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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade - A Liga para os Bons Costumes

19.09.08 | blogdaruanove

 

 

Alto, espadaúdo e bem parecido, o senhor director da Liga para os Bons Costumes era um incansável defensor da moralidade e da família. O sogro delegara nele a administração da Casa de Modas Paris em Chaves, depois de perceber que o seu bom aspecto fazia sucesso entre a clientela feminina. 

 

A sua simples presença no estabelecimento, mesmo que displicente, aumentava consideravelmente o movimento e os lucros. Sem outra ocupação que gerir os capitais do estabelecimento e as propriedades do sogro, passava os dias entre as reuniões da sede da Liga e as visitas ao Clube Social.

 

Arranjava ainda algum tempo para estar no escritório da Casa de Modas, um compartimento reservado, no primeiro andar, onde ajudava as melhores clientes nas provas de vestidos e roupa interior. Eram por vezes sessões mais demoradas do que a singela prova de uma única peça faria prever, mas as clientes acabavam por sair sempre sorridentes e satisfeitas, muitas vezes já com a nova peça vestida. E voltavam sempre. Não raro, antes mesmo de terem chegado as novas colecções.

 

A acção da Liga pautava-se por louváveis artigos nos jornais da terra, pelos apelos à instrução que aí publicava - "Lei-a. Ler é saber mais!" era o notável slogan promovido na imprensa local, e pelas moderadas e moralizantes intervenções de edificantes palestras mensais religiosamente realizadas no Clube Social, o qual, muito cristãmente, reunia as boas famílias da região. Aí se zelava pela moral pública com chás de beneficência e se faziam donativos para os pobres com o resultado de piedosos jogos de bridge ou canasta.

 

Um dia, colocou-se grave questão aos membros da Liga. Havia que acabar com as poucas-vergonhas que manifestamente ocorriam numa casa de devassidão. Foi consensual a decisão, que contou com o apoio dos representantes das forças da ordem e do município. Havia que acabar com as poucas-vergonhas  e encerrar aquele antro. Para isso decidiu-se fazer uma rusga e surpreender pessoas em flagrante. Deixou-se a data ao critério do comandante das forças da ordem, para que decidisse em função da disponibilidade dos efectivos. Este encarregou da missão um velho cabo, matreiro e sabido. Disse-lhe que nem ele próprio queria saber a data, mas que queria resultados, "Detenções em flagrante, entendido nosso cabo?" Perfilando-se como se estivesse na formatura, o cabo não hesitou em responder - "Perfeitamente, meu comandante!"

 

Dias depois apresentou-se ao superior. "Então, novidades, nosso cabo?" Em sentido, e fazendo a continência, este declarou solenemente - "Saiba Vossa Senhoria que sim, meu comandante! Acabei agora de regressar da missão." Uma declaração cheia de brio profissional. "Óptimo, óptimo", exclamou o comandante, perguntando de seguida  - "Houve flagrante?" O cabo apressou-se a responder, ufano - "Sim senhor!" Não se contendo, o comandante esfregou as mãos. "Bem, bem! Então já podemos encerrar aquilo..." Aqui, o cabo perdeu um pouco a compostura e gaguejou - "Talvez não seja boa ideia, meu comandante..." Contrariado, o oficial inquiriu - "Mas então houve flagrante ou não?" Já embaraçado, o cabo acenou que sim. "Então qual é o problema?", rosnou o oficial, incomodado. "Saiba o meu comandante que apenas apanhamos dois indivíduos em flagrante... Um é o chefe das milícias. O outro é o director da Liga para os Bons Costumes, que por sinal ainda estava em roupa interior. De senhora..."