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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Torga Alegre e Variações sobre Chaves

21.01.09 | Fer.Ribeiro

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Chaves, 26 de Agosto de 1991

 

Viver clandestinamente. Que outra maneira airosa tem um poeta de o ser neste mundo de hoje, senão a parecer uma coisa por fora e ser outra por dentro? Mas sê-lo, então, de verdade, frontal e desassombradamente, com a prova insofismável da poesia.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

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Também clandestinamente ou não vamos trocando os passos ou trocando-lhe os passos por entre vielas e calçadas, a sós, para as termos por mais inteiro, mais nossas, mais compreendidas. Há quem a compreenda por fora e por dentro, no seu mais íntimo, na sua poesia, porque sim, porque também tem poesia. Há quem a compreenda sim senhor, mas também há quem a compreendendo não se comprometa e desvirtue a poesia dos versos na contabilidade apressada do t€mpo, em que ruas e vielas se transformam em acentuadas escadarias que só sobem, sem fim e nunca descem.

 

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Gostos não se discutem, diz o povo e diz muito bem. Há quem goste de andar nas alturas, tal como aves de rapina, sempre bem lá no alto, solitárias e se descem, quando descem, é apenas por mais uma presa. Gostos de carne e de sangue rasgadas por poderosas garras que só cessa, quando de vez caem em terra e se confundem com ela.  Há no entanto quem tenha gostos mais simples, geralmente são os simples que assim gostam. Trocam de passos pelas calçadas e vielas, preferem-nas às escadas que sempre cansam, trocam de palavras aqui, de um gesto ali, ou de um olhar mais além. Olhares que vão para além de tudo e de todas as coisas, olhares cheios de arte e poesia, confunde-se com o amor, com que todos os dias trocam de passos nas calçadas e vielas, evitando as escadas que cansam e trocando de palavras aqui, de um gesto ali ou de um olhar mais além. Olhares do tamanho deste mundo, trocados com amor, como se todos os dias fossem de arte e poesia.

 

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Chaves, 26 de Agosto de 1991

 

Não é possível…E foi o rastilho:

            - Ó rapaz, acaba-me lá com essa ladainha do possível! Fala-me do impossível. Do impossível triunfo do teu clube. Da impossível moderação alcoólica do teu pai, da impossível atenção oficial às legítimas aspirações desta tua cidade natal. Vê se olhas a vida de uma vez para sempre sem muros à volta da imaginação.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

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Pois é, pois é…falar é fácil, não fosse este vento que traz  sempre uma trova quando passa e uma candeia dentro da própria desgraça pois há sempre alguém que semeia, canções no vento que passa. Mesmo nas noites mais tristes, em tempo de servidão, há sempre alguém que resiste e alguém que diz não…convém, é não nos deixarmos embalar pela poesia, pelo menos enquanto o voo das aves de rapina não cair por terra para se confundir com ela.

 

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E eis que termino depois destas variações, talvez incompreendidas, da trova do vento que passa de Manuel Alegre. Também o Variações (António) foi incompreendido em vida e afinal, diz-se hoje, que era grande.

 

Até amanhã, sem “poesias”, talvez com neve e com coleccionismo de temática flaviense.