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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Por cá, está um frio porreiro, pá!

07.01.09 | fernando ribeiro

 

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Várias vezes neste blog me refiro aos senhores de Lisboa que à distância, comodamente instalados nas estâncias do poder vão ditando/impondo Leis e decidindo os desígnios do restante país, argumentando às vezes, que pelos corredores do poder temos por lá deputados que democraticamente nos representam a nós e à região.

 

Democraticamente falando, sabemos que a democracia em teoria funciona muito bem, mas na pratica não é assim e, que debaixo da capa da democracia e da liberdade se cometem verdadeiros atentados às mesmas, mas principalmente muitas injustiças para um Portugal que se diz único e democrático de Norte a Sul, quando a triste realidade é um Portugal que vive a duas velocidades. Um governado por Lisboa e para Lisboa e litoral e o outro, o Portugal profundo do interior, dotado ao esquecimento e ostracismo.

 

Dizer que temos por Lisboa quem nos represente e defenda a nossa região, é uma pura mentira da democracia. Aliás penso mesmo que o parlamento se deveria resumir à Mesa da Assembleia da República e aos deputados da primeira fila do hemiciclo que é onde tudo se decide, pois é mais que sabido que na maioria dos assuntos em debate os deputados nem sequer têm liberdade de voto e levantam o braço conforme lhe é ditado da primeira fila. Salvo raras excepções que lá vão decidindo pela sua cabecinha a quem vulgarmente chamam dissidentes, ou “casos perdidos” e acometidos pelo grupo de uma loucura pessoal qualquer – se não o é, parece. 

 

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O mesmo acontece com o Governo, principalmente quando são de maiorias absolutas, ou seja, é uma forma não democrática que a democracia e a nossa constituição permitem. Também aí o Governo se poderia resumir ao 1º Ministro e a um único ministério, criando depois algumas assessorias para os mais variados temas e assuntos e acabava-se de vez com a hipocrisia do primeiro ministro chamar a si as vitórias alcançadas por um ministério, ou culpar um ministro, demitindo-o, pelas derrotas de má governação noutros assuntos.

 

Quanto ao Presidente da República, está bem como está. As aparências e a mania das grandezas sempre nos esteve no sangue, neste sangue português. Sempre gostámos de figuras decorativas e aparentemente poderosas. Já nos vem do tempo em que nos dizíamos proprietários de metade do mundo em que para além mar tudo era nosso ou dos espanhóis. Dizem que o Presidente da República tem poder de veto, pois com esta história recente dos Açores vim a saber que afinal não tem, embora o tenha. Tem afinal de contas uma palavra a dizer na dissolução de um Governo ou da Assembleia da República, pois tem, mas primeiro os governos têm de ser vaiados em tudo quanto é esquina e sítio e na assembleia tem de haver zaragata instalada, ou seja, quando já estão a cair por si. Depois sim, vem o poder  do PR.

 

 

Mas também os outros poderes de Lisboa remetem o restante Portugal interior para um segundo Portugal. Refiro-me às televisões e restantes meios de comunicação social nacional que só se dedicam ao interior com “temas de fundo” e de “elevada importância”, como as anedotas, ou actos de paulada. Tivemos ontem um bom exemplo disso quando um dirigente desportivo tentou comprar um árbitro por 150 euros (repito em contos para não haver confusão – 30 Contos). esta tentativa de crime e montantes tão elevados são de tanta relevância para o país, que o caso foi notícia nacional e os “desgraçados”, sentaram o cuzinho no banco e ficaram a aguardar decisões da justiça com termo de identidade e residência, acusados de corrupção activa.

 

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Mas a razão destas palavras de hoje, são mesmo a notícia do frio. Quando em Lisboa as temperaturas descem abaixo dos 10ºC, o país entra numa onda de frio, a protecção civil entra em acção, há comunicados na televisão e arde o Carmo e a Trindade, porque Lisboa, perdão, Portugal,  não está preparada para o frio.

 

Cá por Chaves, desde finais de Outubro e até lá para Março, “mamamos” quase todas as noites com temperaturas negativas e nos dias como os de ontem, e neste Outono/Inverno já foram muitos, as temperaturas pouco sobem além dos 0ºC e com 10ºC, até já achamos que o tempo nem está assim muito frio. Temos ainda os nevoeiros e a neve nas montanhas mais altas, mais isso, para nó até é poesia. Quem diz Chaves, diz todo o interior Norte, de montanha e elevado. Em Chaves apanharmos com -12ºC, ou -10, ou dos -5 ou -6ºC dos quais não nos livramos nestas noites mais rigorosas, isso não é noticia e desde Lisboa é visto com naturalidade ou simplesmente ignorado, pois quem cura as carnes ao frio, somos nós e não eles. Mas o que irrita mais, é que este frio tem elevados custos para nós e poder combate-lo (ao preço que estão os combustíveis ou electricidade) é um luxo só permitido a alguns. Mais grave ainda, é que com as manias do centralismo dos senhores de Lisboa, retiram-nos os direitos mais elementares (que até são constitucionais) como o da saúde, que são também agravados com o frio, e que para uma situação grave, põem-nos ao dispor um Hospital em Vila Real, da qual apenas nos separam 60 Km (desde Chaves) ou 100 Km (desde Segirei, que também é Chaves), com estradas ou auto-estrada que nestes dias se transformam em autênticas pistas de patinagem sobre o gelo. Ou seja, para acudirmos a um mal, temos um convite para a morte, isto se as estradas não fecharem mesmo, como é no caso de haver neve.

 

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A realidade do frio (verdadeiro) e da neve, vai muito além das brincadeiras na neve e das fotografias que se tiram abraçados ao boneco de neve. Nós aqui temos frio a sério. Neste preciso momento em que escrevo estas linhas, no exterior, estão - 5ºC (negativos para quem não viu o sinal menos), o Rio Tâmega, nas zonas de sombra, e a Ribeira do Caneiro (por exemplo), neste Inverno já congelaram em várias noites, no entanto, atento que estive às notícias de hoje, para Chaves e todo este Norte das redondezas, não ouvi qualquer alerta por parte das autoridades. Pela certa que o nosso frio é diferente do de Lisboa, os nossos graus centígrados não devem ser medidos com os mesmos termómetros, ou então, como somos “bimbos”, já nascemos habituados ao frio e até parece que por cá o frio, é música para nós, uma música “porreira” pá!

 

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Portugal interior merecia mais um bocadinho de respeito, já nem falo na atenção que não nos dedicam, mas respeitinho fica bem em todo o lado e quando os senhores de Lisboa forem à televisão com as suas “papaias”, não se esqueçam que por aqui também se vê televisão e não somos parvos, provincianos sim, mas não parvos.

 

Ah!, já agora satisfaço um pedido da minha filha, aluna do 1º ciclo, que todos os dias sonha com o “Magalhães”, diz-me ela que está farta de o ver à venda nas casas de informática, mas que na escola dela ainda não lhe viram a cor. Coitada, ainda não entende muito bem as verdades que se dizem e são notícia na televisão. Ela ainda está numa idade que acredita em tudo e em todos e,  manda dizer também, que ontem (com  temperaturas negativas no exterior) na sala dela o aquecimento estava avariado. Claro que isto é coisa que se resolve com um xarope que há sempre na despensa cá de casa e,  que lá vai acalmando a febre e dá algum descanso à tosse, porque as crianças por cá, não têm frio, nem “Magalhães”. Não haverá por aí um “recadeiro” como os de Chaves, que levem este recado ao poder, queria dizer, ao Sócrates!? - Vá lá, é o pedido de uma criança!

 

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As fotos de hoje são de arquivo tomadas entre Santiago e Carvela, com um bocadinho das imagens daquilo que é frio por cá, e não é neve, é apenas uma geada daquelas que temos por cá (na montanha) quando dizemos que o frio é de cortar. Claro que em Portugal (perdão mais uma vez), em Lisboa, nem sabem o que isto é, com certeza que dada a proximidade da raia ainda pensam que estou a escrever em galego, isto se souberem onde fica Chaves, mas para os que não sabem, aqui fica a dica: um bocadinho a Norte do Alentejo.

 

Até amanhã  

 

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