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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

São Vicente da Raia - Chaves - Portugal

20.09.08 | Fer.Ribeiro

 

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De há 20 e picos anos para cá tenho calcorreado este nosso concelho de lés a lés. Hoje penso não haver cantinho que eu não conheça e todos eles têm o seu encanto. No entanto, como em tudo, há encantos e encantos. Uns pelas suas gentes, outros pelas tradições usos e costumes, outros pela história, outros pelas estórias e outros até pela vizinhança.

 

As terras da raia têm um encanto acrescido que está directamente ligado à própria raia. Terras de fronteira, de uma linha política quase imaginária que ao longo dos tempos insistia, ou tentava, dividir um mesmo povo, terras de contrabandistas e guardas fiscais, guarda e carabineiros, terras de clandestinidade forçada e natural, terras com muitas estórias para contar, mas sobretudo terras que a própria geografia se encarregou de tornar difíceis, que embora possa parecer contraditório, as torna ainda mais encantadoras.

 

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Pois hoje vamos até S.Vicente da Raia, sede de uma freguesia toda ela ligada desde a nossa nacionalidade à raia e a tal fronteira definida, aqui sim, por uma linha apenas imaginária, pois quer de um lado ou outro da raia existe um mesmo povo. Mas também pelas suas características geográficas, onde um mar de montanhas se amontoa num oceano de perder de vista, onde aqui e ali, num lugar mais aconchegado e protegido vai havendo vida, que a julgar pela história, já é secular.

 

Tenho um carinho especial por toda esta freguesia que é toda ela povoada por pequenos paraísos. Ali onde tudo parece terminar é onde, afinal, começa todo o encanto de uma pequena região, única e singular.

 

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Segirei, a cascata, o Rio Mente, o Ribeiro da Cidadelha, o Rio Mousse e  as suas entradas triunfais no mente criando à sua volta dois belíssimos espaços naturais e que tão bem foram aproveitados para praias fluviais, quer em Segirei, quer em S.Gonçalo. Orjais, aldeia que durante tantos anos me enganou até que finalmente me encantou com a descoberta da antiga e velha aldeia. Aveleda sobre a qual e lá desde o alto da montanha não dispenso uma paragem para descansar, aliviar e purificar a vista no seu verde, na sua pequena veiga e no pequeno núcleo das casas de xisto. Por último a sede de freguesia, que ao longo dos anos me foi enganando porque apenas tomava a aldeia como uma estrada de passagem sem me dar conta que a mesma estrada a dividia em duas aldeias, quer fisicamente, quer também em interesse. Graças a Deus que o tempo e a idade me ensinaram a não julgar as pessoas e os lugares pela aparência, ou de passagem, senão também tinha perdido mais uma belíssima aldeia – S.Vicente da Raia.

 

É com S.Vicente da Raia que este blog conclui a passagem por toda a freguesia, só vai faltar mesmo o mosaico de imagens, mas, porque a freguesia é guardada num cantinho especial deste blog, fica também a promessa que as imagens da freguesia, ao longo dos tempos, continuarão a ilustrar este blog, tal como já ilustram.

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Mas vamos descer a S.Vicente da Raia, a um pouco da sua história e das suas gentes.

 

S.Vicente da Raia  fica a 26 quilómetros de Chaves e é a freguesia mais distante da sede do concelho de Chaves. Como o nome indica, é terra e freguesia da raia com a Galiza, mas também com o concelho de Vinhais e com as freguesias de Travancas, Roriz, Cimo de Vila da Castanheira e Sanfins. Terra da raia, significa, ou melhor, significava (até a abolição das fronteiras)  ser terra de contrabando, com contrabandistas e guardas fiscais partilhando a promiscuidade de um modo de vida, promiscuidade essa que também sempre houve em aldeias da raia de um e outro lado, pois as aldeias vizinhas de um e outro lado da fronteira, reunidos num só povo, sempre partilharam amizades, festas, trabalhos, namoros e sobretudo negócios, agrícolas, de contrabando e até de clandestinidade de fugidos para um e outro lado, mas também terras e rotas de passagem do pulo das “peles” para aqueles (que ainda muitos deles, principalmente os mais velhos) são os nossos emigrantes.

 

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Embora a abertura e abolição das fronteiras nos dê a liberdade de circulação por essa Europa fora, uma mais valia para a generalidade dos povos da Europa, não o foi tanto assim para as aldeias da raia, para quem a fronteira nunca existiu, mas que era ela parte do negócio e modo de vida de muitas famílias. Não bastava a emigração levar à partida da gente mais jovem destas aldeias, como também a ausência de fronteira levou à partida dos guardas-fiscais e dos contrabandistas, tudo contribuindo para o tal despovoamento, doença grave e até mortal para algumas aldeias.

 

Lamento não ter dados dos anos 60 quando se deu o grande boom da emigração, mas mesmo comparando os dados dos Censos de 1981 em que a freguesia tinha 675 habitantes residentes, com os Censos de 2001 em que a freguesia ficou reduzida a menos de metade da sua população, com os seus 313 habitantes. Os números dizem tudo, mas dizem muito mais quando todos sabemos que mulheres a parir nas nossas aldeias são uma espécie em vias de extinção e que os nossos emigrantes, cada vez mais, por razões de afecto e familiares, ficam pelas cidades e países de emigração e se regressam, também se ficam pela cidade de Chaves e arredores.

 

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A não serem tomadas medidas de fundo para a recuperação da vida nas aldeias, que têm que obrigatoriamente passar por políticas agrícolas de fundo e rentáveis, aliadas também ao turismo rural, e deixando de parte os subsídios para tractores e outras medidas politiqueiras que só têm servido para que os gabinetes e técnicos das cidades amealhem algum extra.

 

Curioso que ainda no último fim-de-semana ia avançando pelo nosso concelho rural e ia vendo como ao longo dos últimos anos se desperdiçou tanto dinheiro, ou seja, houve um tempo em que foi prioritário dotar todas ou quase todas as aldeias com escolas. Aumentaram-se algumas existentes, construíram-se de raiz algumas, instalaram-se pré-fabricados noutras. Hoje em dia é passar pelas aldeias e ver essas mesmas escolas abandonadas e cercadas de mato ou completamente destruídas como o caso do Seixo, uma escola construída de raiz e que funcionou apenas durante uma dezena de anos, se tanto. Com as salas de ordenha passou-se o mesmo. Há uns anos atrás construíam-se salas de ordenha em tudo que era sítio e aldeia. Ao fim da tarde as ruas das aldeias entupiam com tanta vaca leiteira vinda de todos os lados, cantos e cantinhos. Hoje passa-se pelas aldeias e raramente se vê uma vaca leiteira que seja a pastar nos campos. Com as estufas acontece o mesmo. Aparecem como por encanto e mais rápido desaparecem, ou melhor, ficam com os plásticos a abanar ao vento e abandonadas e a poluir muitas das bonitas paisagens que temos. Com as plantações disto e daquilo, vai sendo conforme o ano. Ou é a videira que está a dar, depois a oliveira, depois o castanheiro, depois a cerejeira, e na floresta, idem, aspas… o facto é que por esse concelho fora, rara é a plantação deste género que vinga e não é invadida por mato. Claro que há algumas excepções bem sucedidas.

 

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Tudo isto não tem a ver em particular com a nossa aldeia convidada de hoje, mas diz respeito em geral,  a todas as aldeias, que ao morrerem os seus velhos resistentes, elas também vão morrer. Políticas urgentes e sérias precisam-se para as nossas aldeias, se é que há interesse político que tal aconteça, pois tenho a impressão que por parte da classe política não existe qualquer interesse nas aldeias e no Portugal interior e, são mesmo para deixar morrer. Com elas, morre também uma cultura, usos e costumes, tradições e um povo. Em troca, teremos cidades superlotadas, sem qualidade de vida (pura), blocos de betão, muitos enlatados, muito egoísmo e também muito fumo, mas sem o cheiro da giesta ou da carqueja no acender das lareiras.

 

Claro que não estarei cá para ver, mas daqui 100 anos, pela certa que se farão feiras para mostrar como viviam os povos das aldeias do interior e da montanha, com tudo alterado e à moda das feiras medievais que agora estão na moda e que hoje mesmo passa uma pela cidade de Chaves, mesmo que em cima de uma cavalo, com vestimentas mais ou menos a dar ideias medievais, vá um cavaleiro com uns ténis calçados de marca nike ou adidas ou star… nem sequer são umas sanjo, que essas como eram de fabrico português e bom material, tiveram que fechar a fábrica.

 

Globalização, é o que está a dar.

 

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Mas regressemos a São Vicente da Raia, à qual peço desculpas pelos meus devaneios de revolta, mas tal como as freguesias de montanha, também já conheceu melhores dias e com muita mais vida.

 

São Vicente da Raia é terra de amigo(a)s já desde há longa data. Colegas de liceu que invariavelmente todos os anos após as férias grandes regressavam à cidade para estudar, Vinham como aos magotes de todas as aldeias para se hospedarem na cidade, enquanto outros faziam diariamente as suas viagem de “carreira” para o concelho de Valpaços e Boticas. Era no tempo em que Chaves era o centro estudantil da região. Pois ainda são desse tempo as minhas amizades com colegas de São Vicente da Raia, que como é de esperar, agora é na(s) cidades que vivem.

 

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Ironia do destino, durante a minha passagem para recolher fotografias em São Vicente da Raia, mantive duas agradáveis conversas com dois resistentes, um deles precisamente o pai das minhas velhas amizades, um guarda-fiscal reformado que vai entretendo os dias com as suas colecções de tudo e uma velha glória do Desportivo de Chaves, anos 50, e 60 o Domingos, que durante mais de 10 anos vestiu como defesa a camisola do Chaves. Era fim de tarde, já estava de partida para a cidade, mas mesmo assim fez questão de adiar a partida por mais meia hora para nos mostrar as coisas importantes da aldeia, inscrições da história que ainda prevalecem no núcleo também histórico da aldeia, pormenores que eu sozinho nunca descobriria e que nos levam até ao tempo em que a freguesia foi habitada pela certa por uma comunidade judaica. Já tínhamos visto vestígios disso mesmo em Orjais e que são repetidos em São Vicente da Raia.

 

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Ao Domingos agradeço a simpatia e o ter-nos acompanhado na descoberta da aldeia e também o copo do “perigoso” néctar (que bem honra os Deuses Baco e Dionisios) que provamos na sua simpática adega, onde se improvisa com peças de um autêntico museu etnográfico, tudo que é necessário a uma boa adega onde não faltam as fotografias das velhas glórias do desportivo, do tempo em que os rapazes que vestiam a camisola era por amor e eram da terra. Foi uma honra ter conhecido o Domingos, que já passou pelo chaves antiga e que irá passar de novo com algumas fotografias da época e da sua colecção. Fica a promessa para o blog Chaves Antiga. Mas hoje vamos ainda continuar por São Vicente da Raia.

 

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Tempo de fazer o resumo e tocar um pouco da sua história, da aldeia e freguesia, porque afinal, a partir de São Vicente da Raia, no que resta de território do concelho de Chaves, termos que considerar toda a freguesia como uma freguesia única e singular, a única do concelho que começa a assumir contrates das aldeias do xisto que bem poderia estar integrada na reserva natural de Montesinho, que começa precisamente a partir do limite da freguesia.

 

São Vicente da Raia, freguesia com a área de 36,00 km2, 313 habitantes e 419 eleitores, é constituída pelas povoações de São Vicente da Raia, Aveleda, Oijais e Segirei todas situadas na vertente oriental da serra de Mairos. Todas as aldeias apresentam um aspecto pitoresco, agreste, serrano e simpático, de beleza também única, tal como as suas gentes, simpáticas e hospitaleiras e onde é fácil granjear amigos.  A freguesia faz fronteira com a Galiza, e há poucos anos atrás quase todas as suas terras eram escondidas entre matas profundas, não fosse um maldito incêndio vindo de terras galegas e o verde de hoje, poderia ser bem mais verde, outras rodeadas por largos campos de cultura que cada vez se cultivam menos.

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A freguesia e as suas aldeias terão desempenhado um importante papel de sentinela nas lutas travadas ao longo dos tempos para preservar a independência e integridade de Portugal. Muralhas naturais e vistas não lhes faltam, é o tal oceano de montanhas do qual gosto tanto de falar, mas principalmente de desfrutar. Paisagem que se fosse egoísta guardaria só para mim, mas que deve ser desfrutada por todos e a qual não hesito nem sequer por um breve instante a recomendar a qualquer amante ou não da natureza.

 

As produções desta região cada vez se perdem mais, mas nos seus bons tempos era rica e também afamada pelo mel, a cera, centeio, castanha, batata e criação de gado. Consta que em épocas passadas eram produtoras de carvão cujas cargas vendiam na cidade a particulares e ao Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Chaves.

 

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O seu povoamento remonta ao século IX, quando o Bispo Conde Oduário levou a efeito essa tarefa. Esse primeiro povoamento ocupou o antigo castro denominado de Cerca, actualmente destruído.

 

Está a cerca de 800 metros de altitude, no planalto do monte Sopilho. Nos seus arredores predomina o xisto, sendo mesmo a porta de entrada para as xistosas terras da Lomba que se estendem até Bragança. No fundo da serra corre o rio Mousse, (que dizem, pois não conheço – mais uma desculpa para futura visita) era ladeado de moinhos que actualmente se encontram desactivados e em ruínas.

 

Na aldeia de São Vicente da Raia temos a capela da Senhora do Rosário com a sua galilé coroada com uma cruz latina ladeada de elegantes pináculos. A Igreja paroquial, em estilo barroco muito simples tem uma interessante torre sineira do tipo galaico transmontano. A padroeira é a Senhora da Natividade. Além da imagem da padroeira, São Vicente que teria dado o nome à freguesia, está situado também no neo clássico altar mor da Igreja.

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E por terras de São Vicente da Raia vai sendo tudo. Só resta agradecer a um visitante de há longa data deste blog, que também é filho desta aldeia e freguesia de S.Vicente da Raia e de quem temos tido sempre o carinho dos seus comentários sempre que andamos por estas terras, que afinal de contas são a sua terrinha. Um amigo deste blog , que embora não conheça pessoalmente, é meu amigo também, nem que seja só pelas suas simpáticas e oportunas palavras que ao longo do tempo tem deixado nos comentários deste blog e, se alguma coisa me escapou ou disse de errado da freguesia, que além de ser a sua, tão bem conhece, faça o favor de me corrigir. Será mais um acréscimo à minha gratidão, Sr. M. Rocha.

 

Até amanhã, com mais uma aldeia e se passar por Chaves, hoje e amanhã, temos feira medieval, seja lá isso o que for, mas parece estar na moda. Quanto a pontes, para já só a romana é que está aberta ao trânsito pedonal. A nova ponte, ainda não está concluída e não vale a pena invadi-la à revelia, por vamos ter mais dias que chouriços para desfrutar ou não dela.

 

Até amanhã e desculpas por post tão longo, mas entre alguns devaneios, terras de São Vicente da Raia merecem tudo isto e muito mais.

 

 

 

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