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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Dorna - Chaves - Portugal

05.10.08 | Fer.Ribeiro

 

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Estamos em plena época de vindimas e como tal nem há como ter uma boa dorna para reunir todas as uvas a fim de as transportar para o lagar. Depois, é só pisar, aguardar que ferva e levante para de seguida repousar na pipa e aí, os deuses Dionisios ou Baco, encarregar-se-ão de para o ano termos ou não uma boa pinga, depende claro da disposição dos deuses.

 

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E por falar em vindimas e dornas, vamos até uma aldeia que dá pelo nome de Dorna, embora diga-se desde já que a dorna das vindimas nada deve ter a ver com o topónimo Dorna, mesmo porque a aldeia não é terra de vinho ou vinhedos, pois por lá, é mais castanha e da boa.

 

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Não sei qual é a origem do topónimo desta aldeia, nem encontrei escritos sobre o assunto. Claro que sempre posso inventar por aqui alguma coisa, mas só me surge duas origens possíveis, e ainda por cima são antagónicas. Uma seria derivar ou ter origem em adornar, topónimo que até nem me custa nada engolir, pois de facto, a Dorna adorna um pedaço de montanha nas encostas da Serra da Padrela, onde ela se localiza. Mas também poderia ser o contrário e ter origem precisamente em “a dor na” que lido junto como costumamos fazer ficaria “a dorna”. Claro que isto é pura invenção minha e sem qualquer fundamento que a apoie. Talvez popularmente haja uma explicação para o topónimo, e digo isto, porque acabei de receber um mail de um filho de Argemil da Raia em que me dizia que ouviu dizer a um ancião da sua aldeia que o termo (topónimo) Argemil, teria origem na junção das palavras “ares mil”, o que também nada me custa a acreditar, sabendo que o som que se ouve ao ler estas duas palavras seguidas é precisamente argemil. É a nosso velho modo de pronunciar (que ainda hoje se mantém) em metermos a pronúncia do j (leia-se gê) na ligação de algumas palavras, ao contrário do que fazem os Lisboetas e outros “mouros” que as ligam com um z.

 

Mas vamos até à Dorna, aldeia que pertence à freguesia da Póvoa de Agrações, freguesia tipicamente de montanha e que se distribui toda ela pela Serra da Padrela.

 

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O Acesso à aldeia, como demonstra uma elucidativa foto de uma placa que hoje vos deixo por aqui, faz-se a partir da nossa velha conhecida e por aqui famosa Nacional 314, a tal que serve uma grande parte das aldeias do concelho de Chaves, pelo menos aquelas que são tipicamente aldeias de montanha. Pois na tal elucidativa placa de estrada, cuja autoria desconheço, não falta informação, mas falta-lhe a meu ver o nome da Dorna para estar completa. Concerteza que lá foi nóia do pintor ou do designer, mas da minha parte já fiz a devida correcção.

 

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Hoje chegar à Dorna é fácil, mesmo sem GPS, e embora não conste da tal placa, outras há que indicam o seu caminho. Mas nem sempre foi assim, pois ainda recordo bem as primeiras vezes que tive de me deslocar à Dorna, há coisa de 20 anos atrás, uma autêntica dor de cabeça e uma verdadeira aventura para encontrar a aldeia, que confesso, antes de ter as estradas asfaltadas, as actuais, perdia-me sempre nos caminhos da serra, quer fosse por Vale do Galo, quer entrasse em terras de Valpaços (via Argemil). Hoje, com as novas ligações parece impossível perdermo-nos por lá, mas quem como eu não conhecia os caminhos, perderem-se por lá, era coisa natural. Mas sempre lá cheguei.

 

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Penso não estar enganado se disser que de entre as aldeias da freguesia é a que tem mais vida e onde ainda se encontra alguma juventude. Mesmo a sua localização geográfica, em relação as restantes aldeias da freguesia,  é mais aberta, com mais luz, pois já sai das encostas sombrias da serra para ocupar o seu topo, na transição para as terras de Valpaços e Carrazedo de Montenegro.

 

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Em termos de população residente os Censos de 2001 atribuíam à aldeia 80 habitantes. Pode não parecer muito, mas a aldeia também não é grande e resume-se praticamente a duas ruas, mas mesmo assim, em 2001 dos 80 habitantes, 12 tinha menos de 20 anos dos quais 4 tinham menos de 10. Isto são números de há quase oito anos atrás, pois segundo apurei na aldeia aguardam-se novos nascimentos para breve e ainda tem pelo menos 7 crianças em idade escolar, mas sem escola, pois são distribuídos e transportados diariamente para Adães, Vidago e Chaves. Coisas da modernidade e que até compreendo que economicamente e até socialmente (para as criança) não seja aconselhável manter escolas abertas com meia dúzia de alunos em diferentes níveis de escolaridade, mas também compreendo o difícil e até cruel que é para os pais e principalmente os alunos terem de se deslocar diariamente para outros locais e terem de percorrer 48 quilómetros diários, além das esperas de transporte, principalmente de inverno. É o tal nosso Portugal a duas velocidades, em que uns têm tudo e outros pouco mais têm que nada.

 

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Claro que assim é complicado manterem as nossas aldeias com gente, pois não é só a terra que não rende mas também as oportunidades e o ensino para os mais jovens também não existe. Não admira portanto que a tendência seja o abandono total das nossas aldeias, principalmente nestas aldeias mais distantes e de montanha onde o rigor dos dias, principalmente dos 9 meses de inverno e dos 3 de inferno e a falta de meios de subsistência que os prenda à terra, fazem com que todos partam. Vão se mantendo os mais idosos, que mesmo com as magras reformas, vão mantendo alguma vida nas nossas aldeias, habituados que estão aos sacrifícios de viver na montanha, onde ter um casa com tecto e comida para as refeições, ainda é uma graça que se tem de agradecer a Deus. Dizem que vivemos em democracia, ainda acredito nisso, mas não em igualdade de direitos, de oportunidades e de vida, no seu significado mais puro e simples. Viver no interior e na montanha, não só é difícil e complicado, como nos dias de hoje é quase impossível, mas mesmo assim há resistentes, que resistem a tudo, até à estupidez, comodismo e insensatez daqueles que desde Lisboa e outros poleiros mais provincianos, de cima das suas “indispensáveis” mordomias, dizem estar a governar para um país democrático, onde em principio todos deveriam ter as mesmas oportunidades. Mas claro que, como sempre,  sempre houve uns mais iguais que outros e o pessoal das nossas aldeias e do interior sempre foram e continuarão a ser os menos iguais. Agora que está na moda preservar tudo que está em vias de extinção, talvez fosse bom verem lá de baixo (Lisboa) ou seja lá de cima do poleiro, que o povo das aldeias do interior e da montanha, também podem ser considerados uma espécie em vias de extinção. Mas claro que ninguém se vai preocupar com meia dúzia de votos e com aldeias que nos números oficiais que se mostram à CEE e ao mundo, estas aldeias nem sequer existem, preocupados que andam com “Magalhães” e “TGV’s” para se mostrar ao mundo que Portugal é um dos “Grandes” quando na realidade, perdoem-me, nunca saiu da merda! Agora o que interessa são estatística e números, a dignidade das pessoas, pouco interessa, mas o que mais custa, é ver que muitos dos que andam por Lisboa e nas grandes cidades e nos corredores do poder, foram “estudados” com o suor desta gente humilde, cuja humildade é tanta, que até têm orgulho nestes estupores.

 

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Bem queria deixar-me destes lamentos, mas não o consigo, pois viver numa aldeia, no interior de Trás-os-Montes, em plena montanha, é mesmo e só para resistentes, que todos facilmente esquecem ou simplesmente ignoram e nem sequer estão interessados em conhecer. Um povo que é rude mas puro, hospitaleiro e bom mas que também sofre a sua revolta, embora em silêncio.

 

Continuo a dizer que de nada vale continuar a bater no ceguinho, eu sei-o, mas pelo menos fica o registo de que em 2008, em plena democracia num país que até se diz industrializado, as aldeias do interior e de montanha continuam na época da candeia, embora com electricidade, mas até esta só serve para iluminar e aumentar o contraste das diferenças do Portugal dos TGV’s e dos Magalhães e o Portugal moribundo e abandonado onde nada acontece e onde até as dores de barriga e outros males ainda se tratam com chás, pois até o direito à saúde lhes fica distante e caro. Claro que não há pingo de vergonha que seja em quem além de saber que isto ainda é assim, faz de conta que nada disto existe, tudo em nome da modernidade.

 

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Mais uma vez peço também desculpas a aldeia convidada de hoje, a Dorna, que embora também sinta na pele estes males, serviu de pretexto para a minha ou a nossa revolta.

 

Pois quanto à Dorna vai estando tudo dito. Aldeia que ainda vai vivendo do que a terra dá ou a custo ainda se colhe naquilo que oferece, com um agricultura de subsistência mas importante no castanheiro e na castanha, valha-lhes ao menos isso, quando os anos são bons e ainda vai havendo mãos para as apanhar, pois quando acabarem as mãos de trabalho, também não deve haver problema, cortam-se os castanheiros e vende-se a madeira, mesmo que sejam centenários.

 

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Quase a terminar mas quero ainda realçar que em termos de beleza, a Dorna, também tem o seu encanto, não só na paisagem de montanha que graças à sua altitude domina vistas largas, mas também ainda um pouco no que diz respeito ao seu casario típico das construções de granito que ainda vai mantendo numa das suas ruas. Quero realçar também a simpatia das suas gentes e o seu acolhimento onde ainda há gente que se lamenta, claro, mas que gosta da sua terrinha e têm sempre a adega aberta para um copo e, uma aldeia onde alguns até trespassam este gosto e por sua conta fazem  no pátio da casa um autêntico museu etnográfico onde reúnem peças de vivências do passado em desuso. Peças cada vez mais raras pois a maioria,  por umas cascas de alho, já há muito que foram parar a antiquários das cidades, peças cada vez mais escassas e que bem poderiam enriquecer um museu etnográfico municipal num espaço nobre onde se desse a conhecer a vivência passada das nossas aldeias. Seria bem mais proveitoso do que andar a imitar feiras medievais interrompidas por limusinas e “enriquecidas” com escuteiros e consultas de tarot. Ainda se ao menos fossem ciganos ou bruxas e curandeiras, ainda vá lá. Mas enfim, também vamos tendo aquilo que merecemos, pois também toda a gente vive conformada.

 

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Também eu me conformo com o escrito de hoje e está na hora de dizer – “bem, bou-me” com um até amanhã de regresso a mui nobre cidade de Chaves, a nossa terrinha, também de resistentes e de outros que partiram e que a levaram no coração. É assim a terrinha.

 

Fica também hoje concluída a minha “incursão” pela freguesia de Póvoa de Agrações, pois quer a Póvoa, como Agrações, hoje a Dorna, Fernandinho e Pereiro, já todas tiveram aqui o seu post alargado. Mais uma freguesia com direito a mosaico fotográfico que oportunamente passará por aqui para o remate final.

 

Agora “bou-me” mesmo, Até amanhã!

 

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