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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

05
Set08

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

 

.

 

O Castelo de Santo Estêvão

 

poema de José Carlos Barros

http://casa-de-cacela.blogspot.com

 

 

 

O grupo de teatro universitário ia pois levar à cena

no centro cultural de Évora a sua primeira peça

que posso já adiantar que não chegou

à estreia. Pela razão simples de que ao encenador

 

não lhe escapou a pronúncia cerrada do moço

vindo do Barroso e do liceu de Chaves

a estudar arquitectura paisagista no Alentejo

fazia eu de Afonso III. Luís Varela insistia comigo

 

para que acariciasse Beatriz entre a ternura do velho

bárbaro a fazer festinhas na criança que a princesa ainda

era e a luxúria intervalada de quem sente

 

já nos seus braços uma mulher que começava

na realidade a sê-lo. Ora eu na parte da luxúria

continha-me ali em público nos ensaios

 

 

 

um cibo. E o Luís então gritava em desespero que

nem parecia ter eu nascido no sítio onde

no século XIII a coisa verdadeiramente se passara

por não serem de hábito assim tão encolhidos

 

os conterrâneos meus que se soubesse em

se tratando de mandar a uma moça deslumbrante

a ceitoira. E eis como foi necessário o orgulho

ferido e a subsequente lição para ficar a saber

 

que o Bolonhês em segundas núpcias e em primeiras

a filha do rei Afonso X se casaram nem mais

nem menos que em Santo Estêvão. E assim

 

se compreenderá também que durante tantos anos

visitasse sempre que podia e hoje

ainda a aldeia que de entre todas do concelho de Chaves

 

 

 

me pertencia e me pertence mais. E quando

regresso é como se regressasse a 1253 e visse

Beatriz de Castilla y Guzman a entrar na capela de

mão dada com este d. Afonso III que quase representei

 

no Garcia de Resende não fora por mor dos copos uns

e outros pelo honesto estudo terem deixado a mais

de meio mas antes da estreia a peça

do Ernesto Leal. Aí fui portanto tantas vezes e vou agora

 

e sempre a imaginar nas nove ameias do alçado

e na planta rectangular do que resta do castelo

a Beatriz que em Évora demorei a acariciar com luxúria

 

enquanto o encenador não me puxou pelos brios e eu

não soube que Beatriz e d. Afonso III se casaram afinal

no castelo que é também meu de Santo Estêvão.

 

 

.

 

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