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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Sandamil - Chaves - Portugal

11.01.09 | fernando ribeiro

 

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O frio, ultimamente de Norte a Sul do país não se fala de outra coisa. A televisão assim o quer e quando a televisão quer, é lei e assunto do dia nos temas de conversa e de escrita, de imagens e de fotografia. Portugal foi invadido por uma onda de frio e basta os termómetros por Lisboa registarem temperaturas abaixo do 10 graus para se instalar o pânico na capital. Convoca-se a protecção civil a actual, montam-se tendas de apoio, distribuem-se cobertores e sopas quentes, saem comunicados e alertas, os centros de saúde e hospitais entram de prevenção e etc. coisa e tal. Também no frio, Portugal é Lisboa e o resto é paisagem, principalmente o interior Norte das terras altas (Trás-os-Montes).

 

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Quase todos os distritos do país entraram em alerta laranja mas o distrito de Vila Real não. Aqui pelos nossos lados até parece que não houve (há) frio, nem neve, nem gelo, nem temperaturas negativas, nem canalizações de água congeladas, nem estradas cortadas, nem povoações isoladas. Neste preciso momento em que escrevo estas linhas, estão no exterior 5 º negativos e pouco passa para além da meia-noite. Andar nas estradas de montanha a esta hora é um risco que se pode pagar com a vida e as populações mais idosas das aldeias de montanha (e também da cidade) não têm aquecimento em suas casas, nem dinheiro para o pagar. Mas tudo isto, como é aqui no interior, não é notícia nem dá direito a alertas laranjas, nem direito a apoio à população mais carenciada, pois por cá, para os de lá, já estamos habituados.

 

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O problema do frio por cá, não é só nestas ondas de frio que invadem Portugal e faz tremer os lisboetas, por cá é uma constante, é o nosso dia-a-dia dos Outonos e Invernos, principalmente nas aldeias de montanha que vivem em altitudes mais elevadas, onde o frio é quase sempre de cortar à faca.

 

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Ontem passei a tarde no grande planalto do Brunheiro em terras da freguesia de Nogueira da Montanha, onde as sombras de Inverno são sempre brancas, das neves que não derretem e das geadas que se acumulam. Estive em algumas casas em que as paredes dos os compartimentos interiores não habitados, estão brilhantes com o revestimento de uma camada de gelo. Os produtos agrícolas que guardam nas despensas e anexos exteriores, como as batatas e as cebolas, congelam.

 

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Claro que isto não é exclusivo da freguesia de Nogueira da Montanha, mas de todas as freguesias fora do Vale de Chaves, ou seja, de montanha.

 

Isto é apenas um pequeno desabafo sobre o frio, pois até nisso, somos descriminados e pouco importa (aos do poder e aos de Lisboa) que durante estes dias de neve e gelo, haja populações isoladas e também para nada conta que as estradas e auto-estradas que nos deveriam ligar às políticas concentradas nestas noites estejam cortadas ou abertas mas intransitáveis, que ainda é pior. Ligações às políticas de concentração como aos hospitais para os casos mais e agora menos graves, é que em Chaves, quase se pode dizer, que já não há Hospital. Mas isto aos de Lisboa pouco interessa, desde que eles, claro, ali à mão de semear tenham meia dúzia de hospitais.

 

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Uma das aldeias que ontem visitei foi Sandamil, um bom exemplo de aldeia de montanha, onde o frio é a constante de Outono/Inverno e onde as sombras são sempre brancas. Mas antes as sombras brancas, os frios intensos, as geadas e a neve do que a chuva, pois essa além de fria, entra nos ossos tolhidos por reumatismos.

 

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Sandamil é uma pequena aldeia que fica a 15 quilómetros de Chaves e é uma das onze aldeias da freguesia de Nogueira da Montanha. Situa-se em pleno planalto do Brunheiro a uma altitude acima dos 825m.

 

Falar de despovoamento nesta freguesia de Nogueira da Montanha já não é novidade, mas curiosamente Sandamil surpreende, não pelo número de habitantes que segundo os Censos de 2001 se resumia a 44 habitantes residentes, mas surpreende quando à sua distribuição etária, pois dos 44 habitantes havia 3 com menos de 10 anos, 13 com menos de 20 anos e apenas 7 com mais de 65 anos, distribuindo-se a restante metade da população pelo escalão etário dos 20 aos 65 anos. Digamos que são poucos mas bem distribuídos por idades.

 

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Sandamil é mesmo uma pequena aldeia, com pouco mais de 10 casas habitáveis e as mais antigas degradadas ou em ruínas. Algumas construções recentes. Claro que aqui os números em todos os casos são reduzidos e contam-se pelos dedos das mãos.

 

Mesmo ao lado e ligada fisicamente por construções está a aldeia de Capeludos, aliás a Rua Central é comum às duas aldeias e, sinceramente, não compreendo a razão pela qual oficialmente existem duas aldeias, pois uma mais parece ser um bairro da outra. Mas pela certa que haverá razões e tradições que as separam e dão a cada uma o seu topónimo e em coisas de tradições não me meto, antes, respeito-as.

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E estamos chegados ao topónimo de Sandamil. Para os mais distraídos poderão ser levados a pensar que por aqui as sandes são a mil, a terra das mil sandes. Mas nem o pão que se costuma consumir por aqui é muito dado a sandes e assim, pela certa que não é daí que lhe vem o seu nome. A única explicação que encontrei para este topónimo é a que corre cá pelos historiadores da terrinha e que dizem que Sandamil era um nome próprio da Idade Média e que será daí que vem o nome desta aldeia. Seria então a aldeia do senhor Sandamil. Algumas vezes a aldeia aparece com chamando-se Sandomil, como por exemplo no Google Earth. Assim se quiserem ver Sandamil desde os satélites, mais vale pesquisar em Sandomil-Chaves, senão ainda vai parar a Sandamil de terras Galegas, ou a uma outra qualquer terra Sandomil portuguesa, pois existem pelo menos uma com este topónimo, lá para os Lados de Seia, Guarda.

 

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Mas esta aldeia tem ainda algumas características únicas, pois é a única aldeia do concelho (que eu saiba) que não tem uma capela, como também não tem edifício de escola (antiga ou actual), nem cemitério, embora este último não seja de estranhar, pois muitas das vezes, resume-se ao cemitério da freguesia.

 

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Estranho não haver capela, a não ser que exista e eu não tivesse visto, mas duvido, pois a aldeia praticamente resume-se ao que está construído ao longo da tal Rua Central que liga as duas aldeias. Existe, isso sim, num pequeno largo da aldeia um nicho recente (daqueles que agora estão na moda) com uma santa.

 

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E é quase tudo sobre Sandamil, pois apenas falta referir o que por lá se faz, ou seja, agricultura com o que é tradicional no alto planalto do Brunheiro. Algum gado, batata e centeio, fora isso, penso que haverá gente (mais jovem) a trabalhar fora da aldeia, além dos seus emigrantes, que também os terá. Tudo em número reduzido, pois estamos a falar de uma aldeia que é e sempre foi pequena, mas nem por isso deixa de ser interessante e tem até belíssimos exemplares de construção tradicional em granito.

 

Para se chegar a Sandamil, mais uma vez tomamos a EN 314 até às bomba de gasolina de France e logo a seguir vira-se à esquerda, ainda ante se se entrar na aldeia de France. Umas centenas de metros à frente, eis Sandamil.

 

Até amanhã, a inaugurar mais uma nova rubrica no blog, a alternar com os Ilustres Flavienses.

 

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