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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Flavienses Ilustres - Dr. Júlio Gomes

17.11.08 | Fer.Ribeiro

DR. JÚLIO GOMES

 

António Júlio Gomes nasceu em Chaves em 27 de Abril de 1881 e faleceu em 15 de Janeiro de 1957, em Chaves.

 

Era filho de Júlio Gomes, do Seixo, de onde era originário e de Florinda..., de Chaves.

 

Com nove anos de idade foi trabalhar para a Farmácia da Ponte, a troco de cama e mesa. Como era ladino e dedicado, deram-lhe facilidades para frequentar a escola e depois o Liceu, então a funcionar na Rua do Poço, em Chaves. Tirou o curso dos liceus.

 

Seu pai, um modesto carpinteiro, nada lhe podia dar.

 

Aos 18 anos assentou praça voluntariamente, em Lisboa, passando a frequentar a Faculdade de Farmácia, logo que lhe foi possível. Para sobreviver com alguma decência, dava explicações. A certa altura, resolveu dedicar-se a Odontologia, por achar que não conseguiria dinheiro para se estabelecer como farmacêutico, um sonho que alimentava desde menino. De Lisboa foi para Coimbra, onde esteve cinco anos, e ali frequentou as aulas de Odontologia, que só mais tarde se viria a criar a especialidade de Estomatologia. Não chegou a tirar a licenciatura, muito embora fosse tratado e conhecido por doutor, segundo informaram alguns médicos amigos e que bem o conheceram. Tirou o curso de medicina dentária, em uso na época, semelhante aos dos actuais odontologistas, sem licenciatura médica, que nesse tempo não existia.

 

Com um mecânico dentista polaco aprendeu a arte das próteses dentárias em ouro e prata.

 

Casou em Coimbra com Maria de Guimarães de quem teve dois filhos. Bastante cedo ficou viúvo.

 

Resolveu vir para Chaves, onde montou consultório de dentista.

 

Depois de alguns anos comprou umas modestas casas, onde havia nascido, na extinta Rua de Santa Catarina, próximo da capela do mesmo nome, onde montou consultório e residência. Desiludido no seu primeiro casamento, casou-se civilmente com sua empregada D. Berta de Sousa Alves, de Paralela de Veiga.

 

Voluntarioso e de espírito revolucionário, tinha um coração de ouro, nem sempre compreendido. Fez grandes amigos como o Dr. Francisco de Barros, Abade de Baçal, Dr.Ramada Curto, Padre Silvino da Nóbrega e muitos outros. Com um espírito de investigador e de arqueólogo, dedicava as horas de lazer a leitura e a recolha de muitos achados, contribuindo muito para a fundação do que veio a ser o Museu da Região Flaviense, enriquecendo-o com muitos objectos adquiridos a sua custa.

 

Alguns meses antes de falecer, em inesperada e solene cerimonia, em sua casa, em presença dos seus mais íntimos amigos, contraiu matrimónio e recebeu comunhão das mãos do seu grande amigo Padre Silvino da Nóbrega.

 

 

Como odontologista, firmou-se em pouco tempo um profissional distintíssimo: pelo seu consultório - novidade local em asseio, comodidade e beleza - passaram as melhores famílias da região e até algumas que viviam habitualmente nas primeiras cidades, e aí podiam obter nas melhores condições os tratamentos dentários de que careciam.

 

Jovens clientes, porventura mais amigas de mexericos, perdoavam, que remédio - uma ou outra partida com que as castigava em ocasiões de bom humor: Punha-as de boca aberta durante tempo esquecido, enquanto, lépido, se escapulia pelas traseiras do prédio, numa saltada ao Arrabalde ... Assim se referia a ele o Dr. Francisco Gonçalves Carneiro, no Notícias de Chaves de 26-01-57.

 

Em cada doente encontrava um amigo, pois todos reconheciam nele devotada dedicação e desinteressado carinho.

 

... Um vácuo existe na sociedade flaviense, e todos nos reconhecemos cheios de tristeza e profunda dor. É que com o Dr. António Júlio Gomes, figura marcante do nosso meio intelectual e no da província, desaparece alguém que consagrara uma larga parte da vida à cultura do espírito, ao enriquecimento dos valores morais, à aquisição de documentos que aumentassem o património colectivo, à meditação em velhos alfarrábios ou sobre restos que viram as gerações que nos precederam há milhares de anos nesta abençoada região da velha Callecia. Dizia por sua vez o Dr. Francisco de Barros Teixeira Homem na mesma edição do Notícias de Chaves de 26-01-57.

 

E repetidamente, na mesma edição do Notícias de Chaves, o Dr. Francisco Gonçalves Carneiro e o Dr. Francisco de Barros Teixeira Homem, teciam as mais nobres palavras sobre o ilustre flaviense então recentemente falecido, e continuavam:

 

 

Ganhava quanta queria, para logo gastar na sua paixão favorita: mais pedras, louças, moedas e quinquilharias no museu dos seus sonhos. Tudo carreava para Chaves, para um velho recanto do solar dos morgados de Santa Catarina, cuja modesta porta lateral passou a ostentar por sua iniciativa, uma lápide orgulhosa que proclamava a realidade de algum dia: o "MUSEU DA REGIAO FLAVIENSE".

 

Não eram ásperas e secas as consultas que dava, antes as procurava acompanhar de conselhos amigos que tantas vezes deixavam dulcificadas almas bem sofredoras: procurava com avidez informar-se do viver dos pacientes, não por doentia curiosidade ou cruel mexeriquice mas para lhe valer em tratamentos gratuitos se os seus bens de fortuna não permitissem o pagamento de qualquer remuneração.

 

E não eram raros os casos em que depois de cuidado tratamento a sua bolsa ficava mais aliviada em favor do doente ... Era extremamente bondoso.

 

Mas antes de focarmos essa faceta queremos tanger, ainda que ligeiramente, o aspecto politico.

 

Viveu o Dr. António Júlio Gomes os últimos anos da monarquia, e foi figura marcante na politica local republicana nos primeiros lustros em que as jovens instituições parecia poderem baquear ao impulso forte dos seus inimigos.

 

... Bateu-se com a maior lealdade e valentia pessoal, arriscando a vida na defesa do seu ideal; enquanto combatia era um gigante; vencedor era uma criança terna e doce em cujos olhos brilhavam as lágrimas da comoção pelos vencidos, seus adversários de poucos momentos antes, espalhando o seu coração os lenitivos a sua alma de eleição.

 

... Entendia que todos tinham direito à vida, e a cada um permitia liberdades que outrem recusaria; não se sentia apoucado pois tinha a consciência do que representava.

 

... Há poucos meses conversámos sobre o magnífico autor das "Origens da França Contemporânea"; lembrei as disposições testamentárias do grande Taine em que ensinava que o respeito pela memória das gerações que nos precederam consistia em pisar os mesmos passos que elas trilharam na vida.

 

 

Teve um fim de vida verdadeiramente exemplar; e as últimas orações que o acompanharam foram pronunciadas soluçantemente pela figura magnífica de asceta e apóstolo do Rev.º Silvino R. Nóbrega, glória da diocese e seu culto colega na "Comissão Instaladora do Museu Regional e Biblioteca Erudita de Chaves".

 

... Olhando em redor reconhecemos viver em meio bem mais pobre. Está de luto a região flaviense.

 

Mas o esforço do Dr. Gomes não há-de perder-se. Em seu testamento, o benemérito coleccionador legou a Ex.ª Câmara "todas as antiguidades, valores literários e artísticos" que com muito custo conseguiu obter e recolheu naquele prédio... Grande lição para os outros coleccionadores! A obra precisa de todos - e todos lhe devem trazer as possíveis contribuições!

 

Ainda na edição do Notícias de Chaves de 26-1-1957 o semanário dava a notícia e um legado para o museu:

 

Aberto e publicado o testamento do saudoso Dr. Júlio Gomes, feito na Secretaria Notarial de Chaves em 5 de Dezembro do ano findo, verificou-se que dele consta uma disposição do teor seguinte:

 

"Tendo sido sempre um grande entusiasta e propugnador pela criação e instalação de um museu regional na minha terra, que recolhesse e guardasse todas as antiguidades, valores literários ou artísticos da minha região, votei à ideia o melhor do meu carinho e entusiasmo, com a valiosa e desinteressada colaboração de alguns meus velhos, preciosos e inesquecíveis amigos. Por isso, tenho arrecadados na instalação provis6ria do museu, que a Câmara concedeu, numerosos objectos antigos, louças, obras de arte antiga, livros diversos, que a muito custo, consegui obter e que não posso agora classificar e enumerar por não mo permitir a minha fraca saúde. E, como não posso nem quero ver perdido todo o meu esforço em prol da dita ideia, lego tudo quanta lá possuo à Câmara do meu concelho, com o desejo que formulo, de que lhe dê acomodação cautelosa e convenientemente, para evitar o seu desaparecimento, e que active o desenvolvimento e progresso do Museu e Biblioteca para que sirvam de estudo e estímulo a todas as pessoas no sentido de prosseguirem na minha obra e esforço em prol da valorizarão e engrandecimento da minha terra, que sempre e tanto tenho amado ...

 

Esclareço que no legado que faço à Câmara se compreendem todos os livros que constituem a minha biblioteca e que se encontram em minha casa.”

 

E é quase tudo sobre o nosso Ilustre Flaviense de hoje. Lamento não ter imagens ou fotografias do Dr. Júlio Gomes, mas se entretanto conseguir alguma, a todo o tempo farão parte deste post.

 

A Câmara Municipal deu o seu nome a uma Rua no Alto da Trindade, mas na minha modesta opinião penso que no Museu Municipal e na Biblioteca Municipal deveria haver uma referência ao seu nome, nem que fosse (por exemplo) o nome de uma sala de leitura, onde em placa se lembrasse a importância que o Dr. Júlio Gomes teve para o aparecimento e enriquecimento destes dois espaços culturais de Chaves. Será que, ao menos, o seu legado, decorridos que estão 50 anos, ainda existe!?  

 

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