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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Outeiro Jusão - Chaves - Portugal

04.01.09 | fernando ribeiro

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Com um olho na cidade e outro na ruralidade, é assim Outeiro Juzão ou Jusão.

 

Vamos começar pelo seu topónimo.

 

Desde sempre que esta aldeia foi e é o hall de entrada da cidade de Chaves, pois quando vindos pela estrada mais longa do país e que liga Portugal de Norte a Sul (EN2) que chegar a Outeiro Juzão é chegar à cidade. Disse Outeiro Juzão, pois era esse o nome que constava na placa e ainda consta numa placa da estrada antiga. Durante longos anos foi Outeiro Juzão. Mas isto são coisas das gentes de Vila Real onde sempre esteve afecta a antiga JAE e por lá mandavam pintar as placas. Desde sempre que os de Vila Real vão decidindo por nós, até os nomes e topónimos das nossas aldeias e este não era, nem é, caso único, pois nas placas indicativas algumas vezes a freguesia é esquecida em detrimento de uma outra aldeia da freguesia ou então impõem topónimos como o de Lama de Arcos em vez de Lamadarcos. Não sei em que livros vão eles buscar estes topónimos, mas nos nossos não são de certeza. Aliás da antiga JAE actual Estradas de Portugal Chaves já está habituada às suas asneiras e disparates, basta ver o esbanjar de dinheiro que agora estão a desperdiçar na estrada Chaves- Valpaços para apreciar a têmpera dos que de fora ditam os nossos destinos, ou impõem, sem sequer sermos ouvidos. Mas se os de cá também o consentem, nada há a fazer.

 

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Mas desabafos à parte vamos outra vez até Outeiro Juzão ou Jusão. Pois tudo indica e aliás é esse o nome oficial que consta no município que o topónimo correcto é Outeiro Jusão e faz sentido que assim seja, se olharmos à origem da palavra e ao seu significado. Há que fazer jus ao seu nome. Jus de jus ou jusante e faça-se justiça então. Jusante da geografia que é o lado contrário ao da nascente e para onde correm as águas. Se tivermos as águas do grande vale do Tâmega por referência, é precisamente em Outeiro Jusão que têm o seu jusante. Mas isto são apenas teorias minhas, pois segundo os entendidos evocam Viterbo para dizer que o termo Jusão, significava antigamente “de baixo” e daí advir o topónimo de Outeiro Jusão que seria o mesmo que dizer Outeiro de Baixo. Pois que seja, de cima ou Juzão é que não é.

 

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Partimos assim que o termo correcto é Outeiro Jusão.

 

Iniciava eu a dizer que Outeiro Jusão tinha um olho na cidade e outro na ruralidade e de facto assim é. Quem conhece a aldeia só de passagem e vista da estrada, aparenta ser mais um bairro da cidade do que propriamente uma aldeia. Se abandonarmos a estrada e entrarmos no seu núcleo e no abstrairmos da sua localização geográfica de proximidade da cidade, podemos acreditar até que estamos numa aldeia de montanha, pois segue e tem todas as suas características e as características de uma aldeia, com o seu núcleo antigo e que quase sempre se desenvolve à volta da Igreja ou Capela, com as suas construções típicas da arquitectura rural onde o granito e a madeira são reis e senhores, o contorno das ruas ajustado ao contorno das casas, a intimidade do núcleo a desaguar num largo principal e sobretudo as gentes, as pessoas que vivem no seu seio durante o também contorno dos dias. Mas também na sua vida comunitária se vive o verdadeiro termo de aldeia, ainda com vizinhos a viver em “comunidade” em que os mais jovens se juntam ao abrigo de outro termo a que chamam “associação” e que até produzem cultura, para consumo próprio, como ainda recentemente foi notícia nos jornais da terra, com uma peça de teatro que levaram a cena na aldeia. Associação que agora está mais ou menos parada, mas que promete voltar à actividade, pois ficou o gostinho de fazer para os seus, e com arte e teatro.

 

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Respira-se ruralidade nesta aldeia bairro da cidade que é também seu dormitório, não começasse a cidade a seus pés, a montante do seu jusante, mas ruralidade ainda nos seus campos agrícolas aos quais uns ainda se dedicam, mas terra de juventude e de gente interessada no seu rincão e na sua aldeia.

 

Este blog já fez uma abordagem (muito passageira) da aldeia e então recebi alguns recados dos seus filhos, mais propriamente da Vera Azevedo, do Celso Silva, do Filpe Pires e do José Silva, que na altura deixaram os seus recado nos comentários. Não os esqueci, nem esqueci o que prometi então de trazer aqui novamente Outeiro Jusão num post alargado, e aqui está ele, com algumas correcções e também com as suas dicas, começando pela quadra do seu hino e que a Vera então por aqui deixou:

 

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Outerio Jusão terra linda

Meu doce torrão Natal

Jardim de flores mimosas

Como tu não há igual.

 

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Fiquei a saber então que o padroeiro da aldeia é o S.Martinho, com “festa”celebrada em 11 de Novembro, mas que o santo mais adorado pela população é o S. Cristóvão com a sua festa no mês de Agosto, quando Outeiro Jusão recebe todos os seus filhos ausentes.

 

Por sua vez o Celso confirmava que o topónimo Jusão tinha origem precisamente no Jusante do Rio Tâmega.

 

O Filipe dizia-me então que aquele “pedaço de terra que tão grande beleza encerra, em me digno pertencer, vou amá-la sempre mesmo muito «depois de morrer» e fazi um convite a todos para visitar a aldeia, que eu também reforço, pois como já disse, para se conhecer Outeiro Jusão, não basta passar na estrada, há que entrar na aldeia, no seu núcleo, no seu coração.

 

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Por fim o José Silva também vem reforçar que o topónimo Jusão, deriva de Jusante do Tâmega e a aldeia ser um Outeiro a jusante do Tâmega, mas vai mais longe e dava-nos a conhecer o Grupo de Teatro Amador criado na aldeia em 2008 que tinha como principal objectivo tirar a aldeia do marasmo a que foi remetida pelos sucessivos representantes legais. 

 

Pois meus caros, já na altura agradeci a vossa intervenção no blog e hoje agradeço de novo e é com gosto que o faço, pois só demonstra que ainda há espírito de aldeia e vizinhança em Outeiro Jusão e que é muito mais aldeia do que aquilo que se vê apressadamente para quem passa na estrada.

 

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E agora um pouco da sua história, pois tanto quanto consta na documentação que encontrei a respeito da aldeia, é de povoamento antigo e que deve remontar pelo menos à altura da ocupação romana, assim o ditam os achados encontrados aquando das escavações para construção de algumas habitações, pela quantidade e beleza dos achados, acredita-se que por ali tivessem habitado gente rica e importante da ocupação romana. Entre os achados, uma pedra perpetua o nome de Claudios Flavios.

 

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Ainda na aldeia, na sua periferia em terrenos que foram pertença da Cooperativa Agrícola e que hoje são da Câmara Municipal existe uma pequena capela com edifício adjacente, que embora humildes na construção e na traça, na fachada principal da capela tem um brasão. Procurei em tudo quanto é sítio referências à história desta capela e do brasão (incluindo no levantamento de brasões do concelho de Chaves feito por J.G.Calvão Borges no Tombo Heráldico do Noroeste Transmontano) , mas nada encontrei. Não sei se existe documentação escrita sobre estas construções e de quem foi pertença, mas embora com a sua humildade eram merecedoras de uma reconstrução e também de ser feita a sua história. Uma vez que agora é propriedade da Câmara Municipal, vamos esperar que esta faça a devida recuperação do existente e também um pouco da sua história, porque afinal, agora, é património de todos nós flavienses. Entretanto se alguém souber alguma coisa sobre esta capela e o brasão, este blog agradece que deixem essas informações nos comentários.

 

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Quanto a números da população, não tenho dados para deixar por aqui, mas dada a sua proximidade da cidade e das novas construções que por lá existem, estou em crer que não é uma aldeia que tenha perdido população, antes pelo contrário, mas também como todas as aldeias da proximidade de Chaves, suponho que também os seus novos habitantes pouco tenham a ver com a vida e história da aldeia, pois essa (penso eu), resume-se ao seu núcleo histórico e antigo da povoação.

 

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Dada também a proximidade da cidade e a sua privilegiada localização junto a uma das estradas mais importantes de acesso à cidade de Chaves, também ao longo da estrada têm nascido as mais diversas actividades comerciais, industriais e de hotelaria ou similares, transformando assim a aldeia na sua dupla ou até tripla personalidade de aldeia em si, com a sua história, a sua vida e o seu núcleo de vizinhos e gente da aldeia com origem nela, uma segunda aldeia de novas construções e novos habitantes que nada têm a ver com as origens da aldeia e fazem dela uma aldeia dormitório da cidade e uma terceira aldeia que se desenvolve ao longo da estrada com as suas actividades laborais de comércio, indústria e hotelaria.

 

É, tal como dizia no início, uma aldeia com um olho na ruralidade e outro na cidade, não só fisicamente e geograficamente falando, mas também na sua vida em si.

 

Espero ter cumprido para com a aldeia de Outeiro Jusão, que fica a apenas (oficialmente) a 3 quilómetros da cidade, mas que na prática está ligada fisicamente a ela pela conhecida recta do Raio X. Digamos que é uma aldeia que faz parte já da “grande” cidade da margem esquerda do Tâmega e que vista à noite, desde o miradouro de S.Lourenço, é parte integrante da “grande” cidade cuja iluminação emerge da escuridão do vale.

 

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Quanto à recolha fotográfica, é o costume e aquilo que em mim mais desperta o click. O tradicional, o diário das aldeias, o antigo e o quotidiano de sempre e que faz com que cada aldeia tenha a sua singularidade e a torne diferente, embora tão igual a outras aldeias tradicionais do concelho. Excepção para a última foto, com os alunos da escola de outeiro Jusão de 1938 e  que me foi gentilmente cedida pelo filho da professora.


 

 

 

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