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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade

13.02.09 | blogdaruanove

 

Texto de Blog da Rua Nove

 

(II)

 

 

Não havia reparado ainda naquela mudança. Durante a manhã, quando se deslocara até Vila Verde, seguira pela ponte nova, para manter a discrição. Agora, divertia-se com a ironia. O tribunal e a ponte. Duas obras que apenas tinham sido concluídas depois da morte do velho marechal, o paizinho da cidade.

 

No posto de fronteira, deparara-se com os habituais casos de contrabando. Apenas contrabando. Nada que dissesse respeito à sua polícia. Ultimamente, contudo, outros casos iam surgindo. Casos que se poderiam tornar suspeitos. Contrabando de peles. Pessoas que passavam a fronteira a salto. Era mais para a montanha que isto acontecia, para Mairos, ou até mesmo para Montalegre, mas este era assunto que já lhe dizia respeito e se encontrava sob a sua jurisdição. Nunca se sabia quando entre essas levas apareciam homens que andavam a monte ou que conspiravam contra a situação.

 

No vale, tais movimentos seriam agora de maior risco. Com a recente agitação política, as fronteiras principais estavam sob vigilância mais apertada. Ali, até a zona do açude passara a ter patrulhas mais frequentes. As brigadas da Guarda Fiscal andavam mais embirrentas, a GNR, a pé ou a cavalo, não parava de se mostrar, a tensão crescia e tornava-se evidente.

 

Os candidatos a banhistas, que no açude procuravam aproveitar os tépidos dias de primavera, passaram a ser bruscamente afastados. Conhecidos que fossem, esbarravam na cara fechada e sisuda dos guardas, pegavam nos pertences e abandonavam a ideia de uma sesta descansada junto ao canal.

 

O inspector apercebera-se da tensão logo à chegada, quando vira um guarda-fiscal a embirrar com uns ciganos que haviam sido obrigados a levantar o acampamento junto ao rio. A discussão azedara, havia vozearia e gritos e no meio de tudo isto um cão a ladrar. O cão, cada vez mais frenético, ladrava aos pés do guarda. Este, sem sequer olhar, afastara-o com um tremendo pontapé, enquanto tirava a pistola do coldre. Valeu ao cão ter dobrado uma esquina e valeu aos ciganos terem ido atrás do cão.

 

Não se recordava de haver testemunhado tal animosidade em nenhum guarda-fiscal. O olhar desvairado do guarda, que encimava um pescoço entumescido por veias prestes a explodir, veio-lhe várias vezes à memória, enquanto regressava à cidade.

 

E essa memória, que ora se diluía na mansidão das águas ora se encrespava na vertigem dos redemoinhos, acompanhara-o ao longo dos canais da veiga até ali, à porta do hotel. 

   

                                                                                                        (continua)