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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade - Uma carta.

08.08.08 | Fer.Ribeiro

 

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E como hoje é sexta-feira, é dia de discurso sobre a cidade. Hoje um discurso diferente do habitual, pois trata-se de uma carta enviada pelo Dr. Fernão de Magalhães Gonçalves ao Dr. Mário Gonçalves Carneiro, infelizmente ambos falecidos.

 

Um discurso e também uma homenagem a dois flavienses, embora Fernão de Magalhães Gonçalves não o fosse de nascimento (Jou – Murça), mas foi flaviense na sua vivência com e na cidade, nos amigos que por aqui granjeou e, como homem das letras, nas palavras que por aqui ensinou e burilou. Amante de poesia, foi também um dos maiores estudiosos de Miguel Torga, considerando-se mesmo um “Torgomano”. Morreu prematuramente em Seoul (1943-1988), interrompendo assim a sua carreira como professor de português e como escritor e poeta, deixando no entanto publicados inúmeros ensaios dispersos por jornais e revistas da especialidade e cerca pelo menos dez obras publicadas, entre as quais «Sete meditações sobre Miguel Torga», «Manifesto para uma Literatura Legível, I e II»,  « Ser e Ler Miguel Torga», «Memória Imperfeita» poesia, «Júbilo da Seiva» poesia, entre outros e muitos que ficaram por escrever.

 

Quanto à confidencialidade da carta que a seguir vos deixo, não estou a cometer qualquer pecado, pois a mesma está publicada também em livro «Algumas Cartas», já publicado após a sua morte por Manuela Morais Gonçalves (a sua mulher), 1990, em Braga, numa edição de autor.

 

 

Granada, 5 de Dezembro de 1985

 

Dr. Mário Carneiro

 

O nevoeiro, a chuva e o frio fazem apetecer a brazeira, convidam ao recolhimento. Uma boa oportunidade, pois, para lhe responder a agradecer a amabilidade da sua carta e os jornais. Os jornais já me haviam chegado, inexplicavelmente, por outra via - suponho que por iniciativa das próprias redacções.

 

Penso nos quarenta anos de dedicação às Caldas. Penso no que eles terão tido de esforço e de sonho. Creio que o projecto do Sr. Doutor se realizou e, até, se ultrapassou a si próprio. Mas bastará isto para que esse esforço e esse sonho tenham sentido? Eu sei que a ética dos super-homens manda que esse sentido o construa cada um na solidão da sua consciência. Mas será que o nosso heroísmo está assim tão dependente da desonestidade e da ingratidão dos outros?

 

Penso no seu direito, pela menos, à gratidão dos flavienses. Há que vender a batata, há que destruir mais a veiga, há que promover o Desportivo e há que lavar as mãos ao ex-vereador (...)! É este o tamanho de Chaves. E uma pessoa com a dignidade e a estatura do Sr. Doutor - leva tempo a caber dentro. A homenagem virá. Por vezes, a história torna mais fortes as ausências que as presenças. Mas o que está violado para sempre é o seu direito à gratidão, no tempo certo. E é uma pena que o sentimento de responsabilidade dos homens nasça, assim, quase sempre do sentimento de culpa. É uma pena por si, Sr. Doutor, meu amigo!

 

Quanto à homenagem do (...), estou de acordo. Estou de acordo se, por trás dela, instrumentalizando a sua pessoa, não houver um jogo dos que ele gosta de jogar. Não sei porquê, mas isso faz-me lembrar o apoio da mafia americana ao grande F. Roosevelt... Mas o Sr. Doutor é soberano, e a profissão ensinou-o bem a distinguir a doença do sintoma.

 

As comemorações do F.do Pessoa. Já basta, não está de acordo? Imagino a intoxicação que por aí vai... Não sei porquê, esse «manga de alpaca» que cerebraliza tudo - acho que não identifica um país, mas apenas o absurdo cinismo alfacinha e uma forte avaria de fígado. Tudo isso intelectualizado, deu coisas maravilhosas e deu coisas de uma esterilidade insuportável.

 

Subitamente o tempo piorou. Creio que por aí aconteceu o mesmo. Mas espero que isso não impeça que nos encontremos no Natal. Lá para o dia 21-22 já aí estamos.

 

Vamos óptimos de saúde.

 

Recomende-me à D. Maria da Glória e à Sr.ª Carlota. O casal Luísa/Nicolás agradece e retribui.

 

Até breve, então, e um grande abraço nosso.

 

Fernão

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