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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Polide - Chaves - Portugal

08.11.08 | Fer.Ribeiro

 

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As couves são galegas, as oliveiras quase universais, a pedra é de granito. À primeira vista, para distraídos, esta imagem poderia ser de qualquer sítio ou parte do mundo, mas mostrem-na a um transmontano, ou melhor ainda, a um habitante de Polide, que ele (se calha) até vos diz qual é a idade da oliveira e há quantos anos aquele muro foi erguido ou quantos caldos já fizeram aquelas couves.

 

Claro que só um distraído é que não sabe que é com a couve-galega que se faz o melhor caldo verde que por cá nos delicia, ideal para assentar estômagos nesta época do ano em que a sardinha e a castanha vão à brasa, regadas com bom tinto e amaciadas com uma boa jeropiga. Da oliveira sairá a azeitona que irá dar o precioso azeite para regar esse mesmo caldo verde. Quanto à pedra, é pedra que nos faz as casas, até as mesas e cozinhas, a mesma que separa e reparte os campos, a mesma que é resistente ao calor, à chuva, ao vento, ao frio e ao gelo, quase tão resistente como os resistentes das nossas aldeias flavienses que resistem a todas as intempéries da vida e tal como as pedras, estão nas nossas aldeias porque fazem parte delas.

 

Hoje vamos até Polide, uma dessas aldeias de Chaves onde e, só mesmo os resistentes como as pedras resistem.

 

Polide pertence a terras da castanheira, mais propriamente à freguesia de Sanfins da Castanheira, fica a 28 quilómetros de Chaves, ali para aqueles lados onde começa o mar de montanhas, quase em terras de Valpaços e bem próxima de terras de Vinhais.

 

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Quanto à gente naquela aldeia, sei que a há, há vestígios dela e sente-se a sua existência, não nas duas ou três casas novas que estão fechadas e que nem sequer será necessário perguntar de quem são, mas nas mais antigas, nas casas do granito, poucas também, casas dos resistentes que ainda cultivam as hortas e os campos mais próximos da aldeia e que à noite guardam o gado que por lá vi. Umas chibas, um bode, algumas ovelhas que concerteza têm dono. Um tanque da aldeia sem água diz tudo. Diz que faltam mulheres para lavar nele, diz que faltam crianças a quem é preciso tratar da roupa. Mas nem só a água falta no tanque, também falta gente na rua e vida na aldeia, que sempre foi pequena, mas que agora sem gente ainda o é mais.

 

Nestes últimos três anos, fui três vezes à aldeia, uma vez por ano, percorri toda a única rua de ponta a ponta, ou seja, desde a entrada da aldeia até ao tanque e cemitério e três vezes vim embora sem ver uma única alma viva. Não fosse o bode que seguia todos os meus movimentos e as ovelhas na entrada de Polide, que pela certa nem são da aldeia, e diria que na aldeia não existia ninguém. Mas existe. Uma das provas disso mesmo, são as tais construções recentes e uma delas, penso que ainda em obras, o que nos garante que a aldeia, pelo menos nos próximos anos, não verá o seu despovoamento total.

 

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Mas vamos aos números, pois as matemáticas dos números não enganam ninguém e concerteza que falarão melhor que eu.

 

Segundo os Censos de 2001 Polide tinha 16 habitantes residentes, 8 homens e 8 mulheres, o que em princípio daria 8 casais, mas há que ver todos os números, pois desses 16 habitantes, por incrível que pareça, 3 deles tinham menos de 13 anos o que elimina (matematicamente falando) pelo menos 2 casais, o que nos daria na melhor das hipóteses, 6 casais em Polide, dos quais 5 elementos já tinham em 2001 mais de 65 anos. Contra números não há argumentos, o que faz dos actuais habitantes de Polide, verdadeiros resistentes ao despovoamento mas que nos leva mais uma vez à velha questão (neste blog) do esquecimento a que as aldeias estão dotadas por parte das políticas e dos políticos que ainda não deram contam que não basta asfaltarem-lhe as estradas, canalizar-lhes a água ou dotar as aldeias de saneamento básico, partindo do principio que electricidade e telefone já por lá existe. Aliás estas são infra-estruturas básicas que qualquer aldeia deve ou deveria ter para se poder viver com o mínimo de dignidade, mas ao mesmo tempo gastam-se dinheiros públicos (e muito) em infra-estruturas que não têm qualquer razão de serem gastos se não houver uma política paralela para garantir a vida futura nas aldeias, e para isso, é necessário que essas políticas, além de existirem, seja acertadas.

 

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Políticas agrícolas, pecuárias e florestais, associadas também à tradição, usos e costumes, onde cabe também o turismo rural associado ao histórico e religioso, às pequenas indústrias artesanais e de qualidade com dinamização do comércio que lhes está associado (mel, compotas, queijos, fumeiro, o presunto de Chaves que só já tem a fama, as couves, as batatas, a castanha, a lã e os seus derivados, o artesanato) enfim, produtos da terra, os tais saberes e sabores da terra que tanto se tentam propagandear e fazer deles uma bandeira, mas que na origem não tem qualquer apoio ou projecto pensado e onde em termos políticos, tudo o que se faz, é a pensar na cidade e à volta da cidade, num convite constante e enganador, para a população das aldeias descer à cidade. Aposta-se ou tem-se apostado sempre em políticas erradas, onde se sonha com hipotéticos investimentos e empresas vindas de fora, tudo pensado a curto prazo, a 4 anos apenas, quando nós temos uma mina de ouro que não sabemos explorar: a qualidade dos nossos saberes e sabores da terra e tudo que lhes está associado.

 

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E agora um recado para os que ultimamente (com o aproximar das eleições) vêem neste blog política partidária. Pois já atingi uma idade e maturidade política em que as politiquices partidárias nada me dizem, e que no resumir daquilo que começa a ser popular e comum, também para mim os políticos são todos iguais e nos quais, também já eu deixei de acreditar, pelo menos enquanto o sistema de politicas feitas a 4 anos se mantiver. No nosso concelho a ausência de políticas para o seu desenvolvimento já não é de hoje e,  se antes do 25 de Abril éramos um concelho esquecido, após o mesmo, não deixou de ser diferente e se analisarmos a frio e sem palas a actuação dos nossos políticos locais (dos dois partidos do poder autárquico), em nada diferem ou divergem. Politicas feitas para 4 anos, sem que nenhuma seja a pensar no nosso concelho real e rural que ele é, políticas não sustentadas, politicas sem horizontes de futuro a médio e longo prazo não existem por cá. Tudo é feito na contabilização imediata “daquilo que se vende na feira” e no que se vai fazendo, não há qualquer inovação, mas antes e sempre, uma cópia daquilo que se faz lá fora, mesmo sabendo que lá fora também não funciona, pelo menos em cidades pequenas como a nossa.

 

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Sobretudo inventa-se e mal gastam-se dinheiros públicos em alguns luxos e em faz e desfaz, ou mais grave ainda, investimentos para nada, quando os velhos e crónicos problemas continuam. Uma cidade nova que tem crescido desnorteada sem qualquer planeamento e onde se nota a influencia e importância do b€tão, enquanto a cidade histórica centenária e milenar cai aos bocados e tal como as aldeias está despovoada, ou melhor, só funciona das 9 às 19 horas.

 

Por isso meus caros amigos, este blog não está ao mando de nenhum partido nem de nenhum político. É pessoal e com tal demonstra a minha maneira de pensar esta terra e este concelho no qual nasci e no qual eu optei por viver. Tal como os convidados e colaboradores deste blog têm liberdade total para exporem aqui as suas ideias.

 

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Quanto aos políticos e partidos, de desilusão em desilusão, já atingi a maturidade política para saber que todos os políticos são iguais e que os partidos já não têm ideologias, e que só têm uma ambição: - atingir e garantir o poder, seja ele a que preço for, e a partir de aí, depressa esquecem o povo que os elegeu, como se esquecem do engaço e das prioridades e todos passam à classe dos pavões.

 

Assim, não metam por aqui política partidária, pois não cabe no blog. Política e políticas sim, mas em prol desta cidade e deste concelho e das suas aldeias, que há muito está esquecida e desprezada pelos políticos profissionais. Precisamos sim, é de olhares atentos, críticos e que apontem caminhos para sair da crise em que esta cidade e concelho já há muito mergulhou, e que, só sem palas e ambições políticas de ser promovido a pavão ou simplesmente arranjar tacho, se consegue. O que esta cidade precisa é de amor e que se olhe para ela como um filho que amamos e que queremos para ele o melhor entre os melhores e não me chateiem mais com politiquices caseiras e partidárias.

 

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E fica também um aviso à navegação, principalmente agora que já estamos em período pré-pré-eleitoral: Os comentários deste blog continuarão abertos a quem, aqui, queira deixar a sua opinião que até pode ser contrária à minha, mas não permitirei que se aproveitem deste espaço para também aqui fazer publicidade ou campanha partidária, seja ela de que partido for.

 

Todos são bem vindos a este blog e a todos agradeço a companhia que me fazem neste caminhar Chaves e as aldeias, mas quem não gostar daquilo que por aqui se faz e mostra, estejam à vontade, podem abandonar o barco a qualquer momento, pois este blog ainda anda em alto mar longe de avistar porto para ancorar. Até rima!

 

Desculpas a Polide pelos meus devaneios e desabafos, mas há quem às vezes me faça entrar em campos que bem dispensava entrar. Afinal este blog é flaviense, até nem seria de estranhar algumas reacções.

 

Continua a remar, ó Zé!, pois  amanhã cá estarei com outra aldeia.

 

 


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