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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Roriz - Chaves - Portugal

18.10.08 | Fer.Ribeiro

 

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Os dias já não são o que eram, estão mais pequenos e a luz é traiçoeira. Chegamos a uma aldeia no início da tarde e quando damos conta, já está a anoitecer, principalmente quando as aldeias são convidativas para uma visita mais demorada, para dois dedos de conversa aqui, outros ali, o apreciar dos pormenores, ouvir alguns lamentos, mas também descobrir novidades e, a da nossa aldeia de hoje, são os fios laranja.

 

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Ainda antes de entrarmos em Roriz, a nossa aldeia de hoje, deixem-me que lhes explique a minha nóia pelos fios, os azuis, os melhores. Nóia essa que tem feito com que nos últimos fins-de-semana nesta rubrica das aldeias, deixe sempre uma foto em jeito de elogio ao fio azul – o melhor.

 

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Ando nesta coisa de fotografar as aldeias já há muitos anos. Claro que antigamente na era do analógico, com as minhas saudosas Minoltas, tínhamos que pensar muito bem antes de apontar a objectiva ao que quer que fosse, não porque fosse complicado, mas pelo custo de cada click. Com a era digital tudo fica mais facilitado e até nos podemos dar ao luxo de fotografar tudo quanto nos aparece à frente, de várias formas e feitios, quase sem tirar o dedo do botão de clickar, ainda com a vantagem final de não termos de mandar revelar, ampliar, esperar, pagar, e quase sempre a casa de fotografia não ter papel ou afinação da maquinaria para o nosso gosto, além do P€SO (duplo), pois numa semana, eu e um amigo numa viagem breve por Espanha, França e Suíça, muito contidos nos clicks, conseguimos tirar 13 quilos de fotografias.

 

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Tudo isto a respeito do fio azul – o melhor, pois nestes últimos 4 anos mais intensos de fotografar as aldeias na era digital, comecei-me a aperceber que na maioria das fotografias apareciam num cantinho qualquer ou mesmo em primeiro plano os fios azuis – os melhores. E são mesmo bons, servem para tudo. Fecham portas, portões, cancelas, remendam vedações, fazem vedações, amarrações, pendurações e são de perdurações. Resistentes e não perdem a cor. Sem dúvida os melhores e que todos utilizam. Garanto-vos que não há uma única aldeia do concelho onde não haja fios azuis, aos montes.

 

Ultimamente tenho vindo a dar conta que os fios laranjas também já se começam a infiltrar aqui e ali, timidamente. Mas em Roriz o fio laranja surpreendeu-me pela quantidade, tanta, que faz verdadeira frente ao fio azul – ainda o melhor. Mas a julgar pelas aplicações do laranja, também parece não ser mau.

 

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Em bem vos dizia que tinha uma nóia pelos fios azuis – os melhores. Mas deixemos os fios de parte e amarremo-nos ao que interessa: Roriz.

 

Lembrei-me que há uns tempos atrás já tinha feito uma abordagem tímida a Roriz, com apenas uma foto e alguma da sua história. Para não ser repetitivo, como se a história não fosse repetitiva, pesquisei no blog e nada. Nada encontrei. Alarguei a pesquisa ao Google, e de entre a tinta roriz, Roriz freguesia do concelho de Barcelos, lá consegui encontrar o meu post, e espantem-se, pois não o encontrei no meu blog mas reproduzido num site francês, suponho que reproduzido por um filho da terrinha. Obrigado a ele, seja ele quem for, pois poupou-me algum trabalho.

 

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Dizia então assim:

 

Chaves Rural - Roriz

Il y a 380 jours

 

Claro que Roriz não é só isto e, até tem algum casario nobre de fazer inveja e também casario novo com todas as comodidades de hoje (parabólicas e micro-ondas incluídos), mas tem também muito deste casario tradicional de pedra, madeira e telha (quase só isto) e, é este o casario que me atrai nas aldeias. Farto de ver betão e antenas, estou eu a semana inteira.

 

Geralmente, os das aldeias, menosprezam e não dão qualquer tipo de valor e importância a este tipo de casario tradicional. São geralmente construções destinadas a cortes, palheiros,  arrumos, e adegas. Com interior de chão térreo ou,  no caso das cortes, com chão em palha e tojos para fazer ou curtir fertilizante (estrume) para as terras de cultivo. Claro que nos tempos de hoje com a mecanização das alfaias agrícolas a maioria deste casario está dotado ao abandono ou em ruínas, mas mesmo assim é ele que ainda vai fazendo a tipicidade das nossas aldeias rurais e que atrai o olhar interessado e diferente dos apreciadores daquilo que é genuíno nas nossas aldeias. Eu sou um deles.  

 

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Mas vamos até Roriz.  

 

Roriz é aldeia e freguesia (única aldeia da freguesia) com 7,23 Km2, dista 23 quilómetros da cidade de Chaves e fica em plena montanha (terras da castanheira) e faz fronteira com as freguesias de Travancas, S.Vicente da Raia e Cimo de Vila da Castanheira. Segundo o censos de 2001, possui como população residente 211 individuos, 85 famílias e 159 alojamentos. Lendo os números, temos 2,5 pessoas por família e metade dos alojamentos não são habitados, ou seja também sofre do envelhecimento da população, mas mesmo assim, é uma aldeia que ainda está longe da desertificação (1)  e muito graças à riqueza das terras de cultivo, (desde os legumes, à batata, cereais, castanha, e outra fruta, entre outros e em abundância) e claro que também com alguma pecuária.  

 

Quanto ao topónimo Roriz, dizem os entendidos que provirá de Rodericus, ou de uma Vila Roderici, existente em 968. Sabe-se que em 1258 já a designação da aldeia era Roriz.  

 

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A padroeira da freguesia é a Nossa Senhora da Conceição que, suponho por distracção, nada pode fazer nas lutas da restauração quando (segundo reza a história local) a aldeia foi arrasada pelos espanhóis, ficando de pé apenas duas casas. Em retaliação (ainda segundo a história ou lenda) os homens de Roriz juntaram-se a outros homens de outras localidades vizinhas e foram combater duramente, os espanhóis, na Cota de Mairos, onde os venceram. A partir desse momento o alto onde ocorreram os acontecimentos passou a designar-se por Alto da Escocha (suponho que de escochar ou seja: limpar, espatifar, matar, limpar o sebo, neste caso ao espanhóis).  

 

No lugar da aldeia denominado de Castelim, há vestígios da civilização castreja e diz o povo que aí viveram os mouros. A cerca de três quilómetros existe o denominado Castelo do Mau Vizinho (referenciado pelos monumentos nacionais), que também poderá ter sido um castro romanizado, situado já na freguesia da Castanheira, na margem do rio Mouce, afluente do rio Rabaçal.  

 

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E para quem não conhece mas quer conhecer e visitar a aldeia, recomendo este trajecto: Chaves, Lameirão, Faiões, Assureiras, Águas Frias, Bolideira (abandonar a E.N.103), seguir em direcção a Dadim, Cimo de Vila e no largo principal virar à esquerda, que logo a seguir é Roriz. De regresso, bota pela estrada nova em direcção a S.Cornélio, desce-se a Mairos (pela estrada do Padre Delmino), Curral de Vacas, Vila Verde da Raia e novamente Chaves (via Outeiro Seco ou Stº Estêvão – tanto faz). Um passeio interessante para o dia de hoje ou amanhã (para residentes) ou a ter em conta para quem pensa visitar-nos.   E por hoje é tudo, mas amanhã há mais uma aldeia do nosso concelho.  

 

Até amanhã!”

 

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Isto foi o post de “Il y a 380 jours”, ao qual não retiro nada, antes acrescento umas coisinhas e uma correcção notada com (1) no texto onde eu dizia : “mas mesmo assim, é uma aldeia que ainda está longe da desertificação” E de facto está longe da desertificação, mas não era propriamente a desertificações que eu me queria referir, mas a despovoamento, que não é bem a mesma coisa, embora a má influência das televisões e de se acreditar como sendo correcto aquilo que os jornalistas e outros por lá dizem, muitas vezes referimo-nos a desertificação das aldeias, quando, antes pelo contrário, as a aldeias estão a ser invadidas de vegetação e muito verde de mato e tudo graças ao seu despovoamento. Não sou purista nem me estou a armar em conhecedor da língua portuguesa, muito longe disso e, inclusive até dou erros, de composição e às vezes até ortográficos, talvez graças ao ambiente do nosso português falado por cá, como o “hadem cá bir queu conto-lhe uma istória” Por isso, deixo hoje por aqui, que se calha até sou a favor do novo acordo ortográfico e, digo se calha porque não o conheço, pois essas coisas são debatidas pelos intelectuais de Lisboa sem darem conhecimento ou justificações ao pobo (sem aspas), mas seja como for, pela certa que peca por defeito e pela certa que ainda não é desta que vão trocar os Vês pelos Bês. Tou mesmo a ber quinda num é desta. Quanto ao H no início das palavras, já há muito (excepção para este há) que não faz falta nenhuma, só atrapalha. E para os eruditos de Lisboa que defendem o não ao acordo ortográfico, só lhes lembro (cá debaixo da minha ignorância mas é assim que penso) que se não fosse o evoluir da língua para a simplificação, ainda hoje estávamos todos a falar em latim.

 

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Cá por mim, na escrita lá vou tendo algum cuidado, principalmente porque me irrita o Word estar sempre a sublinhar-me as palavras a vermelho, mas na fala, não prescindo do “adem cá bir” como não prescindo de uma boa bacalhoada assada, com pimentos e azeitonas, regado com bom binho tinto, daquele mesmo bô, onde o cuidado a ter é mesmo e só com a argana do bacalhau e não engolir as carabunhas das azeitonas”.

 

Mas regressemos a Roriz, que como já deram conta nada tem a ver com a tal tinta Roriz que até dá bom binho.

 

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Voltemos ao estar longe do despovoamento e do envelhecimento da sua população. Dados recentes a que tive acesso de dados antigos, como o censos de 1981, e outros dados do Censos 2001, como idades por escalões etários, levam-me agora a dizer, sem hesitar, que Roriz também está na rota do despovoamento, embora bem mais atenuado que nas aldeias mais sofredoras de despovoamento e ainda com gente e algumas crianças nas ruas. Pois desde 1981 para 2001 perdeu mais de metade da sua população, ou seja dos 508 habitante de 1981, passou para 211 em 2001. Estou curioso por ver os dados de 2011, para dar razão (que já dei) ao Medina Carreira (intervenção de ontem na TVI) e às más políticas praticadas pelos nossos governantes (partidários) e centralistas subjugados que estão aos senhores do grande capital. O mesmo se passa com os imitadores caseiros, também subjugados a que tem capital e que está bem à vista no nosso concelho, também com o crescimento desorganizado da cidade, vendido aos empreiteiros imobiliários, às grandes superfícies e por aí fora, onde nem sequer respeitam ou respeitaram a nossa história centenária e até milenar, enquanto as nossas aldeias, estão moribundas. Tal como dizia Medina Carreira, o mal em política é não se pensar a longo prazo porque não rende votos nem garante o poder, além do mal que mina logo todos os partidos e seus candidatos pela raiz – O financiamento das campanhas políticas, onde o grande capital (com imitações caseiras) também aposta (tal como na bolsa) com mais dinheiro onde há mais probabilidade de o ganhar. Está à vista de todos, todos sabem como as coisas funcionam, mas ninguém levanta o véu … pois quase todos têm um filho para empregar, umas coisas para vender, umas cunhas para meter, uns favores a pedir ou uma ou outra coisa a ganhar com a situação, ou seja, com essa grande mentira e deturpação da democracia em que todos pensam ganhar alguma coisa, mas todos perdemos. Está à vista!

 

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Nas aldeias, nos últimos 30 anos, construíram e pavimentaram-se estradas e caminhos, dotaram-se de água canalizada e saneamento básico, electricidade e telefones e até construção e recuperação de escolas, a maioria das obras em troca de garantir votos para mais quatro anos de poder e, que não me levem a mal o pessoal das aldeias, mas a maioria foi investimento inútil, pois esqueceram-se das políticas que prendem as pessoas as aldeias, políticas agrícolas, florestais e pecuárias rentáveis, que ocupassem os jovens mas que lhes desse também rendimento e a garantia de uma vida economicamente digna, em vez de serem obrigados a emigrar ou trocar as aldeias pelas cidades.

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E fico-me por aqui, porque Roriz, tal como as outras aldeias do despovoamento, não são culpadas pelas políticas dos políticos das cidades, antes pelo contrário, são vítimas deles. Um elogio para os presidentes de junta, autênticos resistentes que são obrigados a mendigar nos corredores do poder para manterem algumas dignidade aos seus e cujas prioridades dos últimos tempos, são os aumentos dos cemitérios e a construção de casas mortuárias. Isto diz tudo.

 

 

Até amanhã, com mais uma aldeia.

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