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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade - Um poema de José Carlos Barros

14.11.08 | Fer.Ribeiro

 

.

 

Os Fantasmas do Edifício do Liceu de Chaves

 

poema de José Carlos Barros

 

http://casa-de-cacela.blogspot.com

 

 

1.

A alguns lugares do edifício

era-nos vedado o acesso: escusos e sem outra serventia

que não fosse longe do tumulto

a que lhe dávamos: aulas práticas de física e geologia

sobre a teoria

da separação dos continentes.

Tocando com a ponta dos dedos

a substância tão fria

e incandescente

dos azulejos brancos.

 

2.

De um desses lugares me recordo

como se me pertencesse ainda: aí se chegava

subindo dois lanços de degraus

até ao pequeno átrio da porta (fechada

sempre) de acesso ao corredor cimeiro do ginásio.

Éramos livres.

E eu juro pelos fantasmas do edifício do liceu

que decorávamos a matéria toda

mesmo (ou sobretudo) a que não vinha

nos livros.

 

3.

Em finais do século XIX rezam as crónicas

que não havia

propriamente

em Portugal

um ambiente propício à sacristia.

E acrescente-se em abono da verdade

que ninguém simultaneamente

erguia

nas avenidas e nas praças com entusiasmo

a bandeira tricolor

da revolução de mil setecentos

e oitenta e nove

acolhendo em clamor

os frades

dessas latitudes. Pois exactamente

neste enquadramento

é que chegaram por esse tempo

a Chaves

as pobres freirinhas francesas

do Sagrado Coração de Maria.

E no edifício onde mais tarde eu haveria

em lugares escusos

de estudar a tectónica das placas

é que ficaram elas

e por ali ao que se sabe vaguearam

rezando

e chorando

neste vale de lágrimas

as suas preces em favor (e isto diga-se de justiça)

das crianças pobres da cidade.

E o som

dessa quase sibilina presença

e das concomitantes lamúrias

era o mais recorrente

a intrometer-se no acesso proibido

que dava a uma porta fechada do ginásio

a meio do estudo facultativo

a que tão diligentemente

nesse tempo

acabávamos por entregar-nos.

 

4.

Pouco haverá de espantar que as freirinhas francesas

ali não tivessem casa

sequer uma década

e que por esses corredores

do futuro liceu de Chaves

se alargasse a sombra triste e amargurada

da Missão

já tão contristada

de não

repetir-se o sucesso

de quando chegaram alguns anos antes ao Porto

a tomar conta do colégio inglês

de Miss Hennessy.

 

5.

Seja como for

a cavalaria

seis aí haveria

de tomar poiso imediato

(usando os lapardeiros

lençóis e toalhas rescendendo ainda

à alfazema das francesinhas?)

com as suas botas da tropa e os seus camuflados

até quase finais do primeiro quartel

do século XX.

E também as patas dos cavalos

e os impropérios de caserna

se fariam sentir

muitos anos depois

pelo princípio físico da propagação dos sons

(e outro que o leva de uma época a outra)

tocando-se ao de leve com a ponta dos dedos

nos azulejos brancos

enquanto se estudava

física e geografia

sem ter uma sebenta

onde a matéria verdadeira do ensino oficial

pudesse resumir-se.

 

6.

Os antigos alunos do liceu de Chaves

é os fantasmas seus

e dos outros o que sentem movê-los por inércia

quando sobre todas as coisas sobrevém

a memória

de terem estudado nos livros

o serem jovens

para sempre. 

Tudo o mais não será uma legítima

abstracção

que os leva hoje ainda a pagarem as quotas

e a combinarem jantares

comemorativos.

E poucos (descuidados a percorrer então

as pautas

do rés-do-chão

e a consultar os processos individuais

por detrás dos vidros da secretaria

ou a estudar a história de Portugal ou filosofia)

sabem hoje ainda

o que

ao fim e ao cabo

os faz verdadeiramente estremecer:

a memória subtil dos fantasmas das freirinhas francesas

ou da tropa

da cavalaria seis.

 

7.

Às vezes

nos meus sonhos

é como se tivesse ficado para sempre

nesses lugares escusos onde passava horas

e o regulamento

nos impedia o acesso.

E é como se ouvisse ainda as lágrimas

e os risos escondidos das irmãs religiosas

do Sagrado Coração

ou o estrépito da cavalaria seis

a ecoar nos azulejos brancos do pequeno átrio

onde procurávamos a ilusão

(os tempos eram outros)

do amor.

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