Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade

24.10.08 | blogdaruanove

 

 

 

Hoje lembrei-me dos gerânios.

 

Durante um ano, em que as minhas leituras juvenis foram de Kafka a Júlio Dinis, com os mais inesperados autores de permeio, andei intrigadíssimo com estas flores.

 

Encontrava-as com frequência nos romances e novelas da nossa literatura dos séculos XIX e XX. Para minha exasperação, contudo, nunca as encontrava em Chaves.

 

Eu bem perguntava e as pessoas bem se esforçavam por ser simpáticas e prestáveis, mas nada! Ninguém das minhas relações me sabia dizer onde poderia encontrar gerânios...

 

A minha ansiedade crescia, enquanto eu fantasiava já sobre o misterioso aspecto das flores, tão comuns na literatura mas tão desconhecidas no dia-a-dia de amigos e vizinhos. Uma raridade a que Chaves não tinha direito...

 

Certo dia, enquanto conversava com forasteiros na sacada da casa de minha avó, decidi indagar se na terra deles haveria gerânios. A questão vinha a propósito. Comentava eu algumas diferenças entre as expressões, e o léxico, do norte e do sul do país, divertindo-me com essas nuances...

 

Uma das minhas observações favoritas era a de que as pessoas do sul pareciam ter sempre todo o tempo do mundo, enquanto as do norte pareciam andar sempre apressadas.

 

Intrigadas, as pessoas acabavam sempre por fazer a pergunta inevitável, e eu por dar sempre a mesma resposta divertida. "Como é que podes concluir isso partindo apenas do léxico ou de expressões particulares?", perguntavam, desconfiadas.

 

Eu, então, despachava-as. "Fácil. Se perguntares as horas a alguém lá de baixo, poderás certamente ouvir  dizer - dez para as sete, por exemplo. Aqui não. Aqui ninguém te sugerirá que ainda falta muito para as sete... Sugerir-te-ão até, muito compenetradamente, que já são sete horas. Sete menos dez..."

 

Ora, depois de lhes ter dado o tratamento habitual, decidi ser mais simpático, permitindo-lhes que se exibissem, também, ou que pudessem ser prestáveis perante a minha ignorância. E voltei à carga com os gerânios.

 

Naquela sacada existiam, desde que eu me lembrava, uns vasos com sardinheiras, cujas flores, brancas, rosas ou vermelhas, me encantavam. Não me agradava muito era o cheiro da planta. E então avancei a questão. "Lá na vossa terra haverá gerânios? Era uma planta que eu gostaria de colocar aqui, para substituir o cheiro desagradável das sardinheiras..."

 

Mal tinha eu acabado a frase, já eles se riam a bandeiras despregadas!

 

Entre risos de mofa, um deles lá me foi dizendo - "Haver, há. Só que não sei se cheirarão muito melhor que as sardinheiras... É que, sabes, as vossas sardinheiras são os nossos gerânios..."

 

1 comentário

Comentar post