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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Os Sabores e Saberes de Frei Tomás

04.02.09 | fernando ribeiro

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Ainda a feira “Sabores e Saberes” não se tinha realizado e já estava a ser um sucesso. Panfletos, cartazes e pendões de rua, notícias nos jornais nacionais e regionais, rádio e televisão, tendo mesmo honras da TSF com um programa em directo desde a feira e também da RTP no programa a Praça da Alegria, que segundo me contaram,  contou com a presença “da feira” em estúdio e transmissões em directo desde as Termas de Chaves.

 

Pode-se dizer que em termos de publicidade a organização já sabe como é que os sucessos se vão fazendo.

 

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A título de exemplo, deixo aqui a notícia publicada no “Notícias de Vila Real” (os sublinhados são meus porque é o mais importante):

 

 “Nos dias 30 e 31 de Janeiro e 1 de Fevereiro, a Câmara Municipal vai promover mais uma edição do evento “Sabores e Saberes de Chaves”, no Pavilhão Gimnodesportivo. Este ano, o evento conta com 61 expositores, mais 20 do que ano passado.

De realçar a procura de expositores a nível nacional, já que houve 80 pedidos que o Município não pôde satisfazer por falta de espaço. Desde 2004, a autarquia flaviense tem vindo a desenvolver, com base no Plano Municipal de Combate à Desertificação Rural, uma série de políticas que visam a inversão do fenómeno da desertificação humana, no território rural concelhio, assentes na exploração e valorização dos recursos naturais locais e no reconhecido património gastronómico, cultural, paisagístico e arquitectónico.

Através da valorização e protecção dos produtos tradicionais agro-alimentares considerados como genuínos e representativos no Concelho e do incentivo à criação de micro-empresas, com particular destaque para as “cozinhas tradicionais”, a Câmara tem paulatinamente lançando os alicerces para a concretização de iniciativas empresariais, em pequena escala.

O Certame “Sabores e Saberes de Chaves” representa a etapa fulcral de todo o projecto, que é a promoção dos produtos fabricados. Esta iniciativa é dirigida aos consumidores (locais/regionais, nacionais e espanhóis) que habitualmente compram produtos tradicionais de reconhecida qualidade e que apreciam eventos com bons momentos de animação e lazer.

A edição de 2009 vem confirmar que este evento encerra em si não só a promoção e valorização dos produtos locais, como começa a ser, pela crescente agregação de outros sectores de actividade, e pelo incremento de estabelecimentos e indústrias com base nas produções locais a laborar na área do concelho, um importante motor do desenvolvimento económico local.”

In Notícias de Vila Real

 

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Que bem pregou Frei Tomás, sempre foi assim, uma coisa é aquilo que diz, outra é aquilo que faz.

 

Claro que depois de lidas as intenções da Câmara Municipal, vertidas em notícia nos meios de comunicação social e publicidade, e principalmente naquilo que tive o cuidado de sublinhar na notícia, qualquer um, seja quem for, só pode  congratular-se com o os objectivos e espírito deste certame ou feira. Mas as boas intenções ficaram-se só pelo espírito e este até era invisível, pois a realidade foi bem diferente.

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Não compreendo, por exemplo,  como é que se pode combater o despovoamento do mundo rural flaviense e valorizar os recursos naturais locais e o reconhecido património gastronómico, cultural, paisagístico e arquitectónico, bem como promover a valorização dos produtos locais, com expositores e artesãos de Caminha, de Penafiel (2), de Vila Nova de Gaia (2), de Esmoriz, de Guimarães, de Bragança (2),  de Sever do Vouga, de Vila do Conde, da Lousã e de Barcelos. Deixo de fora os de Vilarandelo, Vilar de Perdizes e Verin, que dada a proximidade, até poderiam caber na nossa feira uma vez que comungam da mesma de realidade que à nossa. Ou seja, na minha modesta opinião e tendo em conta aquilo que se propunha,  os objectivos da feira não foram alcançados e pode-se considerar um fracasso, tanto mais que produtos que nos dão fama, como o presunto, só fez tímidas aparições e artesanato secular como os do barro preto de Vilar de Nantes, nem sequer apareceu e de artesanato tradicional (deixando de fora pulseiras e pulseirinhas, colares, anéis e outras bugigangas, que de tradicional e rural nada têm) apenas a cestaria apareceu por lá, e até para os pipos e pipinhos, que por acaso até ainda se fazem por cá (no Campo da Roda), tiveram de vir os de Esmoriz mostrar a sua arte.

 

Mas (e tendo em conta os objectivos propostos) o insucesso da feira é complexo e parte precisamente do despovoamento das aldeias e no ter-se deixado morrer tradições e artes artesanais, não tendo havido em tempo oportuno o acarinhamento e a sua promoção/implementação e o devido escoamento da produção. Dou outra vez como exemplo os barros pretos de Vilar de Nantes que estão em vias de extinção, pois já não há oleiros, numa aldeia em que há umas dezenas de anos atrás, porta-sim-porta-não havia um oleiro.

 

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Tudo passa pelo despovoamento das aldeias e, essencialmente, por políticas agrícolas erradas ou desajustadas com a nossa realidade interior de montanha e também ausência de políticas em termos turísticos e de promoção do nosso mundo rural, do nosso património, das montanhas, do natural e da gastronomia regional e tradicional, porque tudo isto está interligado e dependente umas das outras para o sucesso de um concelho e região que se queira afirmar. Ainda vamos lamentar a perda de tudo isto, ou aliás, já o estamos a lamentar, pois as medidas que agora se tomem, já são tardias. Exemplo disso e com todas as boas intenções que tivessem, é esta feira dos Sabores e Saberes, pois soube a pouco ou quase nada daquilo que temos ou tinhamos e saberes, também não houve.

No entanto as próximas edições dos Jornais locais vão dizer que a feira foi um sucesso e pela certa que os seus promotores também pensam assim, e além de pensarem, acredito, que acreditam que foi um sucesso e,  em termos de visitas, até o pode ter aparentado, pois o pequeno espaço facilmente se enchia,  mas não o foi para os Sabores e Saberes de CHAVES, quando muito poderia tê-lo sido para  Sabores e Saberes  indistintos, de um qualquer sítio, pois foi mais disso que se tratou e, esteve bem longe de contribuir para os sublinhados da notícia inicial.

 

Para uma feira assim, Chaves já tinha há coisa de 10 anos atrás uma feira que já fazia tradição, aquela que era promovida pela ADRAT todos os anos, no verão, ao ar livre, no Jardim Público e, essa sim, já começava a ser um sucesso. Ainda hoje estou para saber porquê se acabou com uma feira que já tinha tradição e milhares de visitas,  para a substituir por outras experiências sem sucesso. Há coisas que a minha ignorância não me deixa entender.

E poderia continuar por aí fora com mais lamentos, como por exemplo o de  uma ausência de palmatória nas barracas institucionais desta feira – A barraca das Caldas de Chaves, que essa sim, a sua água, tem sabor e o saber de alguns tratamentos, agora dados com o pomposo nome de SPA do Imperador, ou seja, mais do mesmo, conhecem-se os truques da publicidade, mas de resto, tudo como dantes. Mesmo assim, antes dantes que as associações ao Dantas do manifesto do Negreiro.

Quanto à barraca da Confraria de Chaves, por sinal apresentada com a mestria de quem sabe apresentar (o tal saber da publicidade), nada digo, pois ainda nada fez, só espero que aquilo que tem para fazer não se resuma a umas jantaradas abastadas com as nossas couves e fumeiro para justificar uma ida às Caldas e botar um copo na fonte das digestões difíceis e/ou,  ao fazer o bonito, vestidos com traje de cerimónia em aparições públicas. Ideias não faltam, concretizá-las é que se torna mais complicado. Ao que sei (e isto fica entre nós, pois foi em termos de confidência que mo venderam) para o próximo ano vai ser a Confraria de Chaves a organizar os “Sabores e Saberes de Chaves”. Conto que o blog ainda exista nessa altura e depois cá estarei para lhes dar os parabéns, ou não! Mas até acredito que sim, que seja pelo menos diferente,  não fossem as confrarias feitas do espírito maçónico de gente bem relacionada… vamos esperar para ver!

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Seria injusto se terminasse sem me referir àqueles que alinharam no verdadeiro espírito da feira e, em nome individual ou das suas empresas familiares, representaram as suas aldeias e freguesias, com o fumeiro que por lá se faz. Poucos para um concelho com quase 150 aldeias, mas bons. Uma palavra também para o pessoal dos pasteis  e das bolas, para o único artesão de Chaves que vi por lá com a sua cestaria, para o Patronato de S.José com os Bordados, Croché e linhos, para o Délio Silva com os azulejos e porcelana pintada, para os tapetes de tiras que não vi mas que constam do programa e para o vinho da Quinta de Arcossó, esse sim, além de bô, é um bô exemplo daquilo que se pode produzir por cá. Pena que seja o único a olhar com profissionalismo para os nossos produtos de qualidade e que este também sim, contribui para o não despovoamento das aldeias ao com a sua produção dar trabalhos a três ou quatro famílias de Arcossó, além de logo nos primeiros anos de produção entrar para o ranking dos melhores 250 vinhos nacionais.

 

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Uma palavra também para os grupos flavienses que contribuíram com a animação musical, em especial para os grupos de Selhariz, Vilas Boas, Stº Estêvão, Ventuzelos  e da Cela. Também para o Mané & Mané, embora lamente que estes tivessem de actuar para o pavilhão quase vazio. Penso que o mesmo não teria acontecido com o Quim Barreiros, pois já se sabe que quando toca a pimbalhada, a enchente é garantida, só faltou mesmo o foguete no ar.

 

Sabores e Saberes de Chaves – Uma feira com sucesso. Aqui entra o ditado popular “ O pior cego é aquele que não quer ver”.

 

Até amanhã com o coleccionismo de temática flaviense.

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