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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Segirei - Chaves - Portugal

13.09.08 | Fer.Ribeiro

 

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Hoje vamos finalmente até Segirei e ao seu post alargado que, diga-se, já deveria ter acontecido há mais tempo, pelo menos a julgar pelas tentativas de recolha de fotografias e pelas visitas que fui fazendo à aldeia, mas como sempre que vou para aqueles lados, perco-me nos encantos da longa caminhada que é necessário fazer para se chegar a esta aldeia, que fica apenas a 35 quilómetros de Chaves, ou seja (e em termos comparativos) muito para lá da distância entre Chaves e Boticas ou Valpaços, ou igual à distância entre Chaves e Vila Pouca de Aguiar  e quase à mesma distância de Montalegre.

 

Mas finalmente consegui chegar a Segirei quase a horas decentes para tomar algumas fotos da aldeia.

 

Hoje digamos que o texto vai indo ao sabor das imagens, tal-qual como se fosse da primeira vez que fui a Segirei, já há mais de 20 anos, quando ir até lá era uma aventura de uma longa tarde com regresso de noite (principalmente em tempos de chuva) e ainda com a estrada (que era caminho) em terra batida.

 

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Até Travancas ou Argemil a coisa lá foi indo, a partir de aí, o bem-bom de estrada com asfalto terminava. Chegado bem lá ao alto de Argemil avista-se uma mar de montanhas onde só um olhar atento e selvagem conseguia descobrir aqui e ali pedaços de caminho que serpenteavam por entre montanhas, então cheias de verde e sombras, ainda o grande incêndio não lhes tinha comido a cor da verdura. Vida para além da selvagem, parecia não haver, mas diziam-me que sim, que no meio daquele mar de montanhas havia aldeias e havia vida.

 

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Depois de uma longa e agitada descida, finalmente ouvia-se o rugir das águas. Era o rio Mousse, pequeno, de águas puras e transparentes que se adivinhavam frescas. Neste momento já estava engolido bem lá no fundo do ondulado das montanhas, neste momento deixava a longa descida da estrada como se tivesse acabado de descer uma serpente, sem veneno, mas igualmente perigosa nas suas curvas e descidas para logo começar a subir a montanha. Ao lado, um pequeno “casal” cujo casaria mal se distinguia por entre o verde do arvoredo. Era o primeiro sinal de vida.

 

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Chegado ao cimo da também grande subida, chegava a S.Vicente da Raia. A aldeia surgia de repente como se de uma ilha se tratasse no meio deste mar de montanhas. Tinha então mais vida que hoje, ainda com crianças na rua, cães, galinhas e gado. A chegada de um carro, embora não deixasse de ser habitual, dava nas vistas e despertava o olhar curioso da aldeia. Sem abandonar a estrada principal, adivinhava-se que Segirei seria a seguir e espanto meu…acabava de deixar uma aldeia e um mar de montanhas para entrar num oceano delas. A partir de ali parecia mesmo não existir mais nada para além das montanhas. Mas eu sabia que existia. Tinha visto Segirei no mapa e sabia que era por aqueles lados que começava a Galiza e que toda a Europa estava para além daquele oceano.

 

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Curva e mais curva, sempre a descer, lá ia sendo de novo engolido pelas montanhas daquele oceano. De Segirei, nada, só o verde da floresta e o azul carregado do céu de um dia de inverno, mas limpo. Deve ser a seguir…mais uma curva, mais descida, mais curva prá’li curva prá’qui e continua a descer. Desde Chaves já tinha percorrido mais de 30 quilómetros e nada de avistar Segirei. Só montanha, verde, azul e muitas curvas e mais curvas até que… finalmente começava a avistar um pequeno vale por onde ainda entre arvoredo se começavam a desenhar algumas colunas de fumo, alguns telhados e casas…finalmente Segirei, pensava eu, mas não, ainda não era aquele o meu destino. Tinha acabado de descobrir Aveleda, que confesso que até então só conhecia o nome de uma marca de vinho verde e nunca pensei que no concelho existisse uma aldeia com esse nome. Por sinal uma belíssima aldeia que já passou por este blog (ver em arquivo) e que até tem sítio na NET (Ver linck ao lado).

 

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Como a estrada, que continuava a ser em terra, tinha seguimento, resolvi continuar. Afinal nada tinha a perder e Segirei era mesmo o meu destino. Continuava a perder-me entre o ondulado das montanhas. Agora a subir, sempre a subir, com uma curva logo sucedida por outra curva, e outra subida e outra curva e mais curva e mais subida e uma mesmo daquelas apertadas a escassos graus dos 360º…e continua com curvas e subidas que pareciam nunca mais terminar. Para trás só se avistavam montanhas, dos lados a mesma coisa, em frente, o mesmo. Estaria enganado. Se calha já andava por terras galegas sem saber ou então já tinha entrado em terras de Vinhais. A estrada continuava e a algum lado teria que ir dar. Ia continuando e de novo terminavam as subidas para de novo começarem as descidas e mais montanha e mais curva após curva. Confesso que me comecei a sentir mesmo perdido e tentado a voltar para trás quando de súbito me surge uma aldeia, bem juntinha, aconchega e encostadinha à montanha. Eis que tinha acabado de descobrir Segirei.

 

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Tudo isto parece estória para encher romance, mas que pela primeira vez foi a Segirei há mais de 20 anos, sabe que não o é.

 

Hoje felizmente, embora as curvas, subidas e descidas continuem no seu caminho, já têm o “piche” no chão, só continuo é sem perceber como sempre que saio de Chaves (logo após o almoço) com destino a Segirei, regresso à cidade e já é noite serrada e estou a falar dos dias longos do verão.

 

Mas depois desta longa caminhada vamos lá entrar finalmente em Segirei.

 

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Segirei (recordemos) fica a 35 quilómetros de Chaves e pertence à freguesia de São Vicente da Raia. Com vistas para a Galiza, ali a uns metros de distância, adivinha-se ter sido aldeia de contrabando, guardas-fiscais e contrabandistas. Logo a seguir à aldeia (continuando a descer) vamos de encontro ao Rio Mente, onde hoje existe uma belíssima e convidativa praia fluvial, com muito verde, sobras apetecíveis, grelhadores, mesas e até bar de apoio. Do outro lado do Rio já são terras de Vinhais, ali onde começa o Parque Natural de Montesinho e onde antigamente (a poucos quilómetros de distância) existia um espaço termal associado à águas ferrosas de Sandim. Águas que também têm fonte (bem próxima da praia fluvial) em Segirei as “Aguas de Segirei” que penso terão as mesmas propriedades das de Sandim. Águas que até estão referenciadas e sinalizadas numa das rotas do contrabando, mas apenas isso, e é pena, pois penso eu que o espaço (suposta fonte das águas de Segirei) além de uma placa mereciam um espaço condigno, atraente e convidativo onde se pudesse “botar” um copo.

 

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Regressemos à aldeia e à sua população que se adivinha envelhecida. Em 2001 (dados do Censos) a aldeia possuía 38 residentes  (18 homens e 20 mulheres). No mesmo Censos com menos de 24 anos de idade apenas havia 3 residentes entre os 9 e os 13 anos. Actualmente (passados que estão7 anos após o último Censos) desconheço se ainda por lá existem crianças residentes. Penso que não, a Tânia talvez nos possa ajudar (já vos falo da Tânia). Aparentemente poderá parecer uma aldeia sem vida, e talvez o seja durante os dias de Semana e durante o Inverno, mas em todas as minhas idas a Segirei (sempre em fim-de-semana) encontrei muita vida e juventude na aldeia. Filhos e netos mantêm uma forte ligação e dedicação à aldeia, regressando a ela sempre que podem. Basta passar numa tarde de verão pela aldeia ou pela praia fluvial para ver como a vida pulsa no meio daquele oceano de montanhas. Aliás, ao que sei, a aldeia também já foi descoberta por alguns casais mais jovens da cidade, onde recuperaram ou arranjaram casas para “refúgios” de fim-de-semana, onde se adivinham momentos de passagem paradisíaca, claro, para quem gosta de montanha, ar puro, verde, água limpa e transparente.

 

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Uma das visitas regulares (penso que semanais) à aldeia é a Tânia. “Neta” da aldeia e que tem feito tudo por levar a aldeia a todo o mundo quer com o seu blog Segirei, quer com a página Segirei. É uma das jovens onde se sente no seu olhar que parte do seu brilho é de Segirei. Basta visitar o seu blog ou a página de Segirei para compreender aquilo que por aqui deixo em palavras. Aliás são de visita obrigatória.

 

Segirei tem magia. O Seu aconchego à montanha com olhares abertos para as montanhas da Galiza ou para os pequenos e verdes vales que se desenvolvem ao longo do riacho até ao desaguar no Rio Mente, antecedidos por um rugido ou rumor, sussurro ou murmúrio sempre presente e constante das quedas de águas nas cascatas que desde a Galiza entram por Portugal adentro deliciando qualquer um que as descubra ou seja atraído por elas. Apetece estar lá, viver todo aquele ambiente intimista concentrado num pequeno ponto no meio de um oceano de Montanhas.

 

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Claro que a todos recomendo uma visita a este pequeno paraíso, mas com tempo, muito tempo para poder desfrutar de tudo que Segirei e a sua envolvente tem para oferecer. Não façam como eu, não se percam pelo caminho e pelas aldeias da freguesia. Quando quiserem conhecer Segirei, reservem pelo menos um dia inteiro, façam a rota do contrabando (só pedonal) desde as cascatas de Espanha até à Praia Fluvial do Mente, senão correm o risco de (tal como eu) conhecer Segirei por capítulos (se calha até o faço de propósito). Para as restantes aldeias da freguesia, reservem outro dia, que também vale a pena, mas não no mesmo dia de Segirei.

 

E agora passemos à aldeia, fisicamente falando, e a um pouco da sua história e até lendas.

 

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Pois embora a aldeia se integre em plena região das aldeias do xisto e embora ainda existam por lá alguns exemplares de casas de xisto, notam-se uma remodelação da aldeia talvez (tudo indica) durante e a partir do terceiro quartel do século passado, onde foram introduzidos novos materiais nas construções, principalmente em ampliações e revestimentos com rebocos. É pena, pois tudo leva a crer que teria sido uma das aldeias genuínas das construções em xisto, que a terem-se preservado e resistido até hoje, fariam de Segirei, mais que um paraíso, um autêntico património da humanidade de uma aldeia de xisto na montanha de Portugal profundo, bem profundo.

 

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E já que falamos em profundidade, falemos também em elevação, pois depois de todas as subidas e descidas até Segirei (deixando de parte as curvas) a aldeia encontra-se a numa encosta da Serra da Trave a cerca de 600 metros de altitude que vai “escorregando” para uma pequena mas fértil veiga que se desenvolve ao longo do Ribeiro da Cidadelha até que este desagua no Rio Mente.

 

O Topónimo dizem ser proveniente de um apelido de família espanhola.

 

Possui uma pequena capela no “cimo” do povo cujo padroeiro penso ser S.Gonçalo. Não sei se terá alguma ligação ao S.Gonçalo também próximo ali onde o Rio Mousse desagua no Rio Mente.

 

Dizem ainda os escritos a que tive acesso que o termo de Segirei confina com o Castelo de Cidadelha (desconheço e terei que fazer por lá outra visita – mais um capítulo). Dizem ainda que nas cercanias da aldeia têm sido encontrados vestígios romanos levando-nos a crer que o povoamento de Segirei remontará a esses tempos.

 

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E terra que se preze, tem as suas lendas. Pois segundo apurei, diz a lenda que as ruínas do tal castelo são habitadas por uma moura encantada que guarda grande tesouros. Na manhã de S.João costuma tecer num tear de ouro e estender às orvalhadas ricas barrelas de linhas.

 

Bem apuradinha esta lenda e a moura encantada de Segirei vai daí e é irmã da nossa moura encantada, fechada no terceiro arco da Ponte Romana e que também dá sinais de si no dia de S.João. Quem sabe!?

 

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E de Segirei por hoje é tudo. Não digo que não regressarei lá, porque mais tarde ou mais sedo por lá andarei de novo. Agora em descoberta do castelo, da moura encantada e também do moinho que ainda nunca visitei ou pelo menos, num desfrutar do Mente e da praia fluvial.

 

E de Segirei é tudo, ou quase, pois ainda falta realçar a doçura e qualidade do mel que por lá se faz. Obrigado.

 

E quanto à freguesia de São Vicente da Raia, só falta mesmo passar por este blog a sede de freguesia, que prometo será em breve.

 

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