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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Oucidres - Chaves - Portugal

11.10.08 | Fer.Ribeiro

 

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Mais uma vez vamos até terras do grande planalto partindo de Chaves através da famosa Nacional 103 que liga Braga a Bragança, uma via que sem dúvida alguma é estruturante (ou deveria ser) e que liga precisamente terras do litoral ao nosso Portugal mais profundo e mais esquecido pelos senhores de Lisboa, mas também por isso, talvez sejam as mais puras e as melhores de Portugal – bairrismo à parte.

 

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Digamos que esta tal via que é estruturante na ligação do interior do nordeste transmontano, que deveria ser estruturante a sério e não uma ligação de estrada secundária nacional, até já nem é descoberta ou invenção dos tempos actuais, pois já há 2000 anos os romanos fizeram deste traçado uma das suas principais vias pois era mais coisa menos coisa que por este traçado passava uma das “Vias Augustas”, mais precisamente a Via Augusta XVII uniam Asturica Augusta (Astorga) a Bracara Augusta (Braga). Sendo então uma das mais importantes rotas romanas de comunicação da antiga Hispânia.

 

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Oucidres não ficaria muito distante desta Via Augusta, embora esta, em relação à Nacional 103, a partir de Chaves fizesse um pequeno desvio por Valpaços e Mirandela para depois retomar novamente o traçado da actual Nacional 103 a partir de Vinhais.

 

Um pequeno aparte antes de entrarmos propriamente em Oucidres, que também tem a sua história, embora não ligada à Via Augusta. Mas um aparte para demonstrar a importância da Nacional 103 que atravessa o concelho de Chaves de lés-a-lés e que na sua totalidade é uma das estradas (estou certo disso) que mais belezas naturais atravessa em Portugal.

 

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Oucidres é sede de freguesia e fica a 15 quilómetros de Chaves. Aldeia localizada no grande planalto de Chaves, o planalto da batata (da boa, da melhor). É uma das freguesias limítrofes do nosso concelho, sendo também uma das freguesias que mais área tem em território no concelho de Chaves, com os seus 14, 55 Km2  e que confronta com as freguesias de  São Julião de Montenegro, Águas Frias, Bobadela e Concelho de Valpaços. É também uma das terras de Monforte, das tais que circundavam o Castelo de Monforte.

 

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Grande em território mas nem por isso em número de aldeias e população, pois quanto a aldeias Vila Nova de Monforte e Vilar de Izeu lhe pertencem e quanto a população tem actualmente 236 habitantes residentes (a totalidade da freguesia segundo Censos 2001), ou seja mais uma das freguesias que conhece bem o termo “despovoamento”, pois em apenas 20 anos perdeu quase metade da população (430 habitantes em 1981). O mesmo de sempre. Estranhar seria mesmo a aldeia ter muita população, habituados que estamos à morte lenta das aldeias de montanha (embora esta até seja do planalto). Realce-se que estou a falar de população da freguesia, pois se nos cingirmos apenas à aldeia de Oucidres, a sede de freguesia, esta conta com apenas 94 habitantes residentes (Censos 2001).

 

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Ainda ontem em conversa com amigos, técnicos ligados à construção, recordávamos o grande boom! das construções de moradias de emigrantes, há 30 anos atrás, nas suas aldeias. A par disso, as populações ansiavam por água canalizada, saneamento, vias de ligação pavimentadas e construção nova de algumas escolas, arranjos e alargamento de outras existentes… Isto há coisa de 30 anos atrás. Hoje em dia, todas as aldeias têm acessos pavimentados e a grande maioria tem água canalizada e saneamento básico, as escolas foram construídas, arranjadas e ampliadas para agora estarem fechadas e abandonadas e, as casas dos emigrantes sempre de persianas corridas, fechadas e não habitadas, resumindo-se agora o anseio da pouca população que existe, ao alargamento dos cemitérios, à construção de casas mortuárias, havendo outras que anseiam por lares de terceira idade. Penso que não será preciso dizer mais nada e tudo isto graças (continuo a insistir) às más políticas dos senhores de Lisboa e aos seus imitadores de província em quererem concentrar tudo nas cidades, principalmente nas grandes cidades, deixando moribundo todo o nosso interior sem qualquer política que lhes garanta a sustentação e a permanência da população nos seus locais de origem. Estou farto de dizer isto e digo para mim mesmo que é a última vez que falo do assunto, mas

 

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na próxima visita a uma aldeia, a revolta, ou seja a realidade, volta ao de cima, tanto que agora o que se exige para as aldeias até já nem são politicas acertadas, pois já são tardias e algumas delas já entraram num processo de não retorno no caminho do despovoamento total (daqui a 5 ou 10 anos indico-vos algumas), agora o que se exige mesmo, tal como na saúde, são os cuidados paliativos para a população que ainda lhes resta, e não ignorá-los com se eles não existissem. Mas claro que os de Lisboa andam é preocupados com o TGV os aeroportos, pontes sobre o Tejo e outros projectos megalómanos, mesmo que esteja mais que provado que são um mau negócio, um luxo para o qual todos somos obrigados a contribuir. Não admira que assim haja das tais crises financeiras e económicas, porque esses artolas estão mesmo convencidos que é o sonho e os números (mesmo que artificiais) colocados num papel, que comandam a vida. Há muita realidade esquecida e escondida por aqui, no interior e nas aldeias, que é feita de gente, que em princípio teria os mesmo direitos que a restante população, mas agora já nem os princípios são respeitados, e ideais, onde é que eles param, promessas, ainda as há, mas já todos estamos fartos de saber que promessas de político não é para cumprir, coisa que além de provada agora parece estar instituída.

 

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Mas mesmo assim o Sr. “Engº” Sócrates continua a vir amiúde por Chaves em visita e a inaugurar coisas (curiosamente as duas últimas foram lares de idosos ou “negócios com idosos”) que, com tantas vindas à nossa terrinha, até parece que tem Chaves no coração ou promessa (daqui por uns dias está cá outra vez, desta, para inaugurar alguns luxos de encher olho para votante ver). Só tenho mesmo pena é que nas aldeias já não haja braços jovens, nem carros de bois nem estadulhos e que os pouco resistentes vivam conformados, pois como ainda há tempos me dizia um dos resistentes: - “agora graças a Deus temos tudo, televisão e frigorifico…agora vivemos bem” e ainda conseguem amealhar uns tostões para uma Santa Casa qualquer lhe chupar nos seus últimos dias de vida. Puros, humildes e sempre agradecidos, que se adivinham nas palavras tempos bem difíceis que já passaram e que esperemos por bem, não sermos obrigados a passar novamente. Tudo é possível e os últimos dias e as novas políticas de modernidade, não são nada animadores… pás isto são contas de outro rosário, ou talvez não, pois pelos vistos o rosário é comum a todos. Globalização, é um termo que ainda se vão arrepender de terem inventado, o tempo o dirá…

 

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Peço desculpas, mas não me consigo conter, às vezes até chego a pensar que isto é uma nóia minha, um pesadelo inventado por mim, mas depois de entrar num aldeia, andar por lá quase uma hora e não ver uma única alma viva, dou-me conta que o pesadelo é bem real.

 

Mas não é o caso de Oucidres, pois no Domingo à tarde passado ainda consegui ver um carro a passar, um tractor a regressar dos campos, 5 pessoas e muitas galinhas.

 

 

Mas regressemos ao resumo do que há a dizer sobre Oucidres (freguesia e aldeia),  e também uma breve abordagem daquilo que é conhecido da sua história.

 

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Oucidres, freguesia com a área de 14,55 km2, uma população de 236 habitantes e 296 eleitores; constituída pelas aldeias de Oucidres, Vila Nova e Vilar de Izeu.. Assenta a aldeia nos cumeados da montanha, a cerca de três quilómetros do castelo de Monforte e tem como produções principais a batata, o centeio, castanha e pastos. O topónimo de Oucidres aventa o Padre João Vaz de Amorim que poderá proceder de um nome próprio de indivíduo (a falta de outra explicação ficamos com esta). A aldeia, situada no alto da serra, domina todo o vale aprazível de Tinhela já em terras de Valpaços, é por aqui que se faz a tal transição das terras frias do Barroso para a denominada terra quente, uma transição que é apenas uma ilusão, pois Oucidres também conhece o que é o rigor dos frios de inverno e graças à sua localização bem lá no cimo das montanhas. Estende-se ainda a freguesia de nascente para poente até aos confins de S. João da Castanheira, outra transição de terras de Monforte para Terras da Castanheira como quem sai (ao lado) de terras de Valpaços para entrar em terras da raia e de Vinhais.

 

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Oucidres foi cabeça de Comenda da Ordem de Cristo e do Padroado Real. Possui uma imponente Igreja Matriz, da devoção a Santo André. Tem uma só nave e três altares em belíssima talha barroca com lindas colunas salomónicas e arcadas muito trabalhadas. A raiz da construção deverá ter sido românica, sofrendo posteriores transformações, uma das quais em 1698 conforme consta de uma epígrafe no muro da capela mor.

 

Ao longo do arruamento da aldeia, de um e outro lado, situa-se o casario, ainda de construção tradicional em granito de onde sobressaem alguns edifícios, também em granito, de arquitectura rígida. Um deles, a casa que pertenceu a Jacinto Morais, pai do Dr. João Morais, conhecido médico de Chaves já falecido, foi adaptada a Casa de Turismo de Habitação Rural, pelos descendestes da família. É ao que dizem uma bela unidade turística com equipamentos de muito interesse, dizem, pois não conheço pessoalmente, aliás o que esta unidade deixa ver é mesmo o alçado principal da construção que confronta directamente com a rua principal da aldeia, mas se o interior foi sujeito ao mesmo tratamento do exterior, poderemos dizer que teve um tratamento interessante e cuidado.

 

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No centro da aldeia ergue-se ainda um interessante cruzeiro a umas dezenas de metros deste uma bela capela, conhecida por Capela do Larouco, de um só altar e com a frontaria ocupada por uma galilé. A padroeira é a Senhora do Rosário. É nesta capelinha que segundo dizem (também não conheço) guardam umas santas relíquias que o povo diz terem grandes virtudes contra a doença da raiva ou hidrofobia. A designação Larouco poderá indiciar a cristianização desta divindade pagã.

 

Possui ainda uma interessante fonte de mergulho.

 

No espaço das terras de cultura eleva-se uma pequena eminência a que o povo dá o nome de Alto da Torre (que também não conheço) o que poderá indicar que ali poderia ter existido uma fortaleza medieval.

 

Não sei se propositadamente mas vou deixando nas aldeias ainda uma ou outra coisa para conhecer, talvez seja o pretexto para por lá voltar numa terceira passagem em abordagem mais pormenorizada daquilo que lhes faz alguma história.

 

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E por pela aldeia de Oucidres é tudo, falta ainda uma aldeia da freguesia, que exige ainda mais uma deslocação por terras da freguesia para ficarmos a conhecer mais um pouco de Vila Nova, que suponho também ser de Monforte, a última aldeia da freguesia a passar por aqui para ter direito a mosaico fotográfico.

 

Até lá, entretanto até amanhã com mais uma aldeia do concelho.

 

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