece que nasceu e tanto amou: e isto

a meu ver vale um Império.

 

Nunca Marco Ulpio Trajano atravessou a ponte

a pé depois duma ameaça de bomba no liceu

em pleno horário lectivo

arregaçando as mangas duma camisa triple

marfel oferecida por alguém que morria

de ternura a dizer o nosso nome ao ouvido: e isto

a meu ver vale um Império.

 

Nunca Marco Ulpio Trajano atravessou a ponte

a pé na madrugada da feira dos Santos

a olhar os plásticos dos atoalhados

e as embalagens gordurosas das farturas

e as tampas das caixas de sapatos

como se o lixo e a poesia se misturassem

nas margens do rio e a juventude

 

ficasse para sempre do nosso lado: e isto

a meu ver vale um Império.

Por isso eu quero passar a ponte

a pé e ver como Trajano nunca viu

ao longe os automóveis e as suas nuvens

vagarosas de gasóleo: porque isso

a meu ver vale um Império.

 

 

3 comentários

Comentar post