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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Devaneios de Outono... há dias assim.

12.11.08 | Fer.Ribeiro

 

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Hoje nem me apetecia vir por aqui, mas há que cumprir o contrato.
 
Há dias e dias e eu também tenho os meus. Não são coisas do Outono, que com esse posso eu bem, aliás até é uma das estações do ano mais interessantes e que, embora o frio comece a brilhar, dá-nos o calor das cores no seu arrefecimento diário. Coisa, claro, que só poetas e artistas entendem na perfeição e que não estão ao alcance de qualquer pavão. Não levem a do artista e poeta para o campo intelectual, pois poetas e artistas intelectuais também são pavões. Levem e acreditem antes nos poetas e artistas que se conseguem descobrir em cada um de nós, mesmo sem nunca se ter escrito um poema ou feito seja o que for no campo da arte.
 
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Nestes dias assim, apetece-me falar de tudo e mais alguma coisa, apetece-me por as batatas ao lume até fazer abanar o testo, mas nunca o faço, porque sei que dias assim são doentios. Como não sou virado para químicos, depressões e outras pressões, prefiro o prazer de uma mini e um pouco de poesia, da verdadeira, dos poetas, onde encontro sempre o aconchego, para dias assim.
 
Chaves, 6 de Setembro de 1991
 
EVASÃO
 
De luz são estas horas clandestinas
E vagabundas,
Roubadas à razão e à lógica dos outros.
O sol ergue-se nelas com fulgor
Dobrado.
Não há sombras no largo descampado
Onde se esconda a alma envergonhada.
Pura, campeia, íntima e liberta,
Contente
Do ensejo gratuito da aventura.
Viver é ser no tempo intemporal.
É nunca, a ser o mesmo, ser igual.
É encontrar quando nada se procura.
 
Miguel Torga, in Diário XVI
 
 
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Viver esta cidade não é fácil. Gostamos dela em demasia e por isso dói-nos em todos os momentos. Não temos “Velhos do Restelo” porque isto é Chaves, mas sem que exista, temos sempre uma esquina do Lopes que pode estar à porta do Sport, no barbeiro, ou noutra esquina qualquer. São os nossos “velhos do Restelo”, os críticos de sempre que entre eles discutem a bola e um pouco da cidade. Este é desde sempre um salutar convívio da velha cidade flaviense, que tal como os “Velhos do Restelo”, estão sempre invadidos de crítica que não é mais que saudade disto ou daquilo, que debatem dia-a-dia em verdadeiras tertúlias que fecham invariavelmente ao fim da noite com promessas de continuar no dia seguinte. Estes nossos “Velhos do Restelo” são um pouco de Chaves sempre vestidos de um pouco de landainismo, com todo o respeito pelo termo.
 
Mas por cá há outras classes de gente. Pavões, cucos, moços de recados, escória.  E se uns pelo aragem e armação pavoneiam a sua “ridicularidade” intelectual ou não e passam à margem na calçada, mas como se pisassem constantemente um tapete vermelho , outros há, que são compostos de má formação, intrigas e inveja, a autêntica escória dos tristes da cidade e verdadeiros emplastros, que disfarçados andam por aí sem sinal na cara. Pura escória, típica das cidades pequenas que se alinham e perfilam sempre com um abanar do rabo para uma festa do dono, ou simplesmente, sem festa alguma, a ruindade corre-lhes no sangue.
 
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Nasci nesta cidade, percorri-a nas suas entranhas de dia e de noite, conheço-a bem. Sei quem são todos e de que castas são feitos, tal como sei quem são os flavienses e quem são os outros e, de entre eles (todos), sei também separar o trigo do joio. Mas custar, só custa mesmo, ver os falsos pavões sem pedigree armados com pompa mas sem circunstância com a canzoada toda atrás a marcar as esquinas no alçar da perna...enfim, em dias assim, prefiro a poesia.
 
Chaves, 26 de Agosto de 1993
 
Como a minha vida, agora, é uma sucessão de decepções, já só peço ao destino a graça de continuar a iludir-me depois de cada desilusão.
 
Miguel Torga, in Diário XVI    
 
E por hoje é tudo mas ainda fica um recado: - como os dias estão frios, nem há como arranjar uma carapuça…
 
Ficam as imagens, que às vezes, sempre valem mais que mil palavras.
 
Até amanhã com coleccionismo de temática flaviense.

 

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