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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Sobrado - Chaves - Portugal

18.01.09 | fernando ribeiro

 


 

Recordando, lembrei-me que já uma vez tinha feito uma breve passagem pelo Sobrado. Fui à procura do que então disse e, continua actual (corrigido e aumentado):

 

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Nº1, nº2, 3 e 4 casas habitadas a 2 pessoas por casa = 8 pessoas. Eia como sou bom em matemática do despovoamento, ainda por cima é uma disciplina que é muito fácil de entender, nem tanto de compreender ou aceitar.

 

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É assim o Sobrado, o casco velho do Sobrado. Algumas casas mas pouca gente, apenas os mais resistentes, os que teimaram em ficar, por amor com certeza, e se amanham à terra com o mesmo jeito com que a amanham. Não partiram e vão fazendo a vida no contar (que já é descontar) dos dias, à espera que chegue o Natal que aqui, acontece em Agosto, nas féria de verão, quando a aldeia ganha alguma vida com gente jovem, quando é chegada a hora de receber os filhos e netos que andam lá fora a lutar pela vida.

 

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Triste sina a sina da vida na montanha deste Portugal desigual, mas o mais curioso e, que até chega a meter impressão, é que a gente da montanha é grande, valente e orgulhosa, não partiu, é certo, mas é como se tivesse partido por esse mundo fora e quando se vê ao espelho, vê filhos e netos com orgulho, honra e até vaidade de os saber bem na vida, na França, na Suiça ou seja lá onde for…e para eles, para estarem bem com a vida, é condição suficiente que os seus filhos o estejam e estejam livres da vida agreste da montanha.

 

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Tal como então, também o post de hoje é dedicado aos resistentes do Sobrado, septuagenários e octogenários que vivem os dias à espera do Natal de Agosto.

 

Setenta e tal anos a guardar ovelhas, setenta e tal anos como pastor que lhe deixaram muitas recordações mas também algumas mazelas nos ossos. Descobri-o há dois anos atrás a pedido de um neto e,  hoje é um amigo que é obrigatório visitar quando passo pelo Sobrado. É o Senhor Coelho ou o pastor do Sobrado. Tem saudades do tempo em que percorria todo o planalto do Brunheiro  à procura de boas pastagens, mas mais que saudades do tempo de pastor, tem saudades do tempo de juventude, de toda uma vida dedicada ao grande planalto. Agora, como resistente do mesmo planalto,  recorda os tempos passados e fez questão de me mostrar, o abrigo do rebanho e os restantes anexos da casa, posto de abrigo, dos tempos de pastor. É um dos resistentes do Sobrado,  com orgulho de uma terra que conhece melhor que ninguém, mas de uma terra que também dói nos rigores dos frios de Inverno, daqueles que se supõe viver naturalmente porque se está habituado, mas não é assim, o frio dói mesmo, nos ossos e até nos haveres que se guardam nas despensas do prevenir de todo um ano, e que com tanto frio, congelam e se estragam. Excepção para as carnes de porco, que no sal ou ao ar, agradecem o frigorífico natural dos Invernos do planalto.

 

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Mas vamos até ao Sobrado, uma pequena aldeia do planalto do Brunheiro e que quase se confunde e mistura com a natureza, entre a Amoinha e Nogueira da Montanha, não fossem as casas novas junto à estrada e, para desprevenido, o velho núcleo é quase como se não existisse, mas existe.

 

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O Sobrado pertence à freguesia de Nogueira da Montanha, localiza-se em pleno planalto do Brunheiro, fica a 15 quilómetros de Chaves e o acesso é feito (a partir de Chaves) pela estrada nacional 314, a tal que passa pelo Peto de Lagarelhos e que chegados a France, é só virar à esquerda (antes ou depois – tanto faz).

 

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O Sobrado, como todas as aldeias do planalto, é terra da boa batata, alguma castanha, lenha e as culturas próprias das terras altas, mas também tem as suas culturas de horta, aquelas que sempre existem junto às casas, onde não faltam as couves, as cebolas, os alhos, os tomates, as cenouras, a alface e tudo que se necessita para a subsistência do dia a dia e que o curto verão ainda vai permitindo, pois de Inverno, tirando as couves, pouco mais se dá por estas terras.

 

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Quanto ao topónimo de Sobrado e à sua origem, mais uma vez, e na ausência de melhor, vamos para as suposições. De todos os significados atribuídos a sobrado (termo) entre os quais se encontra “soalho”, “pavimento de madeira”, “casa de senhor de engenho”, “que sobrou”, “que resta”,  “excessivo” e finalmente “abastado”, com origem no Latim superátu, «elevado», eu, fico-me por esta última proximidade de significados/origem, pois caem-lhe bem e fazem sentido, não fosse Sobrado uma terra elevada do planalto e até abastada em termos de boas terras de planalto, onde convém não esquecer que este planalto é mesmo lá no alto do mais alto que a Serra do Brunheiro tem, ou seja apenas uma aldeia que fica a 830 metros de altitude.

 

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É também mais uma aldeia da freguesia, que tal como Sandamil, se reúne às quase únicas aldeias do concelho que não têm capela, nem cemitério nem escola, talvez pela proximidade da sede de freguesia (Nogueira), ou talvez por sempre ter sido uma pequena aldeia de montanha, que quase sempre se resumiu a um pequeno núcleo de casas típicas de arquitectura tradicional de granito e que só apenas nos anos 70/80 se viu crescer ao longo da estrada com algumas novas construções.

 

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Falta só mesmo referir a sua população, os números do despovoamento, pois segundo o Censos de 2001, a aldeia tinha 24 residentes, nenhuma criança com menos de 10 anos, 4 apenas 4 residentes com menos de 20 anos. Não vale a pena inventar, pois os números (penso) dizem tudo. Poucos, mas resistentes e boa gente que conhece melhor que ninguém a vida do planalto do Brunheiro e os rigores do Inverno e do frio, o mesmo que se sente e dói, mesmo que os senhores de Lisboa pensem que por aqui estamos habituados a ele e que nem sequer desperta alertas da protecção civil, aliás, aldeias que com frio ou sem frio, deveriam despertar sempre os alertas nacionais, mas claro, como em termos de rendimentos de votos nada contam, também não contam para nada – mas existem e têm gente, que segundo os direitos da democracia, deveriam ser considerados como os outros que têm direito a direitos. Por cá são mais as obrigações, que nessas, nunca somos esquecidos. É o tal Portugal desigual, que desde Lisboa, este que por cá existe, confunde-se com a paisagem.

 

 

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